Obra Infantil: se é para crianças, por que serve para os adultos?

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Diferente quando lido ontem, hoje e amanhã.

Das habilidades criativas e literárias de alguns autores, consegue-se apenas em alguns casos textos que fazem das histórias uma narrativa tão rica que conduz o leitor para dentro não apenas do livro, mas principalmente para dentro de si. Dos grandes nomes espalhados pela história da literatura, dois se destacam. Um de maior projeção e outro um pouco mais modesto, porém não de menor valor. O diferencial desses dois é a capacidade que seus textos têm ao invocarem o conhecimento próprio e do mundo através da fabula que contam.

O primeiro, Antoine de Saint-Exupéry, era um exímio piloto e também tinha aptidões como ilustrador e, melhor ainda, como escritor. Fruto de suas viagens como piloto de guerra e reconhecimento territorial, sua imaginação sempre retratou este aspecto em suas obras. Todavia, uma delas se destacou: Le Petit Prince – O Pequeno Príncipe – de 1943, lançado apenas um ano antes de sua morte.

O Pequeno Príncipe . Capa

No caso de Exupéry, seu romance mostra uma profunda mudança de valores em suas personagens, sugerindo o quão equivocados podem ser os julgamentos adultos, e como isso pode levar à solidão. O livro conduz a reflexões sobre a maneira como as crianças se tornam adultas no mundo da época (e por que não nos dias atuais?!). Sendo uma obra atemporal, ela aponta comportamentos culturais e descreve como os adultos, ou segundo o autor: “as pessoas grandes”, são entregues às preocupações do dia a dia, e esquecem da criança que foram um dia, ou que ainda podem continuar a ser. Haja vista que: “O essencial é invisível aos olhos”.

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Tendo um efeito didático para quem lê a obra, mostrando uma forma um pouco mais correta de crescerem, o curioso é que mesmo passando os anos na vida do leitor, o livro continua mutável e cresce com ele. Na contramão, ele ensina como o adulto deve deixar de ser “gente grande” em certas ocasiões e voltar a pensar como criança para o bem não apenas dos outros, mas principalmente de si…

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Já o segundo autor merecedor de destaque é o “recém” falecido (2009) Maurice Druon. Nascido em 1918, também francês, dedicou sua vida à literatura. Diferente de Exupéry, fez parte da Academia Francesa de Letras e viveu intensamente o mundo literário. Sua contribuição em especial às crianças e ao que irão se tornar quando adultas é feita através do livro O Menino do Dedo Verde, publicado em 1957. Esta obra, entre outras do autor, conduz por caminhos similares aos do Pequeno Príncipe, viajante espacial e desbravador de mundos.

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O garoto Tistu nasce filho do mais poderoso homem da cidade, cresce com conforto absoluto devido à atividade principal de seu pai, dono da maior fábrica de canhões do mundo. O conflito se forma quando ele descobre um dom espetacular que possui e vai contra tudo que conhece. Em sua jornada de autodescobrimento, o mundo começa a ter cores diferentes sob seus olhos, e consequentemente do leitor. O que antes apenas brilhava, passou a ter um tom mais cinza. Lições como: “para cuidar direito dos homens é preciso amá-los bastante” são o foco do livro.

O crescimento deste livro é também proporcional à idade do leitor, tal como no citado anteriormente. Ao ler-se enquanto criança, vislumbra-se a jornada, ao se ler enquanto adulto, regride-se à inocência infantil para se analisar o próprio eu e repensar-se como ser humano.

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Ambos os livros passaram por inúmeras adaptações para o cinema. Os dois, inclusive, tiverem famosos desenhos animados em seu país de origem, os quais foram traduzidos para incontáveis línguas espalhadas pelo mundo. Atualmente O Menino do Dedo Verde e O Pequeno Príncipe têm adaptações teatrais viajando pelo planeta, e pelo Brasil.

A mágica de cada obra não se traduz ao visual, a leitura é essencial, mas os espetáculos não deixam de ser marcantes para qualquer idade.