Os vazios sótãos da casa assassinada

A obra “Crônica da Casa Assassinada” encarna o caráter multifacetado e escorregadio de Lúcio Cardoso e nos provoca desconforto.

Lúcio Cardoso: em busca do arcanjo rebelde - Jornal Opção
Lucio Cardoso, divulgação

O contexto da crônica

Crônica da Casa Assassinada, obra-prima do mineiro nascido em Curvelo, contém muitos dos temas e polêmicas inerentes ao ser brasileiro. São eles: família, identidade, religião, decadência, violência, escatologia, culpa, morte, arrependimento.

Guardadas as devidas proporções, Lúcio Cardoso teve, em sua vida pessoal, momentos tão polêmicos quanto. Podemos destacar seu pioneirismo em assumir a homossexualidade e, ainda mais, escrever sobre ela no relato autobiográfico “Diário”, entre 1949 e 1958. Ali estão todos os conflitos que Crônica da Casa Assassinada, que acaba de ser relançado pela Companhia das Letras, leva para o reino da ficção.

Comecemos pela forma. Quem conhece um pouco da obra de escritores católicos franceses como Georges Bernanos (de Diário de Um Pároco de Aldeia, Sob o Sol de Satã), François Mauriac (O deserto do amor) e o próprio Blaise Pascal se sentiria desconfortável nessa “casa” arquitetada por Cardoso. Em outras palavras, não faltam longos debates filosóficos que questionam, a todo momento, os limites de nosso próprio relativismo.

A saga da decadência da família Meneses, outrora uma das mais poderosas das Minas Gerais, é narrada com tintas barrocas, em um mergulho intimista bem particular, considerando a literatura brasileira da época.

Um enfoque intimista

Apesar de ter começado sua carreira no caminho da literatura social, já em Luz do Subsolo, seu terceiro romance, Cardoso passa a investir em um foco narrativo muito interior e transbordante.

Mas, nesta obra-prima, o escritor mineiro consegue o equilíbrio entre as forças psicológicas e sociais, históricas e metafísicas, entre o sentimento de culpa e o de redenção.

A casa é apenas uma, mas cada “capítulo”, por assim dizer, assume o ponto de vista de um novo personagem, seja por meio de um depoimento, de um diário, uma confissão ou carta.

Os personagens

E assim vamos conhecendo os sobreviventes da família Meneses: Valdo, o mais novo, que acaba de se casar com a inocente (ou provocante) Nina; Demétrio, o mais velho, casado com a carola Ana; e Timóteo, que, por seus costumes e opiniões ditas excêntricas, permanece isolado em um quarto afastado do casarão na cidade de Vila Velha.

Talvez pudéssemos classificar este último, hoje, como uma personagem trans, não fosse seu caráter abertamente alegórico e ácido a respeito do próprio conceito de “invertido”. Timóteo está sempre usando os luxuosos vestidos de franjas e lantejoulas de sua falecida mãe. Seus gestos são expansivos, e as descrições barrocas nos oferecem, enfim, um obeso pantagruélico.

Sua aproximação com Nina, que acaba de chegar desiludida ao seio dos Meneses – Valdo esconde que a família sobrevive nas ruínas de um passado de influência –, será o pontapé para o assassinato do clã.

Os raros momentos de humor

A narrativa não deixa de ter algo de lúdico em sua concepção, ainda que o adensamento psicológico seja maçante.

Com capítulos que vão e voltam no tempo, a leitura torna-se uma investigação detetivesca pelos cantos da casa, sempre em penumbra, cuja escuridão vai se aprofundando e refletindo nos monólogos de cada personagem.

Além do núcleo familiar, entrarão ainda vozes como a do farmacêutico e do médico da cidade, da governanta Betty, do padre, do Coronel e do pai de Nina. Estes atuam ora como testemunhas, ora como cúmplices dos protagonistas. Cardoso reserva a essas vozes secundárias os raros momentos de humor absurdo do livro.

A linguagem

Mas, mesmo com essas trocas constantes, pouco muda na linguagem empregada por Cardoso. Isso pode causar algum estranhamento, como se, a certa altura da extensa narrativa, todos tivessem as mesmas referências vocabulares.

Ao mesmo tempo em que isso afasta Crônica da modernidade de O som e a fúria, por exemplo, tampouco cabe a comparação do estilo de ambas as obras modernas. Se faltou modelar uma voz própria que se destaque formalmente, compensa o excelente encadeamento cronológico à trama quase melodramática.

Como em um folhetim, o leitor acompanha ávidas situações como incesto, traição, ameaças, voyeurismo, culpa, vício e decadência. Mas está sempre acompanhado de uma prosa elegante e direta, violenta, porém que demonstra que, além de bom escritor, Lúcio Cardoso é um excelente arquiteto.

Aproveite que o final desta obra não é tão conhecido como o de “Grande Sertão: Veredas” e se permita surpreender da primeira à última linha. Explore, assim, os “vazios sótãos da casa assassinada”, como diria o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, em poema em homenagem ao confrade curvelano.

Referência

CARDOSO, Lúcio. Crônica da Casa Assassinada. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

Henrique Artuni
Jornalista apaixonado por literatura, quadrinhos, videogame e cinema. Co-autor do livro "Sedimento do mundo: uma geografia sentimental de Carlos Drummond de Andrade", vencedor do Prêmio Cásper Líbero 2020 – no prelo.
Henrique Artuni
Jornalista apaixonado por literatura, quadrinhos, videogame e cinema. Co-autor do livro "Sedimento do mundo: uma geografia sentimental de Carlos Drummond de Andrade", vencedor do Prêmio Cásper Líbero 2020 – no prelo.
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