O desconforto sombrio em “O ofício de matar Suicidas”

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Obra de caráter sombrio, questionador e cômico apresenta matador profissional com crise de consciência

crédito: google/ booktrailer

Falar sobre suicídio é algo complicado. O tema ainda é um tabu e causa certo desconforto em muita gente. Acredite: em pleno século XXI, ler um livro intitulado O ofício de matar suicidas (Editora Arte Paubrasil) em local público pode atrair uma dezena de olhares desconfiados. Causar esse primeiro choque com o título pode ter sido exatamente a intenção do escritor José Ewerton Neto, no entanto, a obra vai muito além.

Com uma boa dose de sarcasmo, o autor conta a história de um homem cheio de incertezas e sem perspectivas que assume uma carreira inusitada: matador de suicidas. Ao publicar um anúncio no jornal, logo aparecem os primeiros clientes, pessoas que querem se matar, mas que não têm coragem para realizar o ato final. Cada personagem revela um motivo particular para a decisão mórbida, o que coloca o matador perante uma série de questões morais antes da realização do serviço, incluindo da tentação do dinheiro fácil.

Por meio desses encontros entre os suicidas e o matador, e das peculiares histórias que se desenrolam, o escritor desenvolve uma série de julgamentos a respeito do modo de vida do homem pós-moderno, sua busca por identidade perdida, por um significado para a existência, sobre o consumismo exacerbado, a valorização desmedida da imagem em detrimento do conteúdo, incluindo até mesmo uma alfinetada nos tão populares reality shows.

O ofício de matar suicidas tem um caráter sombrio, mas muito questionador e, por vezes, também um lado cômico. Os suicidas são representados por diversos arquétipos de diversas esferas sociais e o protagonista se questiona a todo hora sobre o caminho que está trilhando e suas consequências.

“Nunca imaginei que pudesse ter ido tão longe. Quando pensava nisso, odiava que ainda fosse o mesmo em essência: sempre dominado por sentimentos piegas e cristãos, enquanto todo mundo que se dava bem na vida estava cagando e andando para isso”. (p. 45)

O autor, José Ewerton Neto, é natural de Guimarães (MA) e tem oito livros publicados, incluindo obras de poesia, contos e de crônicas. Com um texto claro e fluido, O oficio de matar suicidas garante bons momentos de leitura e reflexão.