O vendedor de passados (ou: a narração feita por uma lagartixa)

Romance de José Eduardo Agualusa, narrado por uma lagartixa, apresenta a história de Félix Ventura, negro albino vendedor de passados

Vendedor de passados Agualusa
José Eduardo Agualusa, autor de O vendedor de passados | Foto: Divulgação/ Agência O Globo

O vendedor de passados é um título intrigante. Uma profissão do futuro? Ou será que isso já existe? Como assim podemos comprar passados? Como se não bastasse esse curioso título, o livro escrito pelo angolano José Eduardo Agualusa, autor de ascendência portuguesa e brasileira, tem como narrador Eulálio, uma osga (lagartixa). Eulálio conta a história de Félix Ventura, um negro albino que vende passados para aqueles que desejam uma nova árvore genealógica.

Eulálio vive na casa (nas paredes?) de Félix e acompanha seu trabalho de comerciante de passados ou de memórias, se assim podemos chamar. O narrador nos conta sobre como o negro albino constrói e organiza os passados que vende, além de nos apresentar detalhes sobre os clientes do vendedor de passados e sobre a própria vida deste homem, não menos curiosa.

 

Félix Ventura e seu trabalho como vendedor de passados

O negro albino Félix Ventura tem como profissão comercializar passados. Ele cria uma nova árvore genealógica para aqueles que desejam um novo passado. Geralmente, seus clientes buscam um passado mais notável e digno de admiração. Com raras exceções, alguns buscam um passado sem grandes feitos para poder viver em paz, como um desconhecido.

Eulálio, a lagartixa que vive na casa de Félix, conta como esses passados são construídos. E pontua que, para o comerciante de memórias, seu trabalho é um novo fazer literário, pois não fica somente nas páginas de livros e tem ligação com a realidade.

“– Acho que aquilo que faço é uma forma avançada de literatura –, confidenciou-me. – Também eu crio enredos, invento personagens, mas em vez de os deixar presos dentro de um livro dou-lhes vida, atiro-os para a realidade” (AGUALUSA, 2004, p. 75).

 

Mas como Félix constrói os passados?

Eulálio nos conta que a casa de Félix tem uma biblioteca gigantesca. Repleta de livros dos mais variados assuntos e épocas. Há recortes de jornais e revistas de várias épocas e nacionalidades. Fitas cassete, objetos antigos, cartões postais, cartas etc.

Félix frequenta antiquários e sebos, em busca de elementos que possam ajudá-lo na construção de um passado verossímil para seus clientes. Vive negociando artefatos que o interessam enquanto objeto de trabalho. É um estudioso, dedica-se a cada detalhe das árvores genealógicas que cria. E isso é bastante visível nas descrições acerca do seu trabalho ao longo do romance.

 

Sobre alguns clientes do vendedor de passados

Eulálio explica, em sua narrativa, que quem procura Félix são pessoas mais abastadas financeiramente:

Procurava-o, explicou, toda uma classe, a nova burguesia.  Eram empresários, ministros, fazendeiros, camanguistas, generais, gente, enfim, com o futuro assegurado. Falta a essas pessoas um bom passado, ancestrais ilustres, pergaminhos. Resumindo: um nome que ressoe a nobreza e a cultura. Ele vende-lhes um passado novo em folha. Traça-lhes a árvores genealógica. Dá-lhes as fotografias de avôs e bisavôs, cavalheiros de fina estampa, senhores do tempo antigo (AGUALUSA, 2004, p. 17).

Um de seus principais clientes é José Buchmann. Um homem misterioso, que não disse seu nome inicialmente, mas que ofereceu muito dinheiro a Félix caso seu passado fosse construído minunciosamente, com direito a documentos e tudo o mais.  Temos um capítulo inteiro no livro de Agualusa dedicado à construção do passado de Buchmann.

Antes de ser Buchmann, o homem era Pedro Gouveia, preso político, fotógrafo de guerras. Ao decorrer da narrativa, percebemos que Buchmann parecia ter um propósito muito específico com sua nova identidade, o que envolve questões familiares e até vingança.

Para citar mais um cliente, falemos do mascarado. Um dia o homem acordou e descobriu que tinham feito-lhe uma operação plástica. Ninguém mais o reconheceu e ninguém acreditava em sua história. Acostumou-se, era uma oportunidade de ser livre, sem responsabilidades, ódios, rancores ou intrigas. Busca Félix com o propósito de ter um passado humilde, sem luxos e ambições. Assim, Félix faz seu trabalho, não de modo costumeiro, já que seu cliente não desejava um passado com feitos heroicos ou familiares socialmente importantes.

 

Adaptação do livro para o cinema 

O livro O vendedor de passados foi adaptado para o cinema em 2015. O filme, de mesmo nome do romance, foi produzido no Brasil e dirigido por Lula Buarque de Hollanda. Conta com atores famosos, como Lázaro Ramos e Aline Moraes. Confiram o trailer.

Como uma adaptação, não podemos esperar que o filme seja muito fiel ao livro. É o caso deste filme em específico, que destoa um tanto do romance de Agualusa. No YouTube, consta o filme completo para quem estiver curioso(a).

Indicação

Confira o nosso podcast 30:MIN sobre literatura africana, com Vilto ReisCecilia Garcia MarconJefferson Figueiredo e Carina Carvalho.

Referência

AGUALUSA, José Eduardo. O vendedor de passados. Rio de Janeiro: Gryphus, 2004.

Estela Santos Autor

Colaboradora do Homo Literatus, professora, mestra em Letras - Estudos Literários e mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela