“O sol na cabeça”, de Geovani Martins: a literatura brasileira periférica

O sol na cabeça, livro de estreia de Geovani Martins, autor apontado como o novo fenômeno literário brasileiro, retrata situações vivenciadas pelos moradores de favelas cariocas
O sol na cabeça, Geovani Martins
Geovani Martins, autor de O sol na cabeça | Foto: Zo Guimaraes/Folhapress

O sol na cabeça já nasceu como uma obra de sucesso. Antes da primeira publicação, pela Companhia das Letras, a coletânea de contos de Geovani Martins foi vendida para editoras de nove países. E qual é o motivo desse sucesso todo?

Geovani Martins e sua literatura

Geovani Martins, ao contrário de grande maioria dos escritores brasileiros, veio da favela. Nasceu em Bangu, no Rio de Janeiro, estudou pouco e trabalhou desde cedo. Foi homem-placa, atendente em lanchonetes, garçom, trabalhou em barraca de praia, entre outras funções.  Antes de morar na favela do Vidigal, morou na Rocinha e Barreira do Vasco.

Em 2013 e 2015, o escritor participou de oficinas da Festa Literária das Periferias. E em 2015, na FLIP, apresentou a revista Setor X, que publicava textos de escritores de favelas do Rio.

Sua ligação com a ficção se deu ainda cedo, porque, aos quatro anos, andava com revista em quadrinhos. Também contava, aos amigos, as histórias que havia decorado, a partir de leituras feitas por sua vó. O contato com a escrita veio na adolescência, quando percebeu, ao ler Machado de Assis, que por meio das palavras poderia provocar sensações, emoções, isto é, mexer com  outras pessoas, conforme destacou Maurício Meireles na Folha de S. Paulo.

A avó de Geovani Martins tem um papel importante em sua vida. Foi ela a responsável por sua alfabetização. E também era para a avó que ele sempre pedia livros. Assim, leu muito, começou por best-sellers e depois passou aos cânones.

O sol na cabeça é tratado como uma grande novidade por Geovani se tratar de um dos poucos escritores vindos da favela que conseguiram visibilidade no mundo editorial. Mundo este que é tão excludente quanto nossa sociedade.

Além disso, ao lado de autores como Ferréz e Carolina Maria de Jesus, Geovani Martins apresenta os moradores da favela, suas vivências e seus prazeres. Sem deixar de falar sobre drogas, tráfico, violência e preconceito racial. Tudo isso com uma linguagem própria, apresentando vozes pouco representadas na literatura brasileira.

Sobre contos de O sol na cabeça

Os contos de O sol na cabeça falam de temas quase todos universais. A infância, a adolescência, a vida amorosa. A diferença é que o espaço no qual esses temas são tratados é, em grande maioria, a favela. Além disso, os fatos apresentados nos contos são envoltos por uma carga gigantesca de violência, discriminação social e racial. Comento, a partir daqui, alguns dos contos.

Em “Espiral”, o narrador-personagem apresenta a forma como era olhado desde que criança. Enquanto voltava da escola, sentia-se como os moleques valentes do colégio, sobretudo quando percebia meninos de colégios particulares tremendo de medo e senhoras que seguravam firme a bolsa e atravessavam a rua com pressa. Não entendia aquilo, mas gostava de intimidar. Com o tempo, foi entendendo os muros que havia a sua volta. Entendeu o que separava os ricos dos pobres, as favelas dos condomínios.

No conto “A história do Periquito e do Macaco”, são apresentadas as mudanças que ocorreram na Rocinha, após a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) ser instalada na favela. Nada havia de pacificador no trato da polícia, pelo contrário:

“Bagulho ficou doido, os policia sufocando, invadindo casa, esculachando morador por qualquer bagulho. Tu tá ligado como eles é. Ainda mais com jornal tudo fechando com eles, tinha que ver” (p. 37).

“O caso da borboleta”, por sua vez, é um conto sobre infância e sonhos, a partir de uma metáfora sobre o nascimento de uma borboleta. Em “O cego”, o narrador conta a história de Mathias, um cego. Sozinho na vida, teve de arrumar modos de sobreviver. Sua vida foi dolorosa, solitária e permeada por drogas.

O sol na cabeça, Geovani Martins
O sol na cabeça (Companhia das Letras, 2018)

Outros contos, como “Estação Padre Miguel” e “Travessia”, apontam situações que envolvem violência e tráfico de drogas, sem apresentar estereótipos. Por meio situações de tensão e suspense, com foco nas ações, as narrativas deixam o leitor por vezes angustiado ou em total indignação.

Por fim, após comentários sobre alguns contos, fica a indicação de leitura. Leiam O sol na cabeça, porque Geovani Martins é uma voz fundamental na literatura contemporânea.

Referência

MARTINS, Geovani. O sol na cabeça. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Estela Santos Author

Editora e colaboradora do Homo Literatus. Mestra em Letras - Estudos Literários (PLE-UEM). Mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela