O posfácio de Lolita

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No posfácio de Lolita, Nabokov critica professor de literatura que busca as “intenções do autor” e fala sobre a inspiração para escrever sua obra-prima

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Vladimir Nabokov, autor de “Lolita”

Se bem elaborados, prefácios e posfácios de livros podem ser tão interessantes quanto seu conteúdo de fato. Quando escritos pelo próprio autor da obra então, acabam se tornando uma oportunidade de compreender o processo de escrita e/ou as opiniões literárias do escritor, que muitas vezes faz uma espécie de autocrítica, recomendações ao leitor ou lista de curiosidades sobre o livro. No posfácio de Lolita (1955), Vladimir Nabokov, que não abre mão de seu tom irônico, semelhante ao protagonista do romance, tece algumas considerações interessantes.

Ele começa criticando o tipo de professor de literatura que busca pelas “intenções do autor”. Como escritor, sua intenção com cada livro é apenas “livrar-se dele o mais rápido possível”, isto é, expurgar suas ideias no papel como uma necessidade interna inerente. Em seguida, Nabokov conta de que maneira (inusitada) teria surgido a inspiração para Lolita: durante uma temporada em Paris, ele leu um artigo sobre um macaco que, pressionado por um cientista, fizera um desenho em que só apareciam as grades de sua jaula. A partir daí, sabe-se lá por qual linha de raciocínio, surgiu a ideia da história de um homem de meia idade que se apaixona por uma adolescente, casando-se com sua mãe para tentar se aproximar da jovem. O autor produziu um conto em russo, que foi esquecido por quase dez anos na gaveta. Mais tarde, em Nova Iorque, quando reencontrou o manuscrito, foi novamente “atacado” pelo enredo. Decidiu desenvolver um romance, desta vez escrito em inglês, com certas modificações, como os nomes dos personagens (Humbert Humbert, Lolita) e o cenário (os Estados Unidos). O processo de elaboração foi lento, passou por diversas interrupções para dar lugar a outras obras, porém o romancista sabia do potencial de seu projeto, resolvendo investir nele.

Após a conclusão da escrita, a etapa de negociação com as editoras também não foi fácil. Quatro editoras americanas recusaram-no, alegando desde imoralidade a problemas com a técnica. O autor critica a hipocrisia social de sua época, que, ao mesmo tempo em que incita os jovens com referências sexuais nas publicidades, etc., não permite que a literatura apresente sua carga de erotismo sem ser vulgar ou moralizante. Ele explica que sua preocupação não é o didatismo, a lição de conduta, e sim o efeito estético. Finalmente, o romance foi aceito para publicação em Paris, causando grande escândalo.

O escritor também compartilha as interpretações que certos amigos lhe deram para Lolita: um compreendeu que representava “a velha Europa pervertendo a jovem América”, outro que seria “a jovem América pervertendo a velha Europa” (afinal, é Humbert quem seduz Lolita ou Lolita quem seduz Humbert?). Um editor teria dito ainda que o livro é anti-americano, crítica que Nabokov considera absurda e sem fundamento, pois apenas quis dar um pano de fundo alegre, quente à sua história. Ele finaliza com uma crítica de que Lolita seria o registro do caso de amor do autor com a literatura romântica. Nabokov substituiria apenas “literatura romântica” por “língua inglesa”, já que abriu mão dos próprios recursos de sua língua materna, o russo, para arriscar-se num “inglês de segunda categoria”.

Para o escritor iniciante ou mesmo o leitor curioso, é uma experiência enriquecedora saber sobre os percalços dos autores consagrados. Dificuldades de desenvolvimento da escrita da obra, de publicação, de aceitação pela crítica, são obstáculos no caminho de qualquer pretenso autor. Acreditar em si mesmo e em sua obra pode fazer a diferença entre o potencial sucesso e a desistência fracassada. Vladimir Nabokov batalhou pela criação de Lolita, e até hoje muito se lê e comenta sobre o caso mórbido do pedófilo cínico com sua ardilosa ninfeta.

 

Referência:

NABOKOV, Vladimir. Sobre um livro intitulado “Lolita”. In: Lolita. Tradução de Jorio Dauster. Rio de Janeiro : O Globo : São Paulo : Folha de São Paulo, 2003.