A outra irmã Brontë (menos conhecida)

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Anne Brontë, a menos conhecida da tríade de escritoras da família Brontë, é, mesmo para os estudiosos, uma esfinge

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Desenho de Anne Brontë feito por sua irmã, Charlotte, por volta de 1834

No final dos anos 1840, três irmãs do interior da Inglaterra começavam a colher os frutos de suas penas: escondidas pelos nomes Acton, Ellis e Currer Bell, Anne, Emily e Charlotte, respectivamente, tinham sucesso com a publicação dos romances que as cravariam para sempre na história da literatura. Apenas Charlotte, no entanto, sobreviveria àquela década. Um a um, os herdeiros da família Brontë pereciam—Branwell, o irmão, morreria de tuberculose após um longo histórico de alcoolismo e depressão; Emily, geniosa e intransigente, definharia sem concordar com ajuda médica; e Anne, tomada de tristeza pela morte dos irmãos, guardaria tudo para si, resiliente e reservada, fenecendo com a sutileza de um heléboro em meio à neve.

“Esta rosa não é tão fragrante quanto uma flor de verão, mas resistiu a tantas privações que nenhuma delas poderia suportar: a fria chuva de inverno bastou para alimentá-la e seu débil sol, para aquecê-la; os gélidos ventos não a empalideceram ou quebraram seu talo, e a afiada geada não a murchou”.
The Tenant of Wildfell Hall, Anne Brontë

Talvez as próprias palavras da heroína mais marcante de Anne, Helen Huntingdon, sejam as mais precisas para descrevê-la, quando há tão poucos registros da sua vida cotidiana. Durante a infância, Anne e Emily haviam criado o mundo fictício de Gondal, onde testemunhavam e assinavam sob o nome de personagens inventados. É como uma garota discreta, responsável e quieta, que jamais imputa aos outros as penas dos seus sofrimentos, que Anne é frequentemente descrita por aqueles que a conheceram e estudaram—o que não é de se estranhar, uma vez que Agnes Grey e Helen Huntingdon também o são. Foi sob a alcunha dos mais diversos personagens de Gondal que Anne descreveu seus sentimentos mais profundos, e a partir da experiência poética vivida com Emily, autora d’O Morro dos Ventos Uivantes, que ela desenvolveu aquele que seria o sustentáculo de suas dores mais íntimas: a poesia.

A primeira publicação das Brontë seria um livro de poesias conjunto: Poems by Currer, Ellis and Acton Bell surgiria depois que Charlotte, tendo descoberto as poesias de Emily sobre Gondal, sugerira que as publicassem. As três manteriam o plano de publicar em segredo, consagrando apenas suas iniciais aos pseudônimos. Anne teria muito a esconder, ou revelar, nas poesias que escrevia ao voltar para casa, após a escola, e conhecer o novo pároco que auxiliava o pai, um clérigo simples do interior. Especula-se que ela tenha se apaixonado então por William Weightman, mas a única evidência real seria uma leve insinuação nas cartas de Charlotte. Weightman, no entanto, era muito semelhante ao interesse romântico de sua heroína Agnes Grey, e alguns poemas de Anne parecem sugerir um despertar amoroso:

“There was no trembling in my voice,
No blush upon my cheek,
No lustrous sparkle in my eyes,
Of hope or joy to speak;
But O my spirit burned within,
My heart beat thick and fast.
He came not nighhe went away
And then my joy was past.”

Em tradução livre:

Não havia tremor na minha voz,
Nem rubor sobre as minhas bochechas,
Nem brilho lustroso nos meus olhos,
Ou esperança ou alegria ao falar;
Mas, ó, meu espírito queimava por dentro,
Meu coração batia forte e rápido,
Ele não chegou perto—ele foi embora
E então minha alegria havia passado.”

Muito pode ser especulado através dos versos de Anne, mas seu mistério permanece. A mais reservada das irmãs Brontë seria relegada a um ligeiro esquecimento por causa da decisão de Charlotte, autora de Jane Eyre, de não voltar a publicar o seu livro mais famoso após sua morte. A Moradora de Wildfell House foi um sucesso absoluto na época, escandalizando a sociedade vitoriana e se tornando alvo de censuras. Helen Huntigdon seria uma esposa vitimada pelo comportamento do marido, um hedonista viciado em álcool, farras e desvios, que a traía descaradamente, voltava o filho contra ela e incutia na criança, desde cedo, o vício da bebida. De extrema integridade e com um auto-controle invejável, Helen fugiria para livrar o filho de tal destino, sustentando-se a partir do próprio trabalho. Após as mais terríveis adversidades, encontraria a felicidade nos braços de Gilbert Markham, um fazendeiro de bom coração que dividiria a narração do livro com ela. Para os parâmetros de hoje, o romance é deveras sutil, mas, na época, foi considerado violentamente gráfico. Charlotte compartilhava de tal opinião, impedindo que a obra da irmã fosse tão conhecida, no futuro, quanto o seu próprio trabalho. Apesar da segunda edição do romance, publicada ainda em vida, contar com um prefácio corajoso de Acton, impiedosa até com as especulações sobre o seu sexo, aquele realismo cruel era muito diferente da sua própria impressão sobre a pacata Anne—meiga, quieta, discreta e suave; uma esfinge até para a irmã.

Se a doce Anne, entretanto, resplandecia uma superfície plácida, é óbvio que seu interior guardava uma vívida, intensa e apaixonada mulher. Agnes Grey, seu primeiro romance, conta as experiências de uma moça que, para ajudar a família, vai trabalhar como governanta. Daí em diante, Anne traveste-se de Agnes para relatar os próprios tormentos com aquela que foi a sua fonte de sustento. Soterrada pela responsabilidade e pela benevolência cristã, Anne só deixava escapar o mais verdadeiro de si mesma quando escrevia, transmutada pelo anonimato de sua própria identidade, escondida pelo nome de Agnes, Helen e Acton.

Hoje em dia, A Moradora de Wildfell Hall é considerada uma das primeiras obras feministas, mas, acima de um pensamento progressista, o que movia Anne era, de fato, um senso de responsabilidade e justiça que atravessavam as barreiras da época, do sexo e dos costumes, uma vez que suas crenças cristãs a preenchiam de uma noção espiritual que ultrapassava a vida. Assim como Emily, a literatura de Anne é extremamente espiritualizada; e seus valores mais conservadores não são mais do que bela, soberbamente românticos, no sentido literal da palavra. É para a eternidade que as heroínas de Anne cuidam de sua integridade espiritual, para a mais pura nobreza de sentimentos que cultivam sua reserva e seus sacrifícios; para a alma que reservam seus amores, quando à carne cabem as dores dos outros; para a evolução que mantém-se imaculadas; para o amor verdadeiro que guardam suas vidas. Foi na alma de Anne, também, que se passaram os mais puros romances de sua vida, enquanto que o corpo carregava os labores de uma vida dedicada aos outros. E, mesmo por isso, após aquela primavera de 1849, quando morreu aos 29 anos, a mais nova das irmãs Brontë merecia um lugar ao lado das irmãs na memória dos leitores—merecia, e ainda merece—na eternidade que tanto almejou.