O vampiro na literatura

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Na última quinta-feira, o curso de Letras da Universidade Regional de Blumenau teve a grande satisfação de receber a escritora e professora Salma Ferraz para uma aula magna baseada em seus recentes estudos sobre o vampiro na literatura. (Essa é uma breve síntese do estudo que a Salma Ferraz desenvolveu, portanto, fica a recomendação da leitura de seu artigo [“Vampiros – o mito é o nada que é tudo e de todos”] e claro, das várias obras por ela citadas.)

Quando falamos em vampiro na literatura, automaticamente duas figuras nos vêm à mente: o famoso e grande Drácula, de Bram Stoker, e Edward Cullen, o vampiro certinho e apaixonado de Stephenie Meyer. A grande questão é a seguinte: qual é afinal, a história do vampiro? Como se deu a sua evolução através dos séculos? Depois de participar da palestra com a Salma e de ter lido atentamente seu artigo, eis o que posso lhes dizer…

Cena do filme "Drácula" (1931), do diretor Tod Browning, com o ator Bela Lugosi no papel principal
Cena do filme “Drácula” (1931), do diretor Tod Browning, com o ator Bela Lugosi no papel principal

Nascido entre a literatura gótica e a literatura fantástica, o vampiro é o fruto das tantas lendas e superstições de várias épocas e culturas do mundo, mas que adquiriu seu status literário apenas no final do século XVIII. Há uma lenda sobre Vlad III, príncipe da Valáquia, cujo corpo desapareceu do túmulo após sua morte. Vlad Tepes, filho de Vlad Dracul, pode ter sido uma grande inspiração para Stoker. Outros textos interessantes antes de Drácula que Salma cita é The vampyre, de John Polidory, e Carmilla, de Sheridan Le Fanu. Polidory retira o vampiro da periferia e o molda tal como o conhecemos: um vampiro rico, nobre e sedutor. Há quem diga que Polidory tenha colocado no personagem características de seu amigo, Lord Byron. Já Le Fanu retrata com extrema naturalidade a história de uma vampira homossexual e pedófila.

Em 1897 sai o resultado da junção de tudo o que Stoker sabia sobre os vampiros – todas as lendas e produções anteriores – acrescido de mais alguns detalhes. Nasce o Drácula. O vampiro agora, além de rico, nobre e sedutor, só dormia em terra nativa (ele carregava terra de sua cidade dentro do caixão em que dormia), tinha medo de espelho, só podia entrar em uma casa se fosse convidado e também possuía certa ligação com o morcego. Em Drácula, a religião também começa a dar suas primeiras pinceladas no combate ao vampiro: há crucifixos, orações e citação de trechos bíblicos.

Depois foi a vez de Anne Rice, que em 1976 escreveu Entrevista com o Vampiro (traduzido para o português pela minha queridíssima Clarice Lispector). A questão religiosa pesa mais na obra de Rice. Aqui encontramos um vampiro que levanta questões morais nunca antes expressas no universo vampiresco – um vampiro com nostalgia do humano. Louis se considera uma espécie de demônio e preocupa-se com essa condição; ao contrário de seu irmão Lestat, que afirma que o mal é um ponto de vista. A nostalgia se dá porque apenas o humano tem acesso ao sagrado enquanto o vampiro é um eterno condenado. Aqui eles se vestem de acordo com a última moda de Paris, podem se olhar no espelho e já não têm mais medo de crucifixos e igrejas.

A sexualidade é tratada de uma maneira interessante na obra de Stoker e de Rice. Na análise de Salma o vampiro “perde o poder de ereção de seu órgão sexual e ganha no lugar dele, dois outros: dois incisivos sempre eretos. […] O sangue que sai das gargantas das vítimas é o sangue do defloramento. Com a mordida realiza dois desejos ao mesmo tempo: fome e sexo.”

Edward Cullen em cena da saga Crepúsculo
Edward Cullen em cena da saga Crepúsculo

2005 chegamos ao queridinho de muitas adolescentes: Edward Cullen, de Crepúsculo. Os vampiros aqui não são góticos e não temem a luz do dia – alguns são até vegetarianos e só se alimentam do sangue de animais. Embora a Salma reconheça que Stephenie Meyer teve uma grande sacada ao “modernizar” o vampiro, creio que sua crítica focou-se muito em sua opinião pessoal. Em Crepúsculo encontramos um vampiro “certinho”. A sexualidade volta para o órgão sexual e é muito atacada nessa altura do artigo, pois a Salma não se conforma com um homem/vampiro que deseja se casar antes de ter a primeira relação sexual. Aqui é necessário observar todo um contexto: Meyer tem uma forte relação com sua igreja e, portanto, tem a Bíblia como referencial. É preciso dizer mais alguma coisa?

Independente de como o vampiro é retratado, ele veio para oferecer a vida eterna de maneira instantânea para aqueles que recebem o seu “batismo de sangue”, desafiando o Filho de Deus que também oferece a vida eterna através de Seu sangue (nesse caso, de maneira não instantânea, já que a vida eterna só virá após a morte da pessoa ou após o Seu retorno).

Mais cuidado do que com esses seres fictícios, é preciso tomar cuidado com os “vampiros reais” – aqueles que fazem de tudo para sugar nossa felicidade –, e acima de tudo, para que não nos tornemos um deles. “O mal é sempre possível. E a bondade eternamente difícil.” (Anne Rice)