O princípio de ver histórias em todo lugar, de Leonardo Villa-Forte

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Em O princípio de ver histórias em todo lugar, Leonardo Villa-Forte discute de forma inusitada e bem-humorada o processo de escrita e a literatura

12138337_10207150705901166_4955456253053858647_oEsteja você procurando informações sobre o processo de escrita, ou apenas um bom livro para se distrair por algumas horas, encontrará o que deseja em O princípio de ver histórias em todo lugar (Editora Oito e meio), romance de estreia de Leonardo Villa-Forte. Por meio das paranoias de um homem ciumento, o autor nos apresenta e discute, de forma bem-humorada, diversas questões pertinentes ao universo dos escritores e da literatura como um todo.

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O princípio de ver histórias em todo lugar (Oito e Meio, 2015)

Na história, o personagem principal, que é publicitário e ex-aspirante a escritor, decide ministrar uma oficina de criação literária em sua própria casa, depois que sua namorada, Cecília, viaja para a Alemanha a trabalho. Seu intuito com as aulas é fazer novas amizades e esquecer Cecília, pois desconfia que ela esteja planejando se encontrar com o ex-namorado, que foi morar naquele mesmo país alguns anos antes. Se a oficina desse certo, em três meses, quando a moça voltasse, ele já estaria em uma nova vida e pronto para romper o relacionamento. No entanto, as coisas não ocorrem como o esperado e, em vez de esquecer a namorada, ele acaba relacionando a ela tudo o que se passa ao seu redor.

Durante as aulas da oficina, o protagonista, agora professor, analisa os textos de seus alunos (Luiz Augusto, Carina, Roberto, Thomas e Felipa), na maioria das vezes com interpretações errôneas, e discute (ou tenta discutir) diversos pontos ligados ao processo de escrita, como se vê a seguir:

E eles não somente buscavam avaliar e repensar cada frase ou parágrafo dos seus textos, mas agora me indagavam sobre a história da literatura, do conto, do romance, da poesia, pediam dicas de autores do passado, autores que se relacionavam com o estilo deles, com os temas de cada um, me questionavam sobre o futuro do texto, a relação com as novas tecnologias e me perguntavam o que eu achava dos autores contemporâneos, da nova geração… Deus do céu, e eu lá os conheço? Eles queriam que eu soubesse absolutamente tudo! (p. 88 e 89)

Através dessa paródia sobre as oficinas de escrita, que traz personagens bem-definidos e interessantes, o escritor Leonardo Villa-Forte traz à tona questões como: o que é considerado literatura hoje?; o que é ser um “grande escritor”?; por que escrever?; vale a pena tentar ser escritor?; é interessante para um iniciante participar de oficinas literárias?; é possível conhecer o escritor por meio de seus textos?; e muitas outras.

É certo que a maior parte de nós estava lá em busca de algum tipo de diálogo. Vivíamos em solidão. Escrevendo, reescrevendo, elaborando… Foi dessa solidão, e da pressão de criar algo respeitável, que pretendi escapar quando parei de escrever. Vi que meu negócio era outro. Boa mesmo é a solidão do leitor. (p. 38)

Cada um dos personagens ganha voz na obra por meio dos textos que apresentam ao suposto professor ao longo das aulas. Subenredos se formam, tornando o livro ainda mais interessante. O final inusitado coroa o livro e instiga o leitor a uma segunda leitura. Por meio de seu protagonista, o escritor também nos alerta:

Lembrei a eles que, se realmente quiserem seguir escrevendo, precisariam se acostumar a lidar com as pancadas que viriam de todos os lados. (p. 174)

Leonardo Villa-Forte, que também tem entre seus trabalhos o livro de contos O explicador (Editora Oito e meio), lançado em 2014, certamente faz uma bela estreia no romance com O princípio de ver histórias em todo lugar.

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