O mundo agridoce de Bambi

Bambi – Uma história de vida na floresta, de Felix Salten, é um clássico infantil que, mesmo em sua dureza e simplicidade, é tão delicado quanto complexo

Bambi - Felix Salten
Bambi (Cosac Naify, 2015), do escritor Felix Salten | Foto: Sergio Carvalho

Poucas histórias podem ser realmente chamadas de agridoces. Por mais que misturem doçura e amargor, acabam caindo mais para um dos lados. Ou envolvem tantos sentimentos no enredo que classificá-las com um único adjetivo seria um reducionismo injusto. No entanto, este é o caso de Bambi – Uma história de vida na floresta (2015), clássico da literatura infantil publicado por Felix Salten em 1923. Sucesso imediato, alcançou maior notoriedade após a adaptação cinematográfica da Disney, em 1942.

O filme, aliás, é tido por muitos como um dos mais impactantes do estúdio, por cenas como a da morte da mãe do protagonista e a do incêndio que destrói a floresta. Mas quem acha que a Disney capturou o espírito da história original ao lidar com a morte e a perda, esquece que o longa conta com cenas dedicas exclusivamente a amenizar esses elementos. Não é o caso da obra literária.

O que começa com o que parece uma visão açucarada das descobertas feitas pelo jovem Bambi na floresta logo se transforma em um relato franco, forte e inteligente sobre a vida selvagem e a intervenção humana sobre ela. Salten consegue relatar a rotina e o convívio entre os animais sem projetar valores humanos em suas ações. Afeto, liberdade, solidão… Bambi sente isso, mas não da forma como um protagonista humano sentiria. A necessidade de sobrevivência e a aceitação de certas condições – inerentes ao funcionamento de qualquer ecossistema – permeiam suas atitudes e desejos. Ainda assim, temos um protagonista capaz de questionar o mundo a sua volta, sedento por entender quando é capaz de alterá-lo.

A narrativa o acompanha desde o nascimento até a maturidade, passando pela abundância do verão, as mudanças do outono, a dureza do inverno e o renascer da primavera. Outros personagens o acompanham nessa jornada: sua mãe, que desde cedo lhe ensina as regras da floresta; os príncipes, cervos que vivem afastados dos filhotes e fêmeas, exibindo suas coroas; Falina, sua companheira de brincadeiras e, posteriormente, interesse amoroso; Gobo, irmão de Falina, seu amigo de infância adotado por humanos; o Coelho, para quem a vida é sempre dura; a orgulhosa Corujinha, que acredita piamente que Bambi sempre se assusta com suas investidas; o Velho Príncipe, mais antigo e sábio dos cervos, mentor de Bambi; Marena, a cerva gentil que acredita que Ele e bichos farão as pazes; Nettla, a cerva cansada de cuidar de filhotes; o Esquilo, a Raposa, os Alces, o Cachorro, e, claro, Ele. A criatura mais terrível da floresta, com patas brilhantes que disparam trovões capazes de abater qualquer animal.

Para cada momento de encanto e paz, o livro apresenta um instante de tensão e dificuldade. Um lado não existe sem o outro. Bambi percorre os caminhos da floresta ao lado da mãe, que passa a rechaçá-lo por “não ser mais um filhotinho”. Os bichos se divertem no descampado, pouco antes de serem encurralados por Ele numa sanguinolenta caçada. Bambi é reconhecido como príncipe, apenas para escolher o isolamento. Nosso protagonista vai se refrescar num lago e observa um grupo de patinhos sendo treinados pela mãe a se esconderem das ameaças. Num instante, a pata é abocanhada pela Raposa, e os órfãos interpelam seu observador para saber sobre ela. Bambi segue seu caminho, porque a vida quis assim.

Um dos mais belos trechos do livro é o diálogo entre duas folhas prestes a cair, na virada do outono para o inverno. Uma das folhas diz que a floresta não está mais como antes – as árvores estão peladas, ela mesma ganhou uma coloração marrom, feia:

– Será que é verdade – disse a primeira –, será que quando formos embora outras ocuparão o nosso lugar e depois outras e outras…?
– Claro que é verdade – sussurrou a segunda –, não gosto nem de imaginar… não dá para entender.
– E a gente fica muito triste com isso – acrescentou a primeira. Ficaram caladas por um tempo. Então a primeira disse baixinho para si mesma: – Por que temos de ir embora…?
A segunda folha perguntou: – O que vai acontecer conosco quando cairmos…?
– Nós vamos descer…
– O que tem lá embaixo?
– Não sei – respondeu a primeira. – Uns dizem uma coisa, outros dizem outra…mas ninguém sabe.
A segunda perguntou: – Será que a gente ainda sente algo, será que ainda tem consciência de si lá embaixo?
A primeira respondeu: – Quem pode dizer? Nenhuma das que desceram voltou para contar (SALTEN, 2015, p. 74).

A companheira a consola, diz que continua linda, “[…] talvez aqui e ali tenha aparecido uma mechinha amarela quase imperceptível, o que só deixa você ainda mais bonita” (p.75). A outra agradece: “Sempre foi tão boa comigo…só agora compreendo de verdade como você foi boa” (p. 75) . Não terminam a conversa. Uma das folhas se desprende – a mais velha das duas – e o inverno começa.

As reflexões vêm desse jeito, secas e retumbantes, como maretas que ondulam na água após o arremesso de uma pedra. E entramos no ritmo do livro, no ritmo dessa floresta que ao mesmo tempo é literal e metafórica, guiados pela sabedoria do Velho Príncipe que, em sua rigidez generosa, repassa a mais importante das lições: “Ouvir, farejar e olhar por conta própria. Você tem de aprender a averiguar por si só”.

 

Referência: 

SALTEN, Felix. Bambi – Uma história de vida na floresta. Trad. Christine Rohrig. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

Ana Luiza Figueiredo
Doutoranda e mestre em Comunicação pela UFF, sendo formada em Publicidade e Propaganda pela UFRJ. Atua como consultora acadêmica, escritora, revisora, copidesque e redatora publicitária. Autora do livro infantil "O Mirabolante Doutor Rocambole", finalista no Prêmio Off Flip de Literatura. Integra a coletânea "Contos de Encantar o Céu", que compõe o catálogo da 56ª Feira de Bolonha e o acervo básico da FNLIJ. Assina a peça "Entre Nuvens e Ladrilhos", montada pelo coletivo Paraíso Cênico. Sua pesquisa de mestrado sobre maternidade nas mídias sociais, vencedora do Prêmio Compós, em breve estará disponível em formato livro. Acabou criando um site para dividir textos, dicas, investigações e projetos no mesmo espaço.
Ana Luiza Figueiredo
Doutoranda e mestre em Comunicação pela UFF, sendo formada em Publicidade e Propaganda pela UFRJ. Atua como consultora acadêmica, escritora, revisora, copidesque e redatora publicitária. Autora do livro infantil "O Mirabolante Doutor Rocambole", finalista no Prêmio Off Flip de Literatura. Integra a coletânea "Contos de Encantar o Céu", que compõe o catálogo da 56ª Feira de Bolonha e o acervo básico da FNLIJ. Assina a peça "Entre Nuvens e Ladrilhos", montada pelo coletivo Paraíso Cênico. Sua pesquisa de mestrado sobre maternidade nas mídias sociais, vencedora do Prêmio Compós, em breve estará disponível em formato livro. Acabou criando um site para dividir textos, dicas, investigações e projetos no mesmo espaço.
- Advertisment -

Em Alta

- Advertisment -