‘Os transparentes’, de Ondjaki

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Lírico, o romance Os transparentes, de Ondjaki, retrata Angola com fidelidade em seus problemas e virtudes

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Se por vezes o amarelo forte dos dias em Luanda faz a cidade escorrer de calor, derretendo as horas, não por menos ocasiões os personagens sentem-se fracos em sua própria existência na trama de Ondjaki: Os transparentes.

Em uma atmosfera que vai da melancolia ao bom humor, os moradores de um edifício no centro da cidade e seus visitantes lidam em seu dia a dia com o conflito entre a chegada do novo e as tradições africanas transmitidas pelas gerações. Nesse ínterim de complexidade psicológica há problemas bastante densos, como a falta d’água e as relações de poder e submissão a “pessoas que estão a mandar mais que deus”. Há também a esperança nos dias, representada em alguns momentos pela expectativa de um poderoso eclipse no céu da cidade angolana. Cada personagem traz um drama particular, envolvido de tal forma com os dramas alheios que acabam por constituir, juntos, um novelo de histórias que se sustentam e cruzam em um enfrentamento coletivo da realidade. MariaComForça, VendedorDeConchas, Paizinho, JoãoDevagar – estes e outros curiosos nomes permeiam a narrativa; é como se cada ocupação ou traço característico da personalidade definisse de forma clara os papéis sociais no meio urbano.

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Os transparentes (Companhia das Letras, 2013)

A riqueza do texto reside não só na apresentação gráfica, em minúsculas, sem pontos finais e com parágrafos que são marcados cada um por sua própria força e tom, mas na linguagem característica das ruas de Luanda, com expressões que reproduzem o cotidiano da cidade e, ainda assim, são tão passíveis de entendimento pelo realismo de seu contexto. A leitura flui em descrições poéticas, diálogos e símbolos que encantam, como as águas que correm misteriosamente pelas paredes do primeiro andar do prédio onde mora boa parte dos personagens.

Tão forte quanto o lirismo de Ondjaki é, paradoxalmente, nítida a transparência progressiva de Odonato, personagem-alegoria do apagamento do indivíduo no plano social e, na história, inclusive físico. É possível acompanhar o processo de diminuição e consequente sumiço do homem diante do sofrimento diário. Uma dor lenta e ignorada que vai minguando a própria carne e tornando-a leve, matéria impalpável em uma luta solitária por sublimar-se.

A literatura de Ondjaki nos chega como uma palavra próxima, que, embora retrate de modo fiel a realidade em Angola, guarda semelhanças com o Brasil que causam identificação imediata à leitura.

Uma das belas cenas do livro traz os personagens reunidos no abençoado primeiro andar, repousando os pés nas águas frescas e relaxantes e conversando baixo sobre os acontecimentos do dia. Os transparentes é uma obra que explora, enfim, em uma rotina que incentiva o apagamento, imagens de uma existência que deseja cor, tom e fluidez de água corrente.

Odonato virou as mãos para si mesmo e falava olhando só para elas

– um homem, para falar dele mesmo, fala das coisas do início… como as infâncias e as brincadeiras, a presença dos tugas e as independências… e depois, coisa de ainda há pouco tempo, veio a falta de emprego, e de tanto procurar e sempre a não encontrar trabalho… um homem para de procurar para ficar em casa a pensar na vida e na família. no alimento da família. para evitar as despesas,  come menos… um homem come menos para dar de comer aos filhos, como se fosse um passarinho… e aí me vieram as dores no estômago… e as dores de dentro, de uma pessoa ver que na crueldade dos dias, se não tem dinheiro, não tem como comer ou levar um filho ao hospital… e os dedos começam a ficar transparentes… e as veias, e as mãos, os pés, os joelhos… mas a fome foi passando:  foi assim que comecei a aceitar as minhas transparências… deixei de ter fome e me sinto cada vez mais leve… estes são os meus dias…

e voltou a olhar cada um nos olhos, incluindo o Cego

– este é o corpo que eu agora tenho – levantou-se para voltar ao seu lugar

fez-se sentir o silêncio