Pai contra mãe, Machado de Assis num conto grotesco sobre a escravidão

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Não só de ironia vive a obra machadiana. Em Pai contra mãe, temos um Machado de Assis que discute problemas sociais, apresentando a escravidão no Brasil

“A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos”, desta forma, Machado de Assis inicia o conto Pai contra mãe, publicado em 1905, já pós a abolição da escravatura. Interessante investigar a mecânica literária do conto, sua crítica social e os sentimentos dos personagens, ainda que sem revelar o final da história, guardando-o para que o leitor possa ter interesse em ler o conto.

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Logo na introdução, Machado parece ter um senso de atemporalidade, pois dedica mais de uma página a explicar o que foi a escravidão, como se dirigisse uma missiva ao leitor contemporâneo. Por exemplo, o autor fala da “máscara de folha-de- flandres” que “fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca”; o “ferro ao pescoço”, “aplicado aos escravos fujões”; descrevendo em detalhes como funcionava cada um destes instrumentos de tortura. Outra coisa que Machado destaca é a fuga dos escravos, algo que acontecia em grande número. Por esta razão, os donos colocavam anúncios em folhas públicas, com o intuito de que fossem recapturados. E assim surgiam os “caçadores de escravos”. O autor salienta:

Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.

Então lança o protagonista do conto, Cândido Neves, e logo diz: “Tinha um defeito grave esse homem, não aguentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo”. Cândido tenta inúmeros empregos, mas nenhum lhe apraz, nem mesmo o de seu primo, que era entalhador, com quem morava. No entanto, como não poderia ser diferente numa história machadiana, surge uma paixão: Clara.

O encontro deu-se em um baile; tal foi — para lembrar o primeiro ofício do namorado, — tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos.

Após o casamento, Cândido vai morar com Clara, que vivia junto à tia, por quem foi criada. Ambos desejam, logo no começo, ter um filho. Ao que, a tia, alarmada com a situação de Cândido Neves, num emprego que em um dia dava um bom lucro, noutro não dava nada, contestava veementemente.

Para Cândido, este era o emprego ideal, o de caçador de escravos: “Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda”. O narrador ainda acrescenta que: “Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão”.

O filho veio, e com ele, o aperto, naturalmente.

Nesta parte do conto, a tia parece brutal, aconselha Cândido e Clara a entregarem o menino à Roda dos enjeitados. Além disso, surge mais um agravante, o dono da casa onde moram aparece e afirma que se não pagarem o aluguel, em cinco dias, serão postos para fora.

Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio. Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Cândido Neves, no desespero da crise começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma.

Mesmo assim, diante das circunstâncias, a tia finalmente os convence a dar o menino. Não há o que fazer. Mas Cândido Neves se lembra do anúncio de uma mulata por quem pagariam cem mil réis, caso fosse recapturada. É sua última cartada, que Machado conduz muito bem como desfecho do conto, arrematando com uma frase memorável, cuja citação aqui, desfaria o prazer de se debruçar sobre a história.

Um conto sobre o trabalho

Parte do grotesco desta obra, publicada três anos antes da morte de Machado de Assis, está na sua discussão sobre o trabalho.

O fim da escravidão foi sim algo louvável, mas foi também um forte golpe de abandono para os negros e para os pobres em geral. A miséria e a pobreza persistiram. Roberto Schwarz diz que “se grande parte do trabalho era exercido pelos escravos, restava aos homens livres trabalhos mal remunerados e instáveis.”

Para Machado, somente através do trabalho as diferenças nascidas na escravidão seriam excluídas. O próprio Cândido Neves é um exemplo de alguém que não quer trabalhar, buscando amparo no dinheiro fácil que a captura de escravos lhe oferecia, mesmo que “a sangue”, como diz certo trecho do conto.

Pai contra mãe apresenta um lado de Machado de Assis pouco conhecido, um escritor mais sério, sentenças firmes e sem ironias ou, pelo menos, em menor dose.

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Para quem se interessou pelo conto, ele está em domínio público, disponível para leitura online.

Referências:

ASSIS, Machado de. “Pai contra mãe”. In: ______ Relíquias de Casa Velha. Rio de Janeiro: Ed. Garnier, 1990, pp. 17-27

Schwarz, Roberto. “Duas notas sobre Machado de Assis”. In: ______. Que horas são? Ensaios. 3ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 165-78.

VENÂNCIO, Renato Pinto (org.). Panfletos abolicionistas. O 13 de maio em versos. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de cultura de Minas, Arquivo Público Mineiro, 2007