O Purgatório de Irineu: sobre Que fim levou Juliana Klein?, de Marcos Peres

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O autor gera uma teia intrincada de eventos obscuros

Marcos Peres
Marcos Peres


“Aqui vive feliz a esperança”, diz o quadro na porta do quarto da menina Gabriela Klein, que o delegado Irineu de Freitas jurou proteger. É uma tarefa difícil, pois Gabriela vive sobre os escombros das tragédias ocorridas entre as famílias Klein e Koch, ambas de origem alemã, que trouxeram uma desavença de gerações iniciada em Frankfurt para a cidade de Curitiba. Uma rivalidade que se desenvolveu através de questões amorosas obscuras, humilhações antigas e agressões físicas transformou-se em um incômodo (porém, polido) antagonismo acadêmico, protagonizado pelos representantes contemporâneos dos antigos clãs, agora estabelecidos nos departamentos de Filosofia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), pela parte dos Klein, e Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), domínio dos Koch.

As palavras terríveis que figuram nos portões do Inferno na obra de Dante Alighieri (“Deixai toda esperança, vós que entrais”) comparece frequentemente no romance de Marcos Peres, como por lembrança do que é a vida da menina Gabriela, acometida por sucessivas tragédias familiares em intervalos de três anos, em contraponto à inscrição alentadora em seu quarto. Tanto que, assim como em Divina Comédia (quando chega ao Paraíso, Dante não pode ser acompanhado pelo poeta Virgílio, seu guia até ali), Irineu entra sozinho no recanto de pureza que é o quarto da adolescente, ao fazer sua última investigação sobre o caso…

Os eventos do livro ocorrem em três tempos pontuais: 2005, 2008 e 2011, organizados pelo autor em 45 capítulos curtos, de maneira não-linear, mas muito bem elaborada, de forma a apresentar ao leitor, instigado pela curiosidade, sempre mais uma peça do estranho quebra-cabeças policial. O que conecta um capítulo ao seguinte, portanto, não é a relação de causa e consequência, mas a menção a um novo personagem ou a um dramático episódio do passado – como são todos nesta obra. O autor gera, assim, uma teia intrincada de eventos obscuros que faz do leitor um voraz devorador de páginas.

A perspectiva adotada é a do delegado Irineu, conferindo ao livro uma atmosfera noir à brasileira, alternando os insólitos e misteriosos acontecimentos da trama com as reflexões e teorias do policial sobre o caso e suas impressões sobre a capital paranaense. À medida que caminha a narrativa, Irineu se envolve cada vez mais afetivamente no caso que investiga, ligando-se a seus protagonistas, de modo que suas obsessões e receios mais irracionais se tornam até compreensíveis pelo leitor – bem como o próprio título, uma dúvida que paira na cabeça do atormentado agente da lei, quando deveria ter o pensamento orientado racionalmente. A certa altura, somente ele questiona o paradeiro da mãe de Gabriela, Juliana Klein, dada como morta, mas leva o leitor a esperar com ele, página após pagina, que a professora de Filosofia salte, rediviva, de algum parágrafo seguinte.

Para dar o tom verossímil à sua trama, o autor elabora os capítulos como fossem fragmentos de anotações da investigação, acompanhados de linha do tempo das famílias Klein e Koch e suas árvores genealógicas, e no Prefácio, ainda se desculpa pelo caráter ficcional que os relatos possam adquirir. Desde antes do princípio do enredo, portanto, o leitor já se entretém ao perscrutar a história das famílias. O ponto negativo é que essas partes introdutórias já apresentam diversos detalhes sobre os acontecimentos que se desenvolverão nas páginas seguintes, podendo decepcionar alguns leitores ávidos por descobertas e fatos inesperados – não que esses faltem ao romance, principalmente em se tratando de sua conclusão, que, para bem ou para mal, consegue surpreender o leitor.

Outra questão no romance é que, nos capítulos iniciais, algumas descrições documentais de fatos e lugares referentes a personagens com os quais o leitor ainda não construiu uma relação de empatia, e algumas reflexões de ordem filosófica – que às vezes soam um pouco superficiais – parecem tornar a narrativa um tanto emperrada e monótona, mas isso se resolve mais adiante. Ainda assim, de início, pode ser que o leitor se questione se o ambiente universitário, normalmente entendido como enfadonho no mundo real, talvez não consiga se distanciar dessa impressão nem mesmo em um romance policial.

Peres, é claro, produz um romance de entretenimento, e não uma tese acadêmica – e o perfil leigo do próprio protagonista, Irineu, controla o que poderiam ser excessos de reflexão teórica, cortando frequentemente o discurso empolado dos professores acadêmicos. Paralelo a isso, a partir de certo ponto em que a história já “engrenou” e os personagens já estão consolidados na mente do leitor, o romance se torna mais interessante aos seus olhos. Assim, se o livro parece se inclinar ora para o superficial, ora para o super erudito, acaba ficando bem equilibrado, sem cansar o leitor e até nutrindo-o de bom conteúdo filosófico em doses homeopáticas, como a ideia nietzschiana de tempo cíclico (o “Eterno retorno”), fundamental para a compreensão da dinastia Klein.

O intuito de Peres de imprimir em suas páginas um tom leve, jocoso e ao mesmo tempo despojadamente culto é bem sucedido, apesar de que o autor às vezes entremeia palavrões e gírias e uma linguagem um tanto travada, que mantém as formas padrão de grafia, nem sempre interessantes nesse caso. Exemplos disso são o uso do futuro do presente “irei”, quase ausente da fala cotidiana real; ou as formas “estou” e “está” em vez de “tô” e “tá”, mesmo nas falas da adolescente Gabriela, que colaborariam para uma forma expressiva mais natural, que é evidentemente buscada pelo escritor.

Por outro lado, Peres se mostra bom investigador das sensações humanas mais confusas e controversas. Isso se revela, por exemplo, quando nos apresenta os supostos pensamentos de uma mulher, prestes a ser assassinada, que quase deseja a própria morte, para encontrar nela o alívio de sua vida; ou quando expõe a aflição de um policial seduzido por uma mulher com quem não deveria se envolver, sob risco de prejudicar sua investigação. Em momentos como esses, seu leitor é capaz de pensar – e sentir – junto com os personagens.

Como Marcos Peres desponta enquanto grande promessa entre os nossos escritores contemporâneos, contemplado pelos prêmios SESC e São Paulo de Literatura com seu romance O evangelho segundo Hitler, nenhum dos elementos mais frágeis aqui apontados supera suas virtudes ou sequer o coloca no limbo de um Purgatório.

Esse triste destino só acontece ao seu trágico protagonista, o delegado Irineu, criatura maringaense como o criador (talvez seu alter ego?), que, enquanto almeja o Paraíso de um amor que está ausente, o sucesso em uma importantíssima investigação e na proteção de uma vítima inocente, sofre o Inferno de contínuos fiascos que invariavelmente tornam a ocorrer. Irineu é íntima e irreparavelmente alvejado no fogo cruzado da guerra sem fim entre Klein e Koch; um conflito que se encaminha sempre para o “Eterno retorno”, para o princípio de si mesmo, e cuja infinitude é o único ponto em que concordam as duas famílias inimigas.

Dizem que o Purgatório é um espaço de transição – e esta é a esperança que vive em Irineu, relutante em deixá-la toda do lado de fora, para não se deixar ficar totalmente fora de si.