O sadismo em A Causa Secreta e O Barril de Amontillado

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Machado de Assis e Edgar Allan Poe, dois grandes nomes da literatura do século XIX, apresentam em suas obras um amplo acervo acerca dos mistérios do comportamento humano. Nos contos A Causa Secreta e O Barril de Amontillado, é possível identificar graus de sadismo nos personagens Fortunato e Montresor.

Em A Causa Secreta, narrado em 3ª pessoa, a história é contada sob o ponto de vista de Garcia, observador da prática sádica, em caráter de denúncia. Fortunato, aparentemente um homem comum e correto, desperta a curiosidade de Garcia após alguns encontros casuais. Quando nota seu interesse no teatro ao assistir a um dramalhão sangrento, especialmente nas partes mais dolorosas, Garcia começa a ficar curioso em relação à personalidade de Fortunato. Ele observa no outro um contraponto entre seus atos nobres e seu temperamento frio. O burguês ajuda a cuidar de um ferido com dedicação, em seguida o destrata quando recebe os agradecimentos; funda uma casa de saúde com Garcia, que é médico, e é extremamente devotado aos pacientes, ao mesmo tempo em que realiza experiências terríveis com animais. Sua relação com a esposa, Maria Luísa, é bastante conturbada. A mulher é delicada e frágil, particularmente sensível aos arroubos violentos do marido, a quem parece temer, mais que respeitar.

A cena que explicita o sadismo de Fortunato é a da tortura de um rato. Garcia, já íntimo da família, chega à casa do amigo e encontra Maria Luísa em estado de aflição. Dentro do escritório, Fortunato tortura lentamente um rato, que teria roído papéis importantes. É nesse momento que Garcia percebe a causa secreta do comportamento do sócio: ele encontra prazer no sofrimento alheio.

Garcia, seduzido pelos encantos de Maria Luísa, tenta protegê-la da destrutividade sutil de Fortunato, em vão. A moça acaba adoecendo e falece pouco tempo depois. Na última cena, o médico vela a defunta com carinho. Num rompante emocionado, ele beija sua testa. Fortunato observa e deduz o sentimento de Garcia. Mesmo com o orgulho ferido, ele aprecia a dor do outro.

Em O Barril de Amontillado, narrado em 1ª pessoa, a história é contada sob o ponto de vista de Montresor, agente da prática sádica, em caráter de justificativa. Montresor planeja se vingar de seu amigo Fortunato, por motivo desconhecido e aparentemente fútil. Durante uma festa de Carnaval, ele convida o amigo a verificar uma safra de Amontillado, porque sabe de sua paixão por vinhos. Ele o conduz até sua cave, com uma abordagem sutil. Em seguida, acorrenta-o e começa a emparedá-lo. Os gritos de desespero do outro apenas aumentam o seu prazer.

Em ambos os casos, os personagens escapam impunemente de seus atos sádicos. Eles apresentam uma camuflagem social para esconder um caráter essencialmente cruel e/ou vingativo. Fortunato é um burguês respeitado e admirado. Apenas Garcia suspeita que a causa secreta de suas aparentes boas ações seja um intenso sadismo. Montresor também tem grande habilidade social. Seu amigo sequer desconfia de suas reais intenções quando aceita o convite velado para descer até a cave.

Os dois homens, portanto, possuem uma personalidade oculta, que pode ser muito perigosa, quando revelada. Montresor comete, de fato, um assassinato. Fortunato pode ser a causa secundária da morte repentina da esposa. O ato sádico de Montresor é, portanto, explícito, enquanto o de Fortunato permanece implícito. No entanto, Montresor é motivado pela vingança, pois o amigo o teria ofendido gravemente. A matéria da ofensa não é revelada; o importante é saber que o narrador se sentiu insultado. Fortunato não tem motivações externas para o exercício de sua crueldade com os animais e a esposa, agindo, assim, por um impulso mais intrínseco.

Por meio de narrativas tensas, Machado e Poe despertam no leitor curiosidade, fascínio, espanto e repulsa. No canto de cada página escondem-se personagens sádicos, deliciando-se silenciosamente com a dor alheia.