O Poema, uma Beatnik americana e uma nicaraguense sandinista

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Margarett Randall  e Gioconda Belli: produções literárias femininas submetidas à negligência e à obscuridade

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Mulheres combatentes FSLN fotografadas por Margaret Randall

Margarett Randall (1936, E.U.A.), americana, fotógrafa e poeta da geração beatnik, radicou-se na década de setenta pelas Américas, exatamente no México, em Cuba e em Manágua, cidade da Nicarágua, mesma cidade que nasceu uma outra figura ativa no poema, a poeta Gioconda Belli (1948, Panamá).

A conexão entre estas duas mulheres na Nicarágua deixa delineado um traço ímpar no panorama operacional da produção poética, especificamente estas produções literárias que são submetidas à negligência, à obscuridade, à não atenção necessária, contudo carregam consigo uma carga de criatividade e radioatividade imagética que merece uma digestão mais demorada e satisfatória.

Margaret Randal é contemporânea do grupo da Geração beat, e alguma vez alguém já deve ter se perguntado; “Havia mulheres escrevendo entre Ginsgerg, Buk Kerouac, Snyder, Amiri, Burroughs e Ferllinghet?” O Gregory Corso responde:

“Houve mulheres, estiveram lá, eu as conheci, suas famílias as internaram, elas receberam choques elétricos. Nos anos de 1950, se você era homem, podia ser um rebelde, mas se fosse mulher, sua família mandava trancá-la. Houve casos, eu as conheci”.

E com Anne Sexton, Diane de Prima, Elise Cowen e Carolyn Cassad, a Margarett Randal também compunha esta ogiva feminina que atuava perfeitamente com a mesma ressonância poética no grupo americano, e Margarett vive atualmente nos E.U.A em fluido movimento de publicações que também não chegam as nossas linhas editoriais de tradução e publicação; de 2013 data seu último livro de poema publicado, “ poemas para los desaparecidos”, traduzido para o espanhol pelo Editorial La Cabra.

Randall efetuou na Nicarágua uma série de fotografias de mulheres nicaraguenses ativas na Frente Sandinista de Libertação Nacional, como também publicou obras que sintetizam esse diálogo como A Poetry of Resistance: Selected Poems and Prose from Central AmericaTodas estamos despiertas: Testimonios de la mujer nicaragüense de hoy.

“a esquina da America Latina
chama uma cidade
onde uma cerca de metal enferrujado
corta a areia branca, em seguida, desaparece
dentro da água que não sabe
de fronteiras.”
– Trecho do poema A esquina da America Latina de Margaret Randall

© Jenny Matthews/Network PhotographersImage Ref:JMA-10101694Women in Confict.Managua, Nicaragua 1984. Martha Lorena on guard duty outside the main telecommunications office.
A poeta Gioconda Belli fotografada por Margaret Randall da Geração Beat americana na Nicarágua.

Já na America Central dos anos 70 o poema também se depara com o panorama civil e social efervescidos com os regimes ditatoriais que assolavam os países; no caso da nicaraguense Gioconda Belli era este fator social e político somado à luta feminina.

Gioconda Belli, nascida em Managua, em 1972, decidiu se juntar de vez à Frente Sandinista de Libertação Nacional, dessa vez não mais como colaboradora clandestina, mas na linha de frente, deixando as filhas com a família. Foi correio clandestino, transportou armas, viajou pela Europa e América recolhendo recursos, divulgando a luta sandinista e escrevendo poemas. Situação semelhante à que passaram as figuras de Rene Castilho na Guatemala, Javier Heraud e Victor Jara no Chile e Leonel Rugama, nicaraguense,conterrâneo e contemporâneo de Gioconda Belli e outros(as) figuras que firmaram entre o poema e a guerrilha, como Ana Maria Rodas, autora do Poemas de la Izquierda Erótica, 1973“, Ernesto Cardenal, poeta e padre reprimido pelo Papa e que celebrava Missas Campais nos acampamentos da FSLN, e Tomás Borges Martínez, um dos fundadores da FSLN e que escreveu os poemas que compõem o livro Poesia Clandestina Reunida, confirmando ainda mais a periculosidade e a funcionalidade do poema diante destas situações.

