O problema da fila na livraria

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Rodolfo estava numa livraria em busca de novos títulos. Na verdade, ele já tinha ideia do que queria ler. Ideia, não. Ele tinha certeza do queria. Procurava por contos eróticos. Mas também tinha certeza do que ele não queria: a ajuda de um funcionário em sua busca. Queria ler a contracapa dos livros sem ser incomodado. Até aí tudo bem, pois ele havia conseguido dispensar o vendedor. Entretanto a fila…

Sim, a fila do caixa estava imensa. Como escapar de olhares maldosos e sussurros condenáveis? Olhou para o título de seu livro: “Momentos de puro prazer e orgias intermináveis”.  Não, melhor não arriscar. Decidiu trocar de livro. Leria esse tipo de obra em suas férias na praia. Lá, ninguém iria dar bola para a sua preferência literária. Dessa forma, Rodolfo decidiu ler um livro policial. Não demorou muito para escolher um livro. Mas a fila…

A fila continua extensa. O que pensariam dele com aquele livro? Olhou para o título: “Quando matar bandido vale a pena”.  O que falariam dele? E a dona Maroca. Dona Maroca era a vizinha de sua mãe e ela estava na fila e de vez em quando ela espichava um olhar para ele e suas mãos. Na certa queria saber o que ele escolhera. Melhor trocar de obra. Decidiu pegar um romance. Desses bem açucarados. Pegou “Como não amar João?”. Estava decidido em sua escolha quando viu o vizinho de seu tio, João Pedro, ali na fila. Droga, parecia que todos os seus conhecidos decidiram comprar livro naquele mesmo dia e na mesma livraria?! Rodolfo deu uma espiadinha pelo canto dos olhos e lá estava o olhar de João Pedro grudado nele. Melhor trocar de livro, pensou.

Caminhando pela livraria, decidiu ler algo diferente. Quem sabe um livro infantil? Isso mesmo. Quem iria recriminá-lo por ler um livro infantil? Sendo assim, ele foi até as prateleiras de obras infantis e escolheu um livro bem colorido, bem fininho e bem caro. Mas valeria a pena. Afinal, tudo que ele queria nesse momento era ir para a fila com um livro. Porém, estava se dirigindo para a fila quando deu uma última espiada no título de seu livro: “A festa do PUM”. Por que cargas d’água ele pegou aquele livro? O que pensariam dele? Que soltava pum a torto e a direito! E a fila estava lá, enorme e cobrando dele uma decisão. Pronto. Não compraria mais esses livros, iria diversificar. Mudar! Aderir à moda. Pegou o primeiro livro para colorir que encontrou em sua frente” “Pintando o Sete”, e foi para fila.

Sorridente, por ter escolhido algo da moda, Rodolfo se deu por satisfeito ao perceber que todos passaram a ignorá-lo. Ninguém mais olhava para ele ou para suas mãos. Nem mesmo dona Maroca ou o João Pedro. Enfim, iria ler… Ou melhor, pintar o sete!

Ao chegar em frente à funcionária do caixa, ele, orgulhoso de sua escolha, entregou a sua obra literária para que ela fizesse a cobrança. E ela fez:

– “Pintando o Sete”. É esse mesmo o livro que o senhor quer levar?

– Sim, por quê?

– Nada, não. O cliente é que decide.

– Mas o que foi? Tem algum problema com esse livro?

– Não. É que, se me permite um comentário…

– Pode falar!

– Todos aqui nessa redondeza levam livros eróticos, infantis, policiais. A dona Maroca levou “Os prazeres ocultos na terceira idade”, o Seu João Pedro levou “Encontros e desencontros entre Rodolfo e Adão”, o Luizinho, filho caçula de dona Maria, levou “O aniversário do Pum”, faz parte da coleção do ursinho PUM e o senhor…

– O que tem eu? – indagou Rodolfo já ficando irritado, afinal, ele havia pegado um livro da moda. Havia lido no jornal que esse tipo de livro estava estourando no mercado literário! O que ela iria falar dele?

– Bem, o senhor é o primeiro dessa comunidade que compra um livro para pintar. Pensei que o senhor gostasse de ler, só isso. – disse a funcionária, dando o troco a ele – Obrigada pela compra. Seguinte da fila!