Orígenes Lessa descortina vida e feitos de um dos maiores sanitaristas do Brasil

NOEL NUTELS
Noel Nutels

Contam que Noel Nutels, enfermo no hospital, recebe a visita de militares que circundando seu leito perguntam como ele está. No que responde: “Como o Brasil, na merda e cercado de militares”. Orígenes Lessa não conta o episódio. A história pode ser folclore criado por conta do humor irreverente, e na hora certa, do qual o médico sanitarista e indianista, alemão, judeu, mas mais brasileiro e nordestino do que muitos filhos da pátria, era dotado. Se não aconteceu, é perfeitamente possível de ter acontecido, dado o temperamento aguerrido e inteligente de Noel.

Na biografia que Orígenes Lessa queria modesta, e que de modesta nada tem (trata-se de um raio x, pegando o mote dos inúmeros raios x que o médico biografado tirou dos índios e do povo sofrido nos rincões do país, perfeito de Noel Nutels), há mostras das tiradas bem humoradas do indianista.

Uma delas é quando numa palestra Noel é interrompido por uma senhora perguntando se afinal de contas os índios comem ou não comem gente. Ele olhou-a, sério. E respondeu: “Mas não por via oral, minha senhora!”.

É privilégio ser biografado por Orígenes Lessa. Nutels muito fez pelo Brasil. Certamente por isso Orígenes resolveu contar sua história de vida e luta. Mais luta pelo próximo, pelo sertanejo, pelo índio, do que por sua própria vida.

E o escritor, em sua linguagem que lhe é tão peculiar, conta tudo. De como Noel criou o Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas (Susa), atendendo e levando saúde para milhares de necessitados em todo o território nacional, e em até alguns países vizinhos. Como foi um dos soldados mais decididos na Campanha Nacional contra a Tuberculose. Como praticamente erradicou a malária no país. Lutando contra ela, onde preciso fosse, o sanitarista foi acometido 40 vezes pela malária. E, sobretudo, como cuidou da saúde do índio e brigou por seus direitos.

Mesmo doente Noel não recusava um convite (em qualquer lugar dentro ou fora do país) para falar de seu trabalho em favor dos índios. Era preciso catequizar o homem branco.

Lessa conta como o indianista foi um dos introdutores do frevo no Sul do país; de como Noel, apesar de ter chegado ao Brasil aos 10 anos de idade fugindo do pogrom, conhecia bem a alma do brasileiro.

Mais ainda a do nordestino – pois aos 10 anos no interior de Alagoas teve uma infância típica de criança interiorana, com direito a tudo, inclusive sexo com bananeira –, tanto que para melhor combater a tuberculose encomendou ao cordelista João José um cordel que explicasse na linguagem do povo o que era a doença e o que fazer para evitá-la.

João José escreveu o cordel A fera invisível ou o triste fim de uma trapezista que sofria do pulmão. O sanitarista declarou várias vezes que os versos de João José fizeram mais pela campanha contra a tuberculose no meio do povo que sua equipe médica e seus alto-falantes. Declarava: “Poucos médicos explicariam melhor, em termos de povo, o que é preciso saber sobre a fera invisível”. Conhecia mesmo o Brasil.

O paulista Orígenes Lessa, nascido em Lençóis Paulista, guarda muitas semelhanças profissionais com o também escritor, paulistano, Marcos Rey. Assim como Marcos Rey, foi escritor full time e produziu roteiros para cinema e televisão, textos teatrais, adaptações de clássicos, reportagens, textos de campanhas publicitárias, e, a maior das semelhanças, também escreveu inúmeros livros infantojuvenis de grande sucesso.

OK_capa_Indio cor de rosa.inddInclusive O índio cor-de-rosa – Evocação de Noel Nutels evoca trechos da mesma época do autobiográfico O filho do encadernador, de Rey.

A nova edição traz um texto do próprio Noel (Noel por Noel), desnecessário. Tudo o que ele conta no texto foi fonte de pesquisa para o maravilhoso, e necessário, livro de Orígenes Lessa.

O índio cor-de-rosa – Evocação de Noel Nutels
5ª Edição
Orígenes Lessa
Global Editora
256 páginas

Cláudio Portella Autor

É escritor, poeta, crítico literário e jornalista cultural. Autor dos livros Bingo! (2003), Melhores Poemas Patativa do Assaré (2006; 1ª reimpressão, 2011; Edição em ebook, 2013), Crack (2009), fodaleza.com (2009), As Vísceras (2010), Cego Aderaldo (2010), o livro dos epigramas & outros poemas (2011), Net (2011), Os papéis que meus pais jogaram fora (2013) e Cego Aderaldo: a vasta visão de um cantador (2013). Colabora em importantes publicações do Brasil e do exterior. Ganhou o concurso de conto da UBENY - União Brasileira de Escritores em Nova York.