O que eu quero dizer quando falo da genialidade das narrativas curtas de Kafka – Vilto Reis

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Quando escrevi sobre minhas duas pequenas narrativas preferidas, obviamente, citei Kafka. E coloco um “óbvio” no início deste texto por se tratar de uma obviedade para mim, a da genialidade deste escritor nas histórias curtas. Conquanto seus textos longos sejam muito mais conhecidos – A Metamorfose, O Processo, entre outros -, em minha opinião é nos curtos que o gênio abarca toda a sua produção literária. Eu poderia falar dos contos presentes nos livros O Artista da Fome e A Construção; e Narrativas do Espólio; mas esta semana, ao ler Um Médico Rural; deparei-me com a beleza sombria do texto kafkaniano no conto que reproduzo na íntegra abaixo (recomendo que leia, depois farei meus comentários):

O NOVO ADVOGADO*

Temos um novo advogado, o Dr. Bucéfalo. Seu exterior lembra pouco o tempo em que ainda era o cavalo de batalha de Alexandre da Macedônia. Seja como for, quem está familiarizado com as circunstâncias percebe alguma coisa. Não obstante, faz pouco eu vi na escadaria até um oficial de justiça muito simples admirar, com o olhar perito do pequeno frequentador habitual das corridas de cavalos, o advogado quando este, empinando as coxas, subia um a um os degraus com um passo que ressoava no mármore.

Em geral a Ordem dos Advogados aprova a admissão de Bucéfalo. Com espantosa perspicácia diz-se que, no ordenamento social de hoje, Bucéfalo está em uma situação difícil e que, tanto por isso como também por seu significado na história universal, ele de qualquer modo merece boa vontade. Hoje – isso ninguém pode negar – não existe nenhum grande Alexandre. É verdade que muitos sabem matar; também não falta habilidade para atingir o amigo com a lança sobre a mesa do banquete; e para muitos a Macedônia é estreita demais, a ponto de amaldiçoarem Felipe, o pai; mas ninguém, ninguém, sabe guiar até a Índia. Já naquela época as portas da Índia eram inalcançáveis, mas a direção delas estava assinalada pela espada do rei. Hoje as portas estão deslocadas para um lugar completamente diferente, mais longe e mais alto; ninguém mostra a direção; muitos seguram espadas, mas só para brandi-la; e o olhar que quer segui-las se confunde.

Talvez por isso o melhor realmente seja, como Bucéfalo fez, mergulhar nos códigos da lei. Livre, sem a pressão do lombo do cavaleiro nos flancos, sob a lâmpada silenciosa, distante do fragor da batalha de Alexandre, ele lê e vira as folhas dos nossos velhos livros.

***

Certo, vou dar um tempo para você tomar um fôlego. Se quiser reler o conto, fica por sua conta e risco (para perturbar um pouco mais, coloco uma foto de Kafka).

Kafka

Assim que li O Novo Advogado pela primeira vez, senti-me incomodado; efeito que, acredito, todos os bons contos de Kafka causam. Fiquei com a sensação de que entendi pouco do sentido geral. Fiz um teste, mostrei o texto a dois colegas de faculdade; e a reação foi a mesma, espanto. A temática recorrente do Direito na obra do autor de Praga é apenas uma desculpa, segundo parece, para um todo, um algo maior, que se esconde na mediocridade. Veja bem, o problema é definido em duas informações logo no início: 1)O fato de se ter um novo advogado, chamado Dr. Bucéfalo; 2) Que ele era o cavalo de batalha de Alexandre o Grande, embalada na questão estética de ele pouco lembrar a aparência daquele tempo. Estabelecido a questão a ser entendida, Kafka introduz uma nova perspectiva, visual e auditiva, a partir do “oficial de justiça”, pois o Dr. Bucéfalo “empina as coxas” e seus passos “ressoam no mármore”. A seguir, o autor atribui normalidade à estranha figura, quando afirma que a Ordem dos Advogados aprova com facilidade a admissão de Bucéfalo, tanto por estar numa situação difícil quanto por sua importância histórica. Depois, começa, segundo penso, a expansão da perspectiva do conto; no ponto em que Kafka afirma que não existe mais nenhum Alexandre. “É verdade que muitos sabem matar; também não falta habilidade para atingir o amigo com a lança sobre a mesa do banquete; e para muitos a Macedônia é estreita demais, a ponto de amaldiçoarem Felipe, o pai; mas ninguém, ninguém, sabe guiar até a Índia”. Pergunto-me a que se referia o autor neste trecho, evidente que é uma metáfora, mas cada um deve arrancar daí algo para si. Acredito que se trate da impossibilidade, de hoje todos estarmos presos a um modelo de não realização. A obra kafkaniana sempre se trata do inalcançável, penso. O arremate do conto é uma desesperança, algo como se expresso “já que não há o que fazer, melhor é Bucéfalo mergulhar nos códigos de lei mesmo”. Então Kafka finaliza, afirmando que o personagem se sente livre, longe da batalha, agora “ele lê e vira as folhas dos nossos velhos livros”.

Cada narrativa curta de Kafka é um enigma a ser desvendado, um algo mais que não está acessível, resta-me tentar.

Mas e você, o que achou (interpretou) deste conto?

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*Extraído do livro Um médico rural (Companhia das Letras, 1999).