O poder (quase) não explorado das publicações colaborativas

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Ou seja, o que vários autores independentes, unidos, poderiam causar de estrago positivo

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Pode ser estranho pensar sobre o conceito de “publicações colaborativas” em um primeiro momento. Mas é só parar para pensar um pouquinho para perceber que elas não estão nem um pouco distantes da nossa realidade cotidiana. Estou falando de livro sobre política, história, sociologia e até fotografia. Muitas publicações desses ramos reúnem diversos autores e especialistas para tratar, de diferentes ângulos, de um tema comum. Partindo das diferentes áreas de especialidade e diversos pontos de vista, em tese se cria uma publicação de maior aprofundamento acerca do assunto em questão.

Claro que, em suma, todo livro é publicado pela colaboração de inúmeros profissionais – de design, marketing, editoração, impressão, etc. -, considerando-se desde o momento de recepção do texto, passando por sua aprovação, todo o processo de editoração até a impressão e venda. Contudo, o seu conteúdo, e o que é feito dele, tende a ficar extremamente engessado em um processo já pré-estabelecido há muito tempo, que deixa o público leitor totalmente excluído de participação até o momento da compra.

Saindo do molde e do mercado editorial mais expressivo, encontram-se tímidas, porém significativas, realizações de edições e publicações colaborativas com abordagem mais literária. Nos mais diferentes suportes e materialidades, estas publicações começam a dar o tom do que pode vir a ser o futuro – ou pelo menos um braço expressivo – do mercado editorial. Publicações como a própria Pulp Fiction, que reúnem autores independentes e suas obras inéditas; que, além disso, ainda possibilitam ao público uma participação – mais ou menos aproximada – no processo de criação, desenvolvimento, ou até manutenção das publicações.

Pensando – talvez utopicamente – que essas publicações cresçam em número e alcance de público, reclamando assim seu lugar de direito no mercado editorial, passando a ser uma parte significativa das publicações, estaríamos diante de situações inéditas. Primeiramente, a valorização de autores anônimos não publicados pelo grande – e hoje praticamente inacessível – mercado editorial seria inevitável, se não praticamente mandatória. O próprio mercado editorial independente, que atualmente já valoriza este tipo de publicação, encontraria uma base ainda mais sólida para seus projetos mais audaciosos.

É daí que sai o gancho para o que seria a outra grande vantagem: variedade e até ousadia nos projetos gráficos e editoriais. Uma parte da coletividade desses projetos se configura pela participação também dos leitores no processo de editoração, sendo o financiamento coletivo um dos principais meios pelos quais isso se dá. Considerando que dessa forma é praticamente zero o risco de prejuízo com uma publicação, caem por terra também os motivos contrários à realização de projetos mais ambiciosos.

A Editora Empíreo, por exemplo, é uma das representantes do mercado editorial independente que soube aproveitar muito bem o potencial deste molde de projeto. Já são duas obras lançadas de forma totalmente colaborativa – Desnamorados (2014) e O Corvo (2015). As duas edições reúnem textos e ilustrações inéditos de autores e artistas independentes, ou que ainda estão começando sua jornada no mercado editorial. Na segunda obra, inclusive, o público pode participar da seleção do material que estaria presente no produto final do livro, por meio de votação online.

Claro que todo esse panorama, ainda que muito positivo, é extremamente simplificado, focando apenas nas vantagens e consequências boas do processo editorial. Quando se consideram processos legais, autoria e outros trâmites tudo se complicada. Mas, ainda assim, é estranho pensar em tamanho potencial de mercado ignorado, sentado no cantinho da sala fazendo todo mundo pensar que ele está de castigo.