O livro mais pornográfico da Bíblia

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Antes de atirar a matéria à fogueira, entenda o que é pornografia e sua relação com a Bíblia

Do grego pornographos, a expressão junta as palavras porne, prostituta, e graphein, que significa escrever. Uma tradução literal seria: “aquele que escreve sobre prostitutas”. No princípio, a palavra pornografia era utilizada na arte e nas escritas clássicas. Somente nos últimos séculos que se tornou sinônimo do que é sexualmente malicioso.

Mas o que teria a ver com a Bíblia? Segundo o livro sagrado do cristianismo, qualquer pessoa que olhe para uma mulher e a deseje em seu coração já cometeu adultério, prostituiu-se (basta conferir Mateus Cp.5 v.28).

E Cantares ou Cânticos de Salomão, dependendo da tradução, é uma composição de amor e muito sexo, até mesmo uma prostituição generalizada.

O livro mais pornográfico da Bíblia

Apesar de concebida como um único livro, a Bíblia é subdividida em partes também denominadas de “livros”, a partir de autores diferentes. É atribuído a Salomão, terceiro monarca de Israel e filho de Davi (aquele que matou o gigante Golias), a autoria de três destes livros – Provérbios, Eclesiastes e Cantares –, sendo que os dois primeiros possuem um caráter de filosofia prática. Eclesiastes, nalguns pontos, até lembra o tom de algum filósofo alemão pessimista. Mas é do terceiro livro que trata esta matéria, o poema erótico: Cantares de Salomão.

Composto de oito capítulos e escrito em versos, o livro apresenta três perspectivas: a da Sunamita, que seria a noiva; a de Salomão; e a do coro, dando a entender nalguns momentos que seja “o povo”. Ao saber-se que o poema foi escrito para ser cantado, ao lê-lo nas traduções mais recentes da Bíblia, não são poucos os momentos que se tem a sensação de estar lendo o texto dum musical.

"A Song Of Salomon", tela do pintor Kim Nelson
“A Song Of Salomon”, tela do pintor Kim Nelson

Por que pornográfico e seu tom erótico

Quando afirmei que tal livro é pornográfico, pautei-me na Bíblia e na definição do termo pornografia. O livro sagrado dos cristãos defende que toda relação sexual deve ser consumada após o casamento. Contudo, em Cantares de Salomão, a noiva e o noivo têm inúmeros momentos em que se “come o favo de mel”, para usar um termo do texto. Se toda a relação sexual fora do casamento, segundo a Bíblia, é prostituição; então, Cantares de Salomão é um livro incrivelmente pornográfico.

O livro começa com uma declaração de amor da mulher ao noivo, seguindo-se dum trecho de coro em que se exalta este amor. A seguir a sunamita se justifica sobre sua cor escura (Cp. 1 v.6) através duma desculpa um tanto esfarrapada, pedindo às mulheres de Jerusalém que não a condenem, pois seus irmãos a obrigaram a trabalhar no sol. Daí para frente, o texto vai alternando entre ele, ela e o coro, passando dum amor mais idealizado, para o ato sexual.

Os termos utilizados se revezam entre uma perspectiva animal, ou seja, claramente uma metáfora de prazer físico (como “corça selvagem” e seios como “duas crias gêmeas de gazela); e expressões que evocam o paladar (como “lábios com gosto de mel” e o pedido dela para que ele “coma as suas melhores frutas”). Sem falar das declarações e convites literais: “Ele me levou ao salão de festas, e ali nos entregamos ao amor” (Cp.1 v.4); e “Venha, querido, vamos para o campo; vamos passar a noite nas plantações de uva” (Cp.7 v. 11). E há até uma passagem em que ela se desespera de ter ficado com a cama vazia.

No capítulo três, a sunamita afirma que “Noites e noites, na minha cama, eu procurei o meu amado; procurei, porém não o encontrei” (Cp.3 v.1). A seguir ela sai à procura do amado e pergunta aos guardas da cidade sobre ele, logo o acha. Diz que ele vem subindo pelo deserto, cercado por sessenta soldados, que sabem manejar bem a espada. Noutras palavras, ele é um homem tão viril que tem sob seu poder sessenta espadas, um símbolo fálico.

A partir daí o livro vai se tornando cada vez mais sexual, mais literal e menos metafórico.

"Song of Songs of Solomon" (1971), tela de Salvador Dali
“Song of Songs of Solomon” (1971), tela de Salvador Dali

O final insinua um tom de incesto, quando a noiva deseja que Salomão fosse seu irmão. Primeiro, argumentando que poderia lhe cumprimentar livremente com um beijo na rua. Depois, afirma diz: “Eu o levaria para casa e ele me ensinaria” (Cp.8 v.2). Um corte seco. Ensinaria o quê? A seguir, o coro afirma que têm uma irmãzinha que “ainda tem seios pequenos” (Cp.8 v.8); no entanto, não fica claro quem é a tal irmãzinha.

O texto encerra repetindo trechos já citados no poema.

Pornográfico, mas poético e romântico

Mas antes que pensemos que é um livro que fala apenas de comer (o favo de mel) e chupar (o cacho de uvas); é importante ressaltar a força poética e romântica expressa nas palavras deste poema hebraico. Apenas para citar um trecho, o capítulo oito e versículos seis e sete trazem uma bela declaração de amor:

“Grave o meu nome no seu coração e no anel que está no seu dedo.
O amor é tão poderoso como a morte; e a paixão é tão forte como a sepultura.
O amor e a paixão explodem em chamas e queimam como fogo furioso.
Nenhuma quantidade de água pode apagar o amor,
e nenhum rio pode afogá-lo.
Se alguém quisesse comprar o amor e por ele oferecesse as suas riquezas, receberia somente o desprezo”.

Poesia, sexo e amor, tudo isso no livro mais pornográfico da Bíblia: Cantares de Salomão.