O que é ser escritor brasileiro? 10 escritores(as) respondem a questão

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Dez autores respondem o que é ser escritor brasileiro em pleno 2015

Da esquerda à direita: Simone Campos, Sérgio Tavares, Rafael Gallo, Antônio Xerxenesky e Luisa Geisler

Há quem diga que Literatura e Brasil são antagônicos. Nunca teremos outro escritor como Machado de Assis porque não lemos, porque isso e aquilo. O fato, porém, é que a literatura nacional, o mercado e o público têm aumentado e se desenvolvido, principalmente depois do acesso das camadas mais baixas à escolarização a partir de 1950. Ser escritor hoje provavelmente deve ser melhor que o passado (será?). Para saber esses fatos e outros tantos, dez autores (as) nacionais respondem a questão: o que é ser escritor brasileiro em 2015?

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Simone Campos

É ter duas ou três profissões que dão quase tanta despesa quanto receita (além de escritora, sou tradutora e doutoranda em letras), mas ao mesmo tempo estar assombrada pelo tanto de possibilidades ficcionais subaproveitadas que há nesse país, ainda mais se você for adepta do diálogo com outras tradições. E é correr contra o relógio e a conta bancária para realizar, da forma mais plena possível, as possibilidades que se mostram mais próximas de você.

Sérgio Tavares

Ser um escritor no Brasil é acordar por volta das 8h e ajeitar a casa, enquanto a esposa cuida da higiene e do desjejum da filha. Em seguida, quando elas estão no ballet ou na natação, preparar o almoço que será servido ao meio-dia, após dar banho na filha e vestir o uniforme da escolinha, para onde irá levá-la às 13h. Na volta, resolver assuntos diversos, trabalhar e sair com a cachorra à rua. Às 17h30, pegar a filha na escolinha, ir para casa e dar outro banho nela. Servir a janta, tomar banho e também jantar. Brincar e assistir tevê com ela até às 22h, quando chega a hora de dormir. Na cama, contar história, depois cantar uma série de músicas e, enfim, dar o beijo de boa-noite. Então são 23h, e até 4h, contra a altivez da noite e os ruídos dos noctâmbulos, encarar a tela branca do notebook e crer piamente que escreverá algo relevante.

Rafael Gallo

Existe uma coisa que é comum a todos os verdadeiros escritores, de qualquer época ou lugar. Essa coisa não tem nome. Mas está relacionada, em parte, a se perguntar de forma profunda por que é válido escrever o que se escreve, e como fazê-lo da forma que mais potencialize o que se quer realizar como obra.

Afora essa coisa que não tem nome, existem as contingências de cada tempo e lugar, que afetam em maior ou menor grau o que se escreve, e como o escrito torna-se lido. No Brasil, em 2015, há a glamourização da figura do escritor, a sua juventude compulsória, a internet e suas redes sociais, os temas atuais, as centenas de eventos literários, etc., etc. Há a falta de leitura do público, os problemas educacionais, as deficiências do mercado, os histrionismos midiáticos e as confusões de papéis e valores na cultura como um todo. Uma parte de tudo isso pode ser divertido e benéfico, outra parte obviamente não.

Ser escritor no Brasil em 2015 é estar cercado por tudo isso, dedicar uma parte de seu pensamento e tempo a como se inserir nessas contingências, mas, acima de tudo, nunca tirar os olhos e o coração daquela coisa, a que não tem nome, e que sempre foi – sempre será – o núcleo para os verdadeiros escritores, de qualquer época ou lugar.

Antônio Xerxenesky

Ser escritor no Brasil é o tipo de coisa que, se eu tivesse filhos, jamais indicaria a eles. É um hobby estúpido. É chegar em casa exausto, após bater o cartão no trabalho, ver a pia cheia de louça e ainda assim sentar a bunda para escrever ficções que interessam a 3 mil leitores (média de público da literatura contemporânea). Não traz dinheiro, fama, sucesso profissional. Não traz felicidade ou paz de espírito. Por que fazemos? “Vaidade das vaidades”, como consta em Eclesiastes? Não sei, mas é como um vício desagradável do qual não podemos largar. Não desejo a ninguém ser escritor.

Luisa Geisler

Ser escritor é uma intersecção entre egocentrismo (a ponto de achar que sua opinião importa e tem que estar registrada) e insegurança (a ponto de querer ficar na cama em posição fetal sem interagir com ninguém). Ao mesmo tempo que requer muita autoestima (pra ouvir uma série de “nãos”, inclusive do público em geral) e muita humildade (alguns dos “nãos” podem (!) até ter razão)

Marcos Peres, Jéferson Tenório, Luis Eduardo Matta, Ana Cristina Rodrigues e Eric Novello

