O que aprendi lendo os comentários do Homo Literatus

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O que aprendi lendo os seus comentários nos textos do Homo Literatus

6a00d8341c09fe53ef014e8826f4df970dImagino uma pessoa nascida antes da última grande mudança no ocidente vendo nosso mundo. Ela ficaria chocada com muita coisa, mas, se eu pudesse tentar adivinhar as duas mais chocantes, eu diria que são, na ordem: 1) o eu e 2) a internet.

Com certeza uma pessoa acostumada a viver em poucos quilômetros quadrados, tendo contato com um grupo muito pequeno de pessoas, ficaria chocado com a internet, suas possibilidades de informação e de comunicação. No entanto, o eu egocêntrico de 2015 ganharia com facilidade.

O que pensaria esse homem ou mulher ao ver pessoas dando opinião sobre absolutamente tudo: política, religião, economia, ciências, esporte, comportamento – principalmente o alheio -, moda, cultura, artes, sociologia, educação (adicione aqui os assuntos que faltaram).

Até mesmo dão opinião sobre literatura e sobre pessoas que falam sobre literatura.

Vamos a um exemplo pessoal.

Participo do Homo Literatus há um ano e meio. Desde então produzi muitos textos, boa parte deles num formato que me agrada e que me parece acessível/interessante à maioria: listas. Para produzir uma sobre determinado tema, sempre sigo o mesmo processo. Primeiro elenco fatos ou pontos da lista de memória, procurando em livros ou na internet para que confirmem ou não as minhas memórias. Depois busco conteúdos semelhantes produzidos e, por fim, seleciono o que fica e o que sai. Os quesitos podem variar conforme lista.

A maioria dos leitores parece esquecer que produzir um material do tipo, assim como para escrever uma resenha, uma matéria, uma entrevista ou um artigo de opinião, demanda tempo. Sinceramente, acho que não sabem, pois se soubessem não fariam o que fazem nos comentários.

No meu caso, é raro encontrar um elogio. O tipo de comentário mais comum se divide entre “pra mim, faltou (acrescentar nomes)” ou “péssimo”. Muitas vezes tenho a certeza de que quem comentou não leu o conteúdo, apenas viu o título e saiu opinando. Ou leu o título, abriu o conteúdo, leu os nomes e fim.

Acho engraçado quando vejo acusações do tipo: “foram escolhas pessoais” ou “tudo baseado no gosto, pois, pra mim, os melhores são (acrescentar nomes)”.

É incrível ver a forma com que vocês, sim, vocês mesmos, leitores, se superestimam dando opinião sobre tudo, sempre de forma imparcial, enquanto os colaboradores do Homo Literatus e eu damos opiniões pessoais.

Ninguém perguntou as suas opiniões, bem como ninguém pediu as minhas. Se as ponho, faço por diversão, pois o assunto (literatura) me interessa. Não sou o dono da verdade ou o correto, apenas uma pessoa dando um ponto de vista de um ponto no tempo e no espaço. Quando leio materiais de sites como o Homo Literatus, nos quais eu sei que o autor(a) não é pago e o faz apenas por hobby, tento ser minimamente respeitoso com o que ele fez. Leio/vejo tudo e, quando acho necessário, comento. O último fato é realmente raro pelo simples fato de que eu acho não é relevante ou que não vai acrescentar nada de interessante/relevante ao que foi apresentado.

As pessoas dos comentários do Homo Literatus não sabem disso.

Mas isso ainda não é o pior.

Como co-editor, tento acompanhar os comentários no Facebook. Ver o que deu certo, o que não deu, tentar entender o público etc. É incrível o que vejo: pessoas que não tem o mínimo respeito pelo trabalho alheio, cheias de eu achopra mimno meu ponto de vista (como se fosse possível adotar um ponto de vista além do próprio) e tiradas de um chato depredam o trabalho de terceiros. Entendam: um texto do Homo Literatus – ou de quem quer que seja – é apenas uma opinião de alguém que se dispôs a criar algo. Você não é obrigado a concordar. E o melhor: você não é obrigado a deixar a sua opinião.

O mundo vai sobreviver sem ela, assim como sobreviverá sem a minha ou a da maioria.

Mesmo pessoas importantes em seus respectivos campos são irrelevantes fora deles. Einstein, após ouvir a pergunta de um jornalista sobre o Nobel de Literatura de 1953, Winston Churchill, respondeu que não tinha nada a dizer. O jornalista ainda insistiu para então ouvir a seguinte resposta: “Não sei o que você quer, sou um físico nuclear, não um crítico literário. Não tenho nada de útil a acrescentar.”

Até Einstein sabia das suas limitações e que nem sempre era necessário/útil dizer o que pensava.

Aproveite o ensejo e pare de comentar sobre o que ninguém te perguntou, o mundo agradece o silêncio. Ao menos que tenha algo construtivo ou interessante a dizer, cale a boca, ninguém se importa.