Os Pequenos Prazeres em Adriana Sydor, Toda Prosa

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Adriana Sydor diz que é do tipo banal, entregue a pequenos prazeres – e convida quem lê a fazer o mesmo

Adriana Sydor


“Sou um tipo banal, corriqueiro, ordinária, entregue a pequenos prazeres.” Essa frase que abre o texto “Piscinas de Ilusionismo” é um cartão de visita e um resumo acurado da coletânea de crônicas Adriana Sydor, Toda Prosa, de Adriana Sydor, e publicada pela editora curitibana Travessa dos Editores, que a acolheu enquanto organizadora de antologia e agora como escritora. Talvez ‘derramada’ no corriqueiro também descreva esta construção de um olhar para o mínimo do cotidiano, pois é uma impressão fácil de se ter durante a leitura.
Um mínimo entregue no abandono de letras maiúsculas, presentes apenas quando se fala de pessoas ou lugares, uma escolha que parece apenas estética, dependendo da perspectiva, mas conta um pouco do que Sydor (se) entrega. É um olhar para o cotidiano puro e simples, no qual tanto as interações com filhos, amigas e outras pessoas quanto um objeto ou um prazer individual ganham espaço pela narração, que combina linguagem falada com um quê de poesia, em aparente busca por não ceder demais a nenhuma dessas características.
Brechós, viagens, às vezes devaneios, um leve descuido no vestuário que atraiu as vistas de todos em volta, vontade “de costurar uma imensa manta, daquelas feitas a partir de retalhos, dos pedacinhos que não servem sozinhos para nada, capa toda prosamas que são imprescindíveis no espaço aberto.  […] cada pedacinho seria único e não se repetiria, mas se multiplicaria no amiguinho do lado”, como entregue em ‘Costureira’. A tais assuntos, tão colados ao dia-a-dia quanto invisíveis, adicionam-se desenhos como se fossem rascunhos de crônicas, e textos em que músicas ou escritores (Pixinguinha, Tom Jobim, Gabriel García Márquez) tomam a vez pela relação pessoal que a autora desenvolveu com as obras citadas durante seus escritos, permitindo que leitores e leitoras se identifiquem graças ao vínculo.
Adriana Sydor, Toda Prosa é um trabalho sincero de uma voz autoral em construção. Parece não haver medo algum de que o livro seja interpretado assim, pois, ao mesmo tempo em que o olhar da autora para os temas já mencionados dá um tom em que se começa a ver um ‘jeito Sydor’ de redação, alguns textos podem incomodar pela insitência no trivial, feito o clima – assunto típico (até demais) daqui de Chuvitiba (vulgo Curitiba). Nada que tire os méritos dessa coletânea de conversas despreocupadas, onde o mínimo ganha espaço máximo.