Outras pequenas crônicas do escritor defenestrado

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Quarta

Escrever uma carta sem raiva. Chega de escrever com raiva. Estamos em pleno dia 24. Leminski já tratou disso com críticas cheias de zanga. Torquato não teve tempo de abandonar o ódio. Morreu antes de o amor passar soltando beijinhos.

Recalque e neuroses são quase tão velhos quanto a Heloísa.

Orgias e banheiros sujos já são adúlteros maiores de 30.

O país respira sem aparelhos. Proliferam cassinos eletrônicos. O homem joga no conforto do lar, perde e ganha pequenas fortunas, tudo debitado diretamente de sua conta corrente.

Não interessa mais opiniões rabugentas dos suplementos, que por medo, pararam no tempo.

O que conta uma existência abstênica que parou de respirar a décadas? Substituíram os aparelhos de oxigênio. O novo existir nem sabe mais o que é glicose nos canos depois de uma bebedeira.

Logo, à noite, verei você, guichê de um aeroporto em São Paulo… Fortaleza… Um homem com um corpo esquartejado na bagagem.

Quinta

Depois do inferno que foi a Semana Santa, o Diabo resolveu botar as manguinhas de fora novamente. Em plena praça o bicho me deu um tremendo empurrão com as duas mãos que caí no meio-fio. Resultado: quebrei a clavícula direita.

Trinta e dois anos de idade e me vangloriava em nunca ter sido costurado. Agora, meu amor, vão me submeter a uma cirurgia. Não consigo aceitar uma platina dentro de meu corpo, em minha clavícula.

Sinto-me como o Homem de Seis Milhões de Dólares, o Robocop, o Frankenstein. O certo, o certo meu amor, é que sinto uma parte de mim distante.

Um pedaço de osso que me deixa saudade. Você, só você, meu amor, é quem pode me tornar inteiro de novo.

Para que isso aconteça, façamos assim, por favor, exatamente assim: tirarei a camisa e você com suas mãos de anjo acaricia minha cicatriz. Devagar, acariciando e entoando um mantra, operando o milagre de se tornar a clavícula que tanta falta me faz.

Sexta

Pretendo terminar esta crônica sem recorrer a nenhuma citação em aspas. Pararam para pensar quais os últimos textos jornalísticos que leram em que não havia citações. A intelectualidade parece depender do supracitado jornalesco. O intelectual brasileiro vive da leitura de periódicos do que da leitura propriamente dita. Afinal, profissionalismo é fazer a crítica lendo a orelha do livro ou o encarte do CD. Ninguém tem paciência mesmo! Aliás, paciência virou artigo de antiquário. E como em antiquário é tudo pela hora da morte. Cadê o dinheiro? Foi usado no porre de ontem à noite. O brasileiro precisa mais de porre que de calma – e digo isso acreditando piamente.

Impus o desafio de não usar citações, pensando no livro de Mário Lago: Dezesseis Linhas Cravadas. No livro, Mário só escreveu histórias com dezesseis linhas. Também pensei em não usar expressões em inglês, nada de xenofobia, é só o desafio pelo desafio. Mas sabem aquele jogo, onde você entra sabendo que vai perder, e o destino não surpreende. É o meu caso.

Mário Faustino (aquele que a Global Editora não conseguiu tirar do limbo) disse certa vez que o poeta é um músico competente e um ser humano perigosamente vivo (ao menos me livrei das aspas). Músico eu sei o que é. Mas perigosamente vivo, ignoro completamente. Bob Dylan seria um poeta? Jim Morrison seria um poeta? E o seu clone dos anos noventa Kurt Cobain? Vamos por partes: o maior roqueiro brasileiro de todos os tempos foi um escritor frustrado. Quem conhece minimamente vida e obra de Raul Seixas sabe que ele só enveredou pela música por ter opções demais. Tivesse um pouco menos, seria o escritor que gostaria de ter sido.

Falta de opção, foi exatamente o que consolidou centenas de escrevinhadores neste final de século. Todas as previsões deram erradas. O país não saiu do “em vias de desenvolvimento” (o desafio de não usar aspas naufragou como a previsão), o rock nacional (que prometia tanto) não vingou, o mundo não acabou.

Não acabou, mas só sobreviveram as baratas (e nem foi necessário a bomba nuclear). O mundo inteiro é um deserto proliferado de baratas. Grave problema: gente demais numa proporção inversa, quanto mais pessoas, menos originalidade.

Tolerância? É pedir muito! Atirem a primeira pedra, certamente vai me atingir em cheio. Por falta de opção, meu telhado é vidro puro.