Pablo Neruda, o poeta chileno apaixonado pelo Uruguai

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Pablo Neruda manteve uma relação muito próxima com o Uruguai. Ainda jovem, o poeta teve a influência do poeta uruguaio Carlos Sabat Ercasty. Além disso, um dos seus melhores amigos também era uruguaio, o arquiteto e cineasta Alberto Mántaras. A amizade entre os dois começou em 1952, num barco que saiu de Cannes, na França, rumo a Montevidéu e, posteriormente, à Buenos Aires.  Neruda tinha a intenção de passar uma temporada com Matilde Urrutia, sua amante, no Uruguai, mas viu seus planos frustrados quando soube que uma delegação vinda do Chile esperava saudá-lo no porto. Casado com Delia del Carril, Neruda não podia deixar suspeitas, por isso Matilde seguiu até Buenos Aires. Seu amigo Alberto Mántaras e sua esposa Olga deram amparo ao poeta. Quanto ele se separou de Delia para se casar com Matilde, convidou-os para o casamento em Isla Negra: “Esperamos vocês como testemunhas, irmãos e cúmplices”.

Matilde Urrutia e Pablo Neruda
Matilde Urrutia e Pablo Neruda em Isla Negra

O balneário de Atlántida, no Uruguai, incorporou-se ao universo poético de Neruda na forma dum anagrama. Certa vez, o poeta viajou da Finlândia e da União Soviética até este pequeno balneário para encontrar-se com Matilde. Os versos abaixo foram escritos nesta oportunidade:

Y cuando de regreso
brilló tu boca bajo los pinares
de Datitla y arriba
silbaron, crepitaron y cantaron/
extravagantes
pájaros
bajo la luna de Montevideo, entonces
a tu amor he regresado
a la alegría de tus anchos ojos;
bajé, toqué la tierra amándote y amando
mi viaje venturoso.

Além destes versos, Neruda dedicou às paisagens uruguaias poesias que mencionam o balneário Punta del Este, Montevidéu e ate o poente ondulante da Barra de Maldonado (“entre agua y aire brilla el puente curvo/ entre verde y azul las curvaturas”).

Pablo Neruda e Alberto Mántaras na Livraria Linardi Y Risso, em Montevidéu, Uruguai
Pablo Neruda e Alberto Mántaras na Livraria Linardi Y Risso, em Montevidéu, Uruguai

No Museu Paseo Neruda, em Atlántida, no Uruguai, conservam-se três curtas-metragens em que Pablo Neruda participa como ator, dirigidos por seu amigo uruguaio, Alberto Mántaras. Há uma anedota que envolve esses dois amigos e que parece saída dum romance. Neruda, cuja afeição pela boa comida e bebida é sempre ressaltada, introduziu em Montevidéu um coquetel inventado por ele, chamado Nikolasa, ao qual atribuía propriedades revigorantes. Para prepará-lo, usava-se conhaque, espessas fatias de limão e um recipiente com açúcar. Neruda recomendava que se espremesse as fatias de limão, esfregasse depois no açúcar e depois de dar um gole no conhaque, levasse-a a boca. O coquetel foi provado por um narrador amigo de Neruda, Alfredo Gravina, durante uma reunião. Os convidados não esqueceram a cena. Logo após engolir a mistura, o homem começou a correr em todas as direções, gesticulando impulsivamente Conta-se que, incontido, Alfredo acabou trepando numa árvore que havia nas imediações.

Quem for à Atlántida, pode conferir o museu já citado, numa mansão de três pisos, situada perto do mar, onde, segundo dizem, pode-se ver espetaculares pores do sol.