O que mais me intriga, instiga e fascina é como, de que maneira, com que força, mesmo no meio de tamanho turbilhão e conturbação bélica, exista a possibilidade de escrever poesia? Cabe um verso da Sophia de Mello:

“De fato, um homem que precisa de poesia precisa dela, não para ornamentar a sua vida, mas sim para viver. Precisa dela como precisa de comer ou de beber. Precisa dela como condição de vida”.

Belli no seu trajeto poético inicia em 1972 com o livro Sobre la grama e depois com Línea de fuego, escrito no exílio no México. Prossegue com livros de prosa e poemas com títulos sugestivos como, por exemplo, Nova Tese Feminista, Regras Do Jogo Para os Homens Que Queiram Mulheres Mulheres, O Olho da Mulher, Eros é a água, A Mulher Habitada, Parto e  Menstruação. Seu último livro de poemas foi lançado em 2013,En la avanzada juventude”,  e como os anteriores ainda não foi traduzido para nosso português.

A poeta nicaraguense atualmente vive entre Nicarágua e Estados Unidos e é mais uma destas meninas que manejam o poema como uma ferramenta cirúrgica para expor contrastes, buscas e aquilo que até então estava silenciado. Como homem e instigado leitor, observo os versos da Gioconda Belli como antenas que transmitem esclarecimentos, apontamentos, denúncias, sugerem e revogam , servem para nutrir uma percepção anoréxica que temos de gênero e produção artística produzidos por poetas mulheres. É uma oportunidade de visualizar e conhecer através do verso este universo complexo que é alicerce, pedra fundamental, e a que muitas das vezes não damos a devida atenção, o ouvido, o respeito e o coração necessários para uma contemplação mais sincera e horizontal. Mulheres poetas, que embora desempenhem um importante papel no cenário da produção poética de seus respectivos países, nem sempre integram a historiografia tradicional canônica; injustiça que nos arremessa para a frase de Stevens Wallace quando diz:

“poesia não é uma atividade literária , e sim vital”

3Trecho do poema Regras do Jogo para os Homens que Queiram Mulheres Mulheres, de Gioconda Belli:

O amor de meu homem
não desejará rotular ou etiquetar,
me dará ar, espaço,
alimento para crescer e ser melhor,
como uma Revolução
que faz de cada dia
o começo de uma nova vitória.

Poema Menstruação, de Gioconda Belli

Tenho
o “mal”
das mulheres.

Meus hormônios
estão alvoroçados,
sinto-me parte
da natureza.

Norma Elena Gadea, singing in the fields near the Bismuna battlefieldTodos os meses
esta comunhão
de alma
e corpo;
este sentir-se objeto
das leis naturais
fora de controle;
o cérebro recolhido
retornando ao ventre.

Trecho do Poema Nova Tese Feminista, de Gioconda Belli

Não quero que me acusem de mulher tradicional
mas podem me acusar
tantas como quantas vezes queiram
de mulher.

5Poema Eros é a água, de Gioconda Belli

Entre tuas pernas
o mar me mostra estranhos arrecifes
rochas erguidas corais altaneiros
contra a minha gruta de ostras concha madrepérola
teu molusco de sal persegue a corrente
a água cruza inventa barbatanas em mim
mar noturno de luas submersas
teu ondular brusco de polvo excitado
acelera minhas brânquias os latejos de esponja
os cavalos minúsculos flutuando entre gemidos
enredados em longos pistilos de medusa.
Amor entre golfinhos
dando saltos te lanças sobre meu flanco leve
te recebo sem ruído te olho entre borbulhas
teu riso envolvo com minha boca espuma
leveza da água oxigênio de tua vegetação de clorofila
a coroa de lua abre espaço ao oceano.
Dos olhos prateados
flui longo olhar derradeiro
e nos levantamos do corpo aquático
somos carne outra vez
uma mulher e um homem
entre as rochas.

*As fotografias de mulheres guerrilheiras que acompanham estes últimos poemas foram tiradas por Margaret Randall, na Nicarágua, em 1970,