Marcos Peres

Ser escritor significa ser revisor, editor, publicitário, tradutor e crítico de si mesmo, além do impostergável ato de escrever. Significa submeter-se ao juízo das janelas alheias e ser condenado – por facebookianos tribunais, por tias com farofa em noites de natal – a ser maconheiro e/ou vagabundo, romântico (afinal você não escreveu um romance?),  além de ocupar um espaço lúdico, ao lado de astronautas, ornitólogos, jogadores de futebol e rockstars. Significa construir prédios imaginários, gols intangíveis, refrães inaudíveis. Significa permanecer o dia inteiro com um sorriso bobo porque avançou meia página do seu romance e, por isso, sente-se como o advogado que sustentou uma importante defesa, como o médico que executou uma cirurgia com destreza – como o profissional, portanto, que venceu mais uma batalha da guerra de sua profissão. Significa ser paciente, porque os castelos intangíveis que constrói são formados por licitações burocráticas, por metodologia, tendinites, cafeínas, rasuras. Significa perseverança: ser publicado, ter uma crítica elogiosa e/ou ganhar um prêmio podem ser atos corroborados por um elemento fortuito, alheio, denominado como sorte, mas, sabe-se lá as contas disso, pode ser que tenha azar por 19 anos seguidos, sorte apenas no vigésimo ano e, portanto, deverá permanecer firme, forte, fincado ao solo da literatura, esta terra árida, para se desvencilhar dos tornados e tufões do dia a dia. Pelo tempo que for necessário. Por 10, 20 ou 50 anos.  Por uma vida. Por todas as muitas vidas que criará, que engavetará, como um deus malévolo, incompreensível e incompreendido.

Jeferson Tenório

A pergunta é complexa e talvez pudesse ser respondida com outra pergunta: de que escritor  brasileiro nós estamos falando? Isso nos leva para num terreno nebuloso de identidades e pertencimentos. Porque se colocarmos gênero, raça ou classe nisso aí a resposta vai variar bastante. De qualquer maneira, minha percepção é a de que escritor é escritor em qualquer lugar. Escritor é aquele que tem compromisso com a escrita. Assume publicamente a tarefa de expor uma experiência estética ao mundo. E faz isso porque acredita que tem algo a dizer. No entanto, quando olho ao meu redor, percebo que há muito autor com uma vocação enorme para reclamar da vida e dizer que o escritor brasileiro não é respeitado na Europa, que aqui ninguém paga nada para quem escreve e que é impossível viver da escrita. Se o cara aqui no Brasil for esperar um momento na vida em que ele possa parar tudo e escrever tranquilamente, olha, meu amigo, isso não vai acontecer. A não ser com raras exceções. Não estou querendo com isso dizer que não devemos ser pagos ou valorizados, não é isso. Mas essa reclamação me cansa. “A virtude de um escritor está em erguer sua obra em meio à devastação”. Acho que foi Dostoiévski que disse isso. Concordo em parte, porque é claro que precisamos de um lugar e tempo que permitam produzir. Mas isso não significa que devemos fazer só isso na vida. Não sei, mas tenho a impressão de que a escrita, por mais que sejamos profissionais, será sempre precária. E se ela é precária acho que o escritor, brasileiro ou não, também deve aprender a escrever na precariedade.

Luis Eduardo Matta

Ser escritor no Brasil, seja em 2015 ou em qualquer outra época é, entre outras coisas, batalhar pela formação de leitores. Somos, ainda hoje, um país onde se lê pouco, a despeito dos extraordinários avanços verificados na última década. Por outro lado, vivemos um momento singular na ficção brasileira, onde vozes criativas e talentosas vêm despontando a todo momento, mostrando o vigor e a diversidade da nossa literatura, que se reinventa a cada ano, adaptando-se a múltiplas realidades e a várias formas de se enxergar o mundo e a condição humana. Não podemos desperdiçar essa oportunidade. Como escritor, sou um defensor ardoroso do prazer do ato de ler e acredito que a atual produção literária brasileira pode dar uma inestimável contribuição neste sentido

Ana Cristina Rodrigues

Talvez seja igual a ser escritor em 1915, mas com internet para te ajudar (a pesquisar, a divulgar e a procrastinar). Sério. O ofício em si não mudou muito – foi facilitado pelas invenções do século, como os processadores de texto, o café solúvel, o delivery e o post-it. Mas basicamente continua sendo pensar, escrever, reescrever, pensar, pesquisar, procrastinar, escrever, reescrever e torcer para a editora querer publicar. Hum, talvez nesse ponto do querer da editora tenham acontecido algumas mudanças, pois o mercado está muito mais aberto aos independentes do que em 1915, porém, ainda não é o caminho mais fácil, nem o que é ambicionado pela maioria dos escritores.

Eric Novello

Se o Brasil não é para amadores, isso vale também para nós, loucos das letras. Nosso mercado editorial funciona como aquele desafio oculto do joguinho. Você pode ignorá-lo, enfrentar o chefão e ir para a próxima fase. Mas um jogador de verdade vai querer passar por ele, mesmo que erre, erre e erre, e o repita mil vezes. Será essa a única maneira de se sentir realizado ao vencer a fase final. Isso se você não conhecer o cheat code, pelo menos.