O Rap é um dos cantos onde a poesia vive – e se reinventa a cada ritmo

A poesia também vive no Rap, união de ritmo e poesia por excelência. O gênero embala crítica social, ironia, brinca com ícones eruditos e populares e mantém a pegada combinando o que for em sua musicalidade também literária

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Ninguém faz mais poesia! Ninguém lê poesia! Onde estão os poetas contemporâneos? — Asserções comuns de diversos leitores em nosso século XXI. Afirmações como essas mostram desconhecimento da essência da literariedade, da função poética no mundo moderno e digital e, principalmente, do Rap.

A literatura como conhecemos, o livro, o papel e a caneta, há tempos vem transubstanciado-se em som, tela e imagem. Nesta transição, diversos leitores se recusam, ou não conseguem ver como nossa literatura vem sim avançando, seja pelos tweets poéticos, pelos grafites nas ruas ou pela música. O leitor pode talvez questionar “mas isso é literatura?”; neste texto não pretendo me aprofundar no conceito de literariedade, debatido há anos na academia, todavia mostrar que há aspectos literários e poéticos nestas manifestações.

Em meu vasto desconhecimento da teoria literária, não sou capaz de dissertar sobre os mais diversos conceitos de literariedade, ainda sim sou apto para debruçar-me sobre um deles, que mostra que a poesia está vivíssima atualmente. O conceito a que me refiro é que no poético há embebedado a polissemia, a ambiguidade de signos, a universalidade. “Pois a ambiguidade do signo implica que se possa, a seu bel-prazer, atravessá-lo como a uma vidraça, e visar através dele a coisa significada, ou voltar o olhar para a realidade do signo e considerá-lo como objeto” ( SARTRE,1989, p.13). Além de ser um dos motivos que autores clássicos da poesia, como Cecília Meirelles, Virgílio e Drummond, continuem vivos até hoje. “a permanência de determinadas obras se prende ao seu alto índice de polissemia, que as abre às mais variadas incursões e possibilita a sua atemporalidade” (FILHO,1986, p.40).

Esta característica da poesia mostra-se presente quando voltamo-nos ao Rap, principalmente o que foi e está sendo produzido no século XXI. Baco Exu do Blues, Fabio Brazza, Rincon Sapiência, Criolo, Kendrick Lamar e Childish Gambino são alguns dos nomes que mais evidenciam a qualidade e importância do Rap como vetor de mensagens pertinentes à modernidade, mantendo o aspecto poético e rítmico em suas obras. Tomarei como exemplo um trecho da letra de Duas de Cinco, do rapper Criolo:

E eu fico aqui pregando a paz
E a cada maço de cigarro fumado a morte faz um jaz
Entre nós, cá pra nós, e se um de nós morrer
Pra vocês é uma beleza
Desigualdade faz tristeza
Na montanha dos sete abutres alguém enfeita sua mesa
Um governo que quer acabar com o crack
Mas não tem moral para vetar comercial de cerveja
Alô, Foucault, cê quer saber o que é loucura?
É ver Hobsbawm na mão dos boy, Maquiavel nessa leitura
Falar pra um favelado que a vida não é dura
E achar que teu doze de condomínio não carrega a mesma culpa
É salto alto, MD, Absolut, suco de fruta
Mas nem todo mundo é feliz nessa fé absoluta
Calma, filha, que esse doce não é sal de fruta
Azedar é a meta, tá bom ou quer mais açúcar?
HA-HA-HA-HA-HA-HA
HA-HA-HA-HA-HA-HA
Chega a rir de nervoso, comédia vai chorar

Neste recorte da música temos referências à História da Loucura, de Michel Foucault, a Eric Hobsbawn, Maquiavel e Billy Wilder. Entretanto, também temos alusões às drogas, à hipocrisia dos indivíduos e do governo, entre outros. É possível fazer paralelos com diversas situações do Brasil contemporâneo, além de buscar expressões das ruas e ideias de grandes escritores. Isto é, sem dúvidas, pura poesia. Olhemos agora para o trecho de Esú, do rapper Baco Exu do Blues:

Componho pra não me decompor
Poeta maldito perito na arte
De Arthur Rimbaud
Garçom, traz outra dose, por favor
Que eu tô
Entre o Machado de Assis e o de Xangô
Soneto de boêmia poesia, melancolia
Eu sou do tempo onde
Poetas ainda faziam poesia
Saravá!
O canto de Ossanha vem me matando
E quem canta os males espanta
Não tá mais adiantando
Aqui se escuta o batuque do trovão
Thor e seu martelo, Jorge e o seu dragão
Ciranda do céu, rave de tambor
Os deuses queriam chorar por amor
Aqui se escuta o batuque do trovão
Thor e seu martelo, Jorge e o seu dragão
Ciranda do céu, rave de tambor
Os deuses queriam chorar por amor

Mais uma vez a poesia mostra-se presente como nunca; além das inúmeras referências, o eu-lírico descreve o estado do seu ser fazendo paralelos com diversos símbolos culturais, sejam ícones considerados eruditos, sejam ícones do imaginário popular brasileiro. O rapper procura evidenciar representações da cultura afro-brasileira, pois é um dos focos da música do mesmo. É indubitável o aspecto polissêmico da canção, também como seu lirismo.

São incontestáveis as faculdades poéticas e literárias comportadas no Rap, mas o mesmo aprofunda sua urgência, se voltando a aspectos pertinentes do mundo moderno, como mostra o recente sucesso do rapper Childish Gambino: This is America. Nesta obra, o rapper aborda a condição do afro-americano na sociedade norte-americana, assunto que pauta discussões há muito tempo, mas que com o Rap, é posto em evidência e mostra a incapacidade do corpo social de, de fato, acabar com a discriminação racial.

Todavia, não é o único ponto da contemporaneidade abordado pelo Rap, que vai desde a condição do pobre, das mulheres, do negro, nossa relação com a tecnologia, com as drogas, dentre outras problemáticas que assolam os dias atuais. Como dito pelo lendário Roger Daltrey, da banda The Who, em entrevista dada ao The Times, em 2016:

“A tristeza para mim é que o rock chegou ao fim da linha… as únicas pessoas dizendo coisas que importam são os rappers e a maioria da música pop é sem sentido e esquecível.”

Desta maneira, o RAP, e a música em geral, vem ganhando reconhecimento como objeto literário, como mostra o prêmio Nobel de literatura dado a Bob Dylan em 2016. Também há o prêmio Pulitzer de música, concedido a Kendrick Lamar pelo seu álbum DAMN., prêmio nunca antes dado a um rapper.

À vista disso, a academia e a população em geral está reconhecendo que o Rap faz jus ao seu nome: rhythm and poetry (ritmo e poesia). Entretanto, ainda há uma grande parcela de indivíduos que se prende ao físico, ao livro, ao papel, principalmente na academia, postura completamente equivocada.

E assim, parafraseando Virgílio, esperamos que o Rap conquiste o reconhecimento que merece, ainda que tardio.

Referências:

SARTRE, Jean-Paul. Que é a Literatura? São Paulo: Ática, 1989.

FILHO, Domício Proença. A Linguagem Literária. São Paulo: Ática, 1986.

Victor Pedra Author

Estudante de letras, gosta de livros e batata frita.