Os ‘Poemas da esquerda erótica’, de Ana María Rodas

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Em Poemas da esquerda erótica, Ana María Rodas quebra tabus: aponta a repressão, por meio de cenários patriarcalistas e misóginos, isto causando espanto em função do conteúdo sexual dos versos.

ana maria rodas
A poeta Ana María Rodas

Ana María Rodas nasceu na cidade de Guatemala, em setembro de 1937. Hoje, com 78 anos, é Ministra da Cultura na Guatemala e está em plena atividade em traduções, artigos, conferências e etc. Com sua obra Poemas da Esquerda Erótica (1973), escandaliza a sociedade pacata, convencional e oprimida da capital guatemalteca, transferindo para o plano mais íntimo a questão da liberdade. Tanto por sua temática como pela polêmica levantada no momento do seu lançamento, recebeu bastante atenção por parte da crítica, constituindo um ponto de referência para o estudo da literatura guatemalteca, junto com Angel Asturias, Cardoza y Aragon e Otto René Castillho.

A escritora compõe um seleto agrupamento de mulheres que reforçaram a luta político/social diante de um panorama ditatorial ao qual países da America Central estavam submetidos. Houve um pacto tanto guerrilheiro quanto literário entre El Salvador, Panamá e Nicarágua, que reunia jovens e adultos, entre mulheres e homens que exerciam a atividade poética com a mesma destreza de um manejo contestador e bélico, tendo em vista que muitos destes(as) poetas também exerciam a guerrilha em campo.

María Rodas na Guatemala e Gioconda Belli na Nicarágua quebram tabus, em seus poemas apresentam imagens e figuras de sintaxes atualizadas entre o hermético e o coloquial. Apontam excessos, criam cenários concernentes às opressões do patriarcado e da misoginia e causam espanto com o conteúdo sexual dos versos. Poemas da Esquerda Erótica foi composto há 42 anos, e são poemas que carregam consigo a mesma fúria e timbre áspero que presenciamos em manifestações neste 2015.

No livro O País das Mulheres, Gioconda Belli descreve o “Manifesto do Partido da Esquerda Erótica”, inspirado pelo livro de poemas de María Rodas, lançado em 73, com as seguintes palavras: “Declaramos que nossa ideologia é o ‘felicismo’: fazer com que todos sejamos felizes, vivamos com dignidade, com liberdade irrestrita para desenvolver todo o nosso potencial humano e criador, sem o Estado restrinja nosso direito de pensar, dizer e criticar o que quisermos.”.

Vejam abaixo alguns poemas do livro de Poemas da esquerda erótica, traduzido por Carolina Turboli e Matheus José.

 

Domingo, 12 de setembro, 1937

Domingo, 12 de setembro, 1937
Às duas da manhã: nasci.
Desde então meus hábitos noturnos
E o amor pelos finais de semana.
Me classificaram: menina? Toda rosa.
Botei o rosa faz muito tempo
E escolhi a cor que eu mais gosto,
Que são todas.
Me acompanham três filhas e dois cães:
é o que me resta de dois casamentos.
Estudei porque não tinha outro remédio
Mas felizmente já esqueci
quase tudo.

Tenho fígado, estômago, dois ovários,
uma matriz – coração e cérebro – e acessórios
Tudo funciona em ordem, portanto
Rio, grito, insulto, choro e faço o amor.

E depois eu conto.

Estamos feitos de memórias

Estamos feitos de memórias
De um cabelo loiro
De um peito
De quatro
Cigarros
Moribundos.

O ronco urge, ruidoso, na garganta
– 10.000 células mortas –
E o desejo metralha
Entre os dedos.

 

Assumamos a atitude de virgens

Assumamos a atitude de virgens
Assim
Nos querem eles.

Forniquemos mentalmente,
Suave, muito suave,
Com a pele de algum fantasma.

Vamos sorrir
Femininas
Inocentes.

E à noite enterramos o punhal
E brinquemos no jardim
Abandonemos
Isto que fede à morte.

Lavemos nossos cabelos

Lavemos nossos cabelos
E vamos tirar a roupa.

Eu tenho e você também
Irmãzinha
Dois peitos
E duas pernas e uma buceta.

Não somos criaturas
Que sobrevivem com suspiros.

Já não vamos mais sorrir
Já não mais falsas virgens

Nem mártires que esperam na cama
O esguicho ocasional de um macho.

Como já percorreste a estrada mais larga

Como já percorreste
A estrada mais larga
Não tens mais interesse
Nos seus peixes nem nos seus peitos.

Colado ao teu pedestal
Porque tu também
Tens um desses
Te moves nos trilhos
Da sua trama.

E te esqueces
Que até ontem
O que te empurrava era sentimento.

Você limpou o esperma

Você limpou o esperma
E entrou no chuveiro.

Deu uma limpa nas provas
Mas não nas memórias.

Agora eu aqui, frustrada
Sem permissão para estar,
Devo esperar
E acender o fogo
E limpar os móveis
E encher de manteiga os pães.

Você comprou com sujos
Bilhetes
Seu capricho
Passageiro

A mim cansa um pouco tudo isso
Onde deixo de ser humana
E viro de novo coisa velha.

 

A mulher que dorme

a mulher vê a lua cruzar o relâmpago
e abraça o cachorro antes de abrir-se ao sonho.
lua sobre a pele
pele de sirene
sonhos estilhaçados
amanheceres brancos

estira-se, lê o que escrevem seus amigos.
eles te amam tanto
todos te amam

o penacho do vulcão te avisa
que há vento no norte.

aos cinquenta e tantos
proprietária de uma janela de dez metros
sua barriga está encostada,
os lençóis são frescos,
a cidade geme,
a mulher sonha.

– Tradução Matheus José

 

animal que desperta

sou a gata que caminha dentro de mim.
minhas patas leves de pelúcia.
desci pelo rio
conservando meu gosto pela caça
o ambíguo miado.
quando fecho os olhos atravesso o século.
areias lhe deram cor
a esta pele suave que esconde
uma flor molhada entre o maxilar.
o ouro egípcio é refletido na pupila
desta gata
que várias vezes
recorda sua verdadeira condição de fera.

A Rainha de Sabá
teria dado a metade de sua terra
para ter estas garras.