Onze mulheres diante da guerra

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“Cortaram-lhe as mãos para que não votasse.” A frase vive uma revolta na minha cabeça

Mariatu, uma das mulheres fotografadas / crédito : Nick Danziger
Mariatu, uma das mulheres fotografadas / crédito: Nick Danziger

Pego o trem para o centro de Londres. Manhã de cartão postal: neblina. Um rapaz no assento da frente, com os pés na poltrona, ouve uma música alta. O senhor de boina e rugas comenta agitado que o mundo está perdido. Diz murmurando com certa raiva que a humanidade e os jovens não respeitam mais nada, nem regras simples como não colocar os pés na poltrona do trem. E olha que tem um aviso ali no alto pra quem quiser ler!

Respondo com certa mineirice, num sorriso breve e olho para o chão. Não quero tomar partido, até porque não estou interessada. Tenho um livro pra terminar. Pelo que se apresenta, o rapaz é mal educado e o senhor é ranzinza.

Salto na estação de London Bridge e parto para Lambeth North. Ali fica o Imperial War Museum e é lá que começo a me sentir mal.

Estou no museu pra ver o livro e a exposição do conceituado fotojornalista Nick Danziger sobre onze mulheres que testemunham o sangue e ódio de guerras civis. Pelo espaço, me persegue particularmente uma menina Mariatu. Uma imagem belíssima da moça de então, treze anos, porta uma intensidade e um incômodo quase insustentáveis. No registro de Danziger, de 2001, Mariatu aparece pensativa segurando o rosto com os braços que não têm as mãos. A imagem por si é impactante. Mas, é no livro que entendemos as circunstâncias dos sacrifícios suportados pelas mulheres fotografadas. Mariatu da Serra Leoa porta a mutilação resultado da colossal violência que assolou o país em 1995 e durou onze anos. Grupos rebeldes e radicais lutaram contra o regime e contra as políticas das minas de diamante na região. Mariatu foi vítima das barbaridades da guerra.

“Cortaram-lhe as mãos para que não votasse.” Dou uma pausa. Volto ao texto: “cortaram-lhe as mãos para que não votasse.” Não é possível. Estou no país das sufragistas. Sinto-me mal. Releio: “cortaram-lhe as mãos para que não votasse.” Não estou lendo errado. Como mulher, Mariatu não tinha voz alguma. Para prevenir a participação feminina nas eleições, os rebeldes sequestraram a menina e cortaram-lhe as mãos, já que era possível votar usando apenas a impressão digital. Mariatu teve relativa sorte no futuro. Danziger encontrou a moça, agora no Canadá onde vive com a dignidade que lhe foi negada no seu país de origem.

O livro, assim como a mostra e o filme, causa inquestionável impacto e gera desconforto, náusea, incômodo. A proposta de todo esse trabalho é resgatar esses rostos dez anos depois da primeira fotografia. Uma espécie de antes e depois, ou “como está você agora?”.

Mas, há também as histórias mal contadas. Uma das imagens mais bonitas do livro é a do rosto da menina afegã Mah Bibi. Há dez anos, quando Danziger esteve naquela zona de sangrentos conflitos, a menina com dez anos de idade cuidava dos dois irmãos. Eram órfãos. Sobreviveram assim, sem ninguém, à deriva e à disposição de toda e qualquer violência, expostos à violação de direitos e abuso. A mãe da menina morreu e o pai desapareceu em meio à guerra. Não encontramos a foto atual de Mah Bibi. O jornalista teve a informação de que ela foi morta em 2006. Mas, segundo ele, nenhuma fonte é completamente confiável e verdadeira. Há sempre camadas escondidas especialmente pela conveniência de políticas tão abusivas como as vistas nesses países destacados no livro.

As 192 páginas nos transportam para as realidades registradas pelo jornalista através do trabalho que fez para a Cruz Vermelha durante aquele período. Organizado por histórias, cada capítulo traz uma mulher e seu nome. Nossa América do Sul está lá através das guerrilhas da Colômbia e a menina Amanda. Destacam-se ainda a belíssima Olja, do Kosovo, Efrat, de Israel e Zakyia, de Gaza.

O desconforto é correspondente à qualidade da narrativa. É excelente. Descrições fiéis, na medida do possível, dão o teor jornalístico e documental de impensáveis atrocidades. Mas, vez ou outra, a emoção embaça a leitura.

São páginas de inquietação que nos fazem deparar com Sarah. Também de 11womenSerra Leoa, a menina que testemunhou o massacre da própria família dentro de casa e conseguiu escapar aos quinze anos. No meio da selva e com fome, arriscou uma volta pra casa. Lá, esperavam por ela, os mesmos homens que tinham exterminado seu pai e irmãos. Ela foi estuprada pelo líder rebelde e por seus soldados. Engravidou e na foto mais atual, inacreditavelmente, Sarah e a filha Kadija estampam um sorriso de nos deixar encabulados.

Àquela altura, estou com dor de cabeça, dor na consciência, dor no peito. Faço, eventualmente, meu caminho de volta à estação. No trem, penso no velho rabugento que reclamava do rapaz com os pés na poltrona.

O homem é sábio. O mundo, de fato, perdeu o juízo.

“Cortaram-lhe as mãos para que não votasse.” A frase vive uma revolta na minha cabeça. Penso em Einstein. Penso em Mozart. Penso em gênios, indiscutivelmente, mas que tiveram um caminho relativamente fácil, já que para tamanho reconhecimento nunca precisaram competir com mulher alguma.

Quanto desperdício até agora. Penso de novo no velho. Ele estava errado. O mundo nunca teve juízo.

A exposição “Eleven women facing war” fica no Imperial War Museum em Londres até 24 de abril.

O livro pode ser comprado no museu.