Os títulos com os quais um escritor pode batizar seu livro

0
1394

O título tem muito a dizer sobre o livro. A escolha certa pode conquistar leitores, assim como um título não atraente pode afastá-los.

titulos-livros

Dias atrás, quando fazia uma resenha do livro Roubo de Espadas (Editora Record, 2013) para o blog Menina da Bahia, onde costumeiramente publico, um lance singular me chamou a atenção. Não que já não tivesse percebido antes, mas, de repente, peguei-me implicando com o título da obra.

Algo me incomodava. Comecei a achar que o título não se sustentava. Roubo de Espadas foi escrito pelo norte americano Michael J. Sullivan, considerado, em 2012, um dos mais bem sucedidos escritores de sci-fi e fantasia da terra do Tio Sam. Sim, tivemos algo como uma tentativa de roubo de uma espada, no início, e depois o roubo de pedaços de uma outra. Fatos esses advindos de uma séria de razões ligadas à trama do livro. O roubo mal sucedido do início da trama foi o arranque inaugural da narrativa, mas… Será que só por isso o autor batizou a obra com esse nome (Theft of Swords, no original)? Ressalte-se que foi apenas um mero detalhe sem mais importância no desenrolar dos fatos.

Tomando esse gancho, denominar um livro nem sempre é uma tarefa fácil para o escritor, mas ele tem a obrigação de fazer uma boa escolha, pois é do “filho” dele que estamos falando. Geralmente é durante a escrita que esse nome surge, como que num estalo, advindo da própria imersão do escritor em seu mundo. Só o autor conhece tudo, só ele sabe, então, do que está tratando de forma absolutamente ampla. Não é raro que um texto comece com certas intenções mas assuma rumos diversos do planejado por força da narrativa, que se nutre e se torna mais forte do que os titubeios iniciais de seu autor, mas mesmo assim o escritor é o primeiro a saber disso. É o primeiro a entender que o que era “Rosa” agora é “Espinho”. Só sua mente para saber como chamar portanto, sua criação. Inimaginável um outro qualquer meter o bedelho.

Tem casos de um título surgir primeiro, imagino. Um bem original e dramático, ou um inusitado e cheio de significados. Como uma frase dada por um professor numa oficina literária; o mestre vem e diz: “Tome um nome e me dê um conto”, e pronto. Começamos a produzir um texto advindo de um título, mas não podemos considerar que isso seja a regra. A ideia veio de outro, afinal. O texto sendo produzido é exercício, trabalho braçal mental, se assim pode-se dizer. O autor é então só um pedreiro, não o engenheiro.

Não, o inverso é muito mais comum: começarmos a escrever sem termos a mínima noção do título. Então, como por mágica, como o fenômeno da eclosão do filhote do ovo, um nome vem e é o título que ficará, substituindo um outro que desaparece, escolhido a esmo, lá no início dos trabalhos, só para nominar o arquivo do Word.

Estranho começar aquela resenha implicando com o título do livro, mas se não fosse ter me dado conta deste em questão, jamais teria parado para pensar como isso é importante sob vários enfoques.

Para que serve o título? Para fisgar o leitor. É um isca lançada que, combinada com uma bela e bem pensada capa, atrairá o leitor para o conteúdo. Fernanda Young lançou um livro intitulado O Pau (Editora Rocco, 2009). Na capa, uma engenhosa composição fotográfica: um campo fechado em preto e branco de uma pessoa com o queixo levantado, tirada num determinado e específico ângulo que lembra claramente um pênis ereto com sua glande proeminente. Óbvio que há intenção, tanto na capa quanto no título. Fernanda Young é erotizante até não poder mais e quis transmitir essa ideia logo de cara no seu livro, seja lá do que trate.

O leitor então pega o objeto do meio de várias pilhas de outras obras. Poderia ser este ou aquele outro livro, mas não, o título, a capa, e em muitos casos o nome do escritor em letras garrafais, esses cumpriram seu papel de fazer com que o comprador estique o braço e apanhe este volume específico nas mãos. A curiosidade é aguçada, o passar de olhos sobre a pele de papel convida a experimentar da carne, do miolo. Daí precisaremos de uma boa orelha ou sinopse na contracapa, tudo isso para tentar alcançar a compra. O título, portanto, é marketing puro, criado para seduzir, cheio de segundas intenções e não raro é obstado por um avaliador de originais: “o título é pouco comercial”, ele diz.

Há algumas regrinhas que tiro aqui, da minha cabeça, para a missão: o título de um livro nem sempre (ou nunca) deve ser algo óbvio demais. Dentro do possível, deve insinuar algo da trama, revelar sem entregar muito. Deve ser criativo sem ser estrambólico. Mas também não pode ser deveras apagado de tal forma a evitar que já haja um monte de livros com nomes similares e o leitor, ao chegar à livraria, confunda-se com alguns outros semelhantes à venda. Um título é um nome que batiza toda uma ideia original. Se não for também original ou forte, de alguma forma transmitirá essas fraquezas de roldão para o conteúdo da obra.

Portanto: Roubo de Espadas, ou o cara é um gênio ou então carece de alguma engenhosidade.