O Pistolão na Literatura: Uma questão de Q.I.

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Saiba por que os novos autores não dependem apenas de talento e dedicação para ter o seu lugar ao sol no mercado editorial no Brasil.

zazazExiste um ditado que diz: você não precisa mandar; só precisa ter o telefone de quem manda.

E como todo dito popular, este também é lamentavelmente verdadeiro, e explicarei por que. Em minha última coluna, falei sobre o famoso ‘jabá’ – uma espécie de propina que é paga pela editora, pelo agente, pelo patrocinador ou pelo próprio autor, para que seu livro seja decentemente divulgado em jornais, revistas e emissoras de rádio e TV de ampla abrangência.

Porém, se você não possui dinheiro suficiente para ver sua obra em destaque nos principais veículos de comunicação do país, existe outra opção, mais econômica, mas nem por isso mais acessível: o pistolão. Ou QI – mundialmente conhecido como Quem Indica.

Neste caso, não é necessário ter muito dinheiro para investir; basta ser amigo das pessoas certas.

Seja para publicar seu livro através de uma editora de renome, ou para divulgá-lo em grandes veículos de comunicação, o jeito é amigar-se do rei, ou dos amigos do rei, e esperar que eles lhe abram uma porta.

É esforço desperdiçado acreditar que somente o talento te levará para as cabeças – e aqui me refiro ao mercado da literatura, da música, das artes plásticas e por aí vai. Sem uma boa indicação de algum figurão do mercado editorial, você continuará enviando seus textos para grandes editoras e grandes veículos de comunicação sem obter sequer um retorno dizendo: não.

Quando terminei o meu primeiro livro, lá por meados de 2004, também acreditava que talento e dedicação poderiam me levar ao topo. Tinha a doce convicção de que, se trabalhasse duro e muito, cedo ou tarde estaria sentada no sofá do Jô, de frente com Gabi, sendo publicada pela editora Record e com muitos confetes caindo sobre a minha cabeça.

Tanto que gastei pequenas fortunas enviando meus originais impressos e encadernados para selos como Companhia das Letras e Editora Globo – risos. Santa ingenuidade! Nesta época, grandes editoras ainda mandavam uma cartinha, dizendo que o livro era maravilhoso, incrível, genial, MAS que infelizmente ‘não se encaixava em sua proposta editorial’. Sei.

Não demorou até que eu percebesse que tinha caroço nesse angu. Lancei meu livro por uma editora pequena alguns anos depois, e foi então que descobri que o tal do pistolão não estava presente somente nos grandes grupos editoriais: ele estava também nas redações de veículos de comunicação graúdos.

Enjoei de tanto enviar releases e reportagens sobre meu livro para jornais e revistas de prestígio, e nem cartinha de consolação recebia de volta. Em contrapartida, na mesma época autores desconhecidos, como eu, de editoras também desconhecidas, como a minha, se faziam presentes em quase todas as edições de um determinado caderno de cultura, pertencente a um dos maiores jornais aqui do Rio Grande do Sul. E eu me perguntava: de que jeito? Como eles conseguem e eu não? Qual é o meu problema? O que estou fazendo errado? Podia entender a preferência do veículo por escritores famosos, em detrimento de novos autores, mas estes eram tão desconhecidos quanto eu, e estavam lá, na capa do jornal. Por quê?

Até que, num belo dia, vi em uma rede social uma foto de um destes autores, figurinha cativa no jornal, tomando chope com o editor do dito caderno de cultura. Então tudo ficou claro: o meu erro e o meu problema era não ser amiga do rei – ou, neste caso, do editor.

tumblr_n4xzbvmd8z1to5xfco1_500Tenho mais exemplos: eu trabalho na Editora Os Dez Melhores, e em abril deste ano lançamos o livro Conte um Conto Vol. II, através de nosso selo social, o Nascedouro. A obra reúne 63 textos de alunos do Colégio Estadual Sananduva – um dos finalistas ao Prêmio RBS de Educação, promovido pela RBS TV, afiliada gaúcha da Rede Globo.

Resolvi enviar um release sobre o lançamento para o jornal Zero Hora, que pertence ao grupo RBS, pois imaginei que, em se tratando de um livro de uma escola que foi finalista de um prêmio promovido pelo grupo do próprio jornal, talvez tivesse alguma chance. Certo? Errado.

Para minha surpresa, um dos jornalistas do Zero Hora entrou em contato comigo. Pediu informações, fotos, materiais promocionais e informativos. Ligou até para a casa dos meus pais, e depois telefonou mais umas cinco ou seis vezes para o meu celular. Ainda falou com a direção da escola, com a professora responsável pelo projeto, e até com a fotógrafa que cobriu o lançamento. Pensei: opa! Vai sair!

Tolinha, eu. Depois de todo este barulho, o silêncio sepulcral. Não foi publicada sequer uma linha no jornal falando sobre o lançamento, sobre o projeto, sobre o livro. Segundo o jornalista, ‘não havia espaço’ na publicação para a divulgação do evento.

Não ‘há espaço’ quando você não é amigo do rei, do editor, das instâncias superiores. Mas me deixe pagar três chopes para quem manda, ou talvez investir alguns mil reais no veículo em questão, e eu aposto que, milagrosamente, surgirão muitos espaços no jornal, na revista, na TV, no caderno de cultura.

Estes episódios que relatei aconteceram no Rio Grande do Sul, estado onde nasci e vivo até hoje; mas não pense que esta é uma exclusividade gaúcha. Antes fosse! Todos os grandes veículos de comunicação, do Oiapoque ao Chuí, bem como todos os grandes selos editoriais, somente te darão espaço caso você possa pagar ou tenha um pistolão por trás – se tiver as duas coisas, melhor ainda!

E é justamente por este motivo que também não costumo confiar na idoneidade de prêmios literários, prêmios musicais, ou qualquer prêmio relevante voltado para qualquer área artística. Já ouvi conversas de editores e profissionais do meio afirmando que livros inscritos em grandes prêmios literários sequer são lidos pelos jurados, que recebem somente uma sinopse de cada obra concorrente. Ou seja.

O QI – e não estou falando em Quociente de Inteligência – define quem entra e quem sai, quem fica e quem vai embora, quem será reconhecido e bajulado e quem será esquecido e desprezado. Não se trata de talento, de dedicação, de esforço. Trata-se de quem você é, de quem é amigo e/ou do quanto pode pagar.

Daí a importância de pequenas editoras, de blogs literários, de prêmios locais, de jornais e revistas independentes. Sem eles, os novos escritores simplesmente não teriam opções. Era assim há alguns anos, antes da internet se estabelecer e abrir as portas para todos os artistas que, até então, viviam na marginalidade – e ali continuariam para todo o sempre, sem qualquer expectativa de encontrar seu lugar ao sol.

Quando decidi escrever sobre jabá e pistolão aqui, no Homo Literatus, meu objetivo nunca foi o de desmotivar os novos autores brasileiros, nem afirmar que não há solução e nem saída para quem não tem grana ou não é amigo do rei. Muito pelo contrário.

Nada mais quero do que mostrar aos novos autores – e aos novos artistas em geral – que, se eles não estão sendo lançados por grandes selos e nem aparecem em grandes veículos de comunicação, não é por que lhes falta talento.

É por que provavelmente lhes faltam contatos e dinheiro.

E claro: o telefone de quem manda.