O papel do leitor e do autor em Casa Tomada

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Se “todo texto é uma máquina preguiçosa pedindo ao leitor que faça uma parte de seu trabalho”, que parte caberia ao leitor desenvolver e que parte já é fornecida pelo autor no texto? Segundo Eco, toda obra é elíptica, em maior ou menor grau. A escolha de quanto e o que emitir definirá o tipo de leitor adequado para aquele texto. O autor deve ter essa consciência ao escrever, bem como ao conjunto dos elementos do texto que guiam a leitura (narração, descrição, gênero textual, tipo de linguagem, etc.) Eco chama de autor modelo.

De acordo com a metáfora de Eco, em que ele compara os textos a serem lidos a bosques a serem percorridos, cada texto constrói caminhos para o leitor e cada interpretação é uma aposta, um caminho escolhido. Há textos que são como jardins bem iluminados, ou seja, textos com uma interpretação fechada e nítida, e outros que são obscuros e com bifurcações, em que se exige que o leitor, caminhante do bosque, tenha o equipamento necessário para não se perder, isto é, tenha certa experiência de leitura e base teórica para saber compreender o texto.

Em Casa Tomada, conto de Julio Cortázar que pode ser classificado dentro do realismo fantástico, a ausência de certas informações é tão importante quanto, ou provavelmente até mais, o que é narrado. Por ser um enredo em primeira pessoa, talvez seja possível dizer que o narrador exerce plenamente o papel de autor modelo, já que é ele quem dispõe os elementos no texto, é ele quem decide o que contar e como contar. Neste conto, muitas informações precisam ser deduzidas ou mesmo supostas pelo leitor por meio das pistas contextuais. Não se sabe quem tomou a casa: bandidos, espíritos, a pura imaginação dos moradores, ou se isso seria uma metáfora para as lembranças que invadem nossa mente e contra as quais tentamos lutar. Também é difícil compreender por que os moradores não chamaram a polícia, não tentaram recuperar a casa, pois num contexto real isso não faria sentido. Mas, no contexto ficcional, que segue uma lógica interna não necessariamente condizente com a lógica do mundo externo, essa atitude é perfeitamente aceitável.

É curioso observar que o autor empírico, Julio Cortázar (espécie de autor que, para Eco, não tem importância para o processo de interpretação, uma vez que o que vale buscar é a intenção do texto e não a do autor em si) foi, de certa forma, um interpretador ou um guia de interpretação de seus próprios textos. Ele deu entrevistas esclarecendo certos pontos sobre o processo de construção de suas obras e sobre as possíveis interpretações, o que poderia ajudar os leitores no entendimento de seus textos, mas também poderia limitá-los.

A narrativa contemporânea constrói leitores que estão acostumados a fazer o trabalho quase todo, leitores que acreditam ter total capacidade criativa para a construção do sentido, quando na verdade, muitas vezes implicitamente, o narrador impõe limites em certos momentos, assim como acontece em Casa Tomada.

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O gênero fantástico, presente no conto, é aquele que foge aos padrões previsíveis da realidade, inquietando o leitor que espera que os fatos obedeçam a uma ordem real. O conto parte de uma situação corriqueira e banal, mas vai além disso quando propõe um mistério que desnorteia e desloca o leitor.

Em Cortázar, o fantástico se desenvolve sob o plano da realidade subvertendo-o, abrindo no real uma fissura para a irrealidade. Ao estabelecer essa fissura, o autor cria uma incerteza de quem possa ter tomado a casa. O elemento principal dessa narrativa são os ruídos, que passam a gerar toda a gama de incertezas que circundam o texto.

O leitor deste conto jamais pode ser passivo em relação ao que está lendo, visto que, mesmo sendo uma narrativa de estrutura linear, o texto em si exige uma postura crítica em relação ao próprio texto. As inquietações lançadas pelos ruídos causam um sentimento de estranheza no leitor, que é deslocado de seu universo, perturbando-o.

Assim, a narrativa propõe um eterno retorno ao texto na tentativa de desvendar os mistérios instaurados no conto. Dessa forma, o leitor precisa constantemente retornar a certas passagens para que as hipóteses de leituras possam ser consolidadas.

À medida que Irene tece e destece seu tricô, devemos tecer e destecer o emaranhado de significações escondido nos novelos textuais; papel ativo não somente para o crítico e o analista, mas também para o leitor.

Nota-se então a necessidade do “leitor modelo” para o conto, que seria aquele leitor com disposição a entender a estrutura do texto. O texto constrói o leitor modelo e não somente conta a sua disposição de entender o texto: o texto tem como função dar as pistas. Diferencia-se deste, então, o “leitor empírico” que seria o “leitor sem lei”, que transfere as emoções para o texto; faz uma leitura descompromissada, não se importando com a estrutura do texto em si.

É transmitida ao leitor uma desconfiança sobre os pensamentos do narrador, que se apresenta ao leitor de maneira humilde e tranquila, disfarçando sua visão egocêntrica. A irmã, Irene, é descrita por ele de maneira plácida. Por exemplo: não se vê em nenhum momento do conto o que Irene pensa a respeito da casa, dele e dos fatos que acabam se sucedendo, sendo sua personalidade totalmente filtrada pela lógica do narrador, às vezes extremamente contraditória. É inegável também perceber o quanto a personalidade de um acaba complementando a do outro, levando à ideia do duplo, uma dicotomia extremamente utilizada no conto moderno. Sendo assim, cabe ao leitor atento saber desvendar esses “novelos textuais” no conto analisado.

Conclusão

Consoante à linha argumentativa explicitada, nota-se que em Cortázar temos a presença de uma narrativa de vanguarda, na qual se encontra essa intenção de angústia e, ainda mais, de não apresentar claramente o sentido do texto. Sendo assim, observa-se seu caráter elíptico, fazendo com que o leitor pressuponha informações (leitor empírico) ou se comprometa com a leitura do texto (leitor modelo), posto que o caráter elíptico do texto depende do tipo de leitor e da visão de mundo.

Levando-se em conta que não existe interpretação errada, mas sim interpretação adequada (que segue as pistas dadas pelo autor modelo) e inadequada (que foge à proposta do texto), e que Eco não condena o leitor empírico, apenas alega que ele não tem ferramentas suficientes para a construção de uma interpretação mais completa, é interessante observar a possibilidade de ser, ao mesmo tempo, leitor empírico e modelo. Leitor modelo, atento e produtivo, construído pelo autor modelo ao longo da narrativa, e leitor empírico, livre e inspirado, que lê pelo prazer da experiência. E, assim como alguns bosques são iluminados e outros escuros, cabe ao leitor escolher por qual bosque passear, já que o autor pretendeu em sua narrativa que as lacunas sejam, de alguma forma, preenchidas durante o passeio por suas palavras…

 

Bibliografia e Sitografia:

ECO, Umberto. Interpretação e superinterpretação. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

_____. Entrando no bosque. In: Seis passeios belo bosque da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. (p.7–31)

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