O problema de não gostar de certo escritor – que na verdade nem é um problema

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Às vezes a gente hesita quando precisa falar pra alguém próximo que não gostou daquela obra tão admirada

The Readers, de Theresa Bernstein: não gosta do que eu tô lendo, então cada um na sua

Lá vem esse cara que só fala de Aldous Huxley. Aquela mulher é puro James Joyce. A outra respira Jane Austen. O cara do canto bebe Clarice Lispector no café da manhã. E você não gosta de nenhum desses autores, e vai falar… vai falar o que mesmo? De quem, vai inventar de falar mal desses aí justo com aquele amigo seu que os ama? Não rola.

Pior ainda se o(a) amigo(a) escreve pra um site de literatura, que nem o nosso Homo Literatus. O cara é obcecado por aquele autor tão, tão falado, mistificado, gasto de tanta citação sem fonte na internet, ou é mais do que apaixonado pela obra de outro, que talvez nem importe muito fora do país ou da época de origem, mas o seu amigo adora essas páginas, ainda mais pelo empenho dele ao escrever e querer divulgar tal autor. Vai que o amigo em questão leu dúzias de livros a mais que a gente – ou assim parece – e nós vamos falar o que, não gostamos por mero não gostar? E se o redator ficar irritado à toa? Também não é pra tanto (esperamos).

Alguém que conhecemos, ou cuja produção acompanhamos, fala direto daquele autor, daí a gente para pra ler e nem acha tudo aquilo. Tanto faz a razão – não é o nosso terreno, talvez um dos temas até interesse mas não é a nossa linguagem, ou nem o tema combina com a gente, por aí. Não gostar de autor x ou de um livro é normal. Pode complicar um pouco quando a gente vai conversar com alguém sobre esse livro e precisa dizer que não gostou nem um pouco, não se sentiu em casa na leitura. Em uma crônica ou texto de gente iluminada do além-web isso é lindo, até parece que as pessoas da vida ‘real’ (incluindo a gente) são capazes de conviver em harmonia tendo opiniões opostas sobre um autor e sua produção.

Podemos acreditar que sejam, pelo menos nisso. Se a gente ler metade do que gostaria, precisa ou se propõe, podemos nos considerar vitoriosos; nessa seleção nem sempre rigorosa, seria estranho gostar e detestar tudo, sinal de que não absorvemos certas linhas nesse caminho. Eu posso gostar das histórias do velho Dostoiévski graças à tensão que vejo nelas, além de sua estética meio mal-acabada, e sentir honestidade na escrita dele por isso. Você pode gostar d’O Jogador por achar que é só uma ficção de um viciado em jogo escrevendo pra outro e assim está ótimo, nada de gente escrevendo como se fizesse um favor ou escondendo um moralismo de fachada em 400 páginas.

Você pode amar o Júlio Cortázar e toda sua escrita dançada, onde nada precisa fazer tanto sentido, vai no improviso mesmo. Das Instruções para subir uma Escada, passando pela Casa Tomada até avançar no Bestiário, a vida é um sopro e a ficção dele mais ainda – e dos quentes, de Todos os fogos o Fogo. Eu posso ler muito dele e achá-lo um improvisador talentoso, cuja linguagem me cansa rápido e o enredo não combina nem um pouco comigo.

Essas hipóteses são óbvias e até ridículas, mas às vezes a gente hesita na hora de falar pra alguém próximo que não se apaixonou pela obra tão admirada. Talvez os menos despudorados xinguem o tema em pura provocação, cacem outra leitura e façam da indigesta uma eterna piada. E tudo bem, discordâncias e gostos distintos não precisam virar brigas, e talvez uma pista disso esteja bem à nossa frente, nas estantes: caso estivessem vivos no mesmo período e lugar, com certeza muitos dos autores de que tanto gostamos brigariam entre si, por razões literárias ou não. E talvez alguns nem gostariam de ver todas as próprias obras em uma estante, e imitassem nosso célebre Jorge Luís Borges, que não gostava de falar das próprias obras. Vamos falar da produção dos outros – e ler. Tentemos.