Palavras de mãe – Entrevista com Paula Corrêa

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O sofrimento às vezes possui duas faces. Uma oculta, e a outra exposta. É como um iceberg cravado no peito. Com a parte maior imersa no seu interior, machucando, ferindo o íntimo. E a parte menor, exposta, apresentando-se a todos. E este tipo de sofrimento pode ser o mais dolorido já que, tendo exposto apenas o seu lado menor, faz com que as pessoas ignorem a sua totalidade, deixando a quem sofre num estado de solidão e incompreensão. Um exemplo vivo deste tipo de sofrimento e também de sua superação é o livro Tudo o que mãe diz é sagrado, da escritora paulista Paula Corrêa.

O livro conta a história de Paula, que há alguns anos doou parte do fígado à mãe que acabou morrendo em seguida.Não se trata, porém, de uma história perturbadora e densa. O livro é apenas a parte menor do sofrimento da autora. A parte exposta do iceberg.

A sua estrutura (narrativa não linear) e algumas metáforas usadas não permitem que o leitor enxergue exatamente o que se passa no interior de Paula, que teve uma parte do corpo e também da vida (a mãe) levadas pela morte. O que faz com que às vezes venhamos a questionar o sofrimento da personagem, e também autora. Entretanto, com o andar da história você percebe que há algo errado. Que há algo triste pulsando no seu interior.

Apesar do luto ser um tema recorrente, em  momento algum a autora se deixou levar por clichês. As palavras e as frases usadas parecem ter sido escolhidas a dedo. Selecionadas com afeto, apesar de representarem esse algo tão cruel e impiedoso que é a morte. E este é o ponto forte do livro: a dor sendo tecida amavelmente.

Esta característica faz do livro uma resposta bela à morte. Paula nos mostra que a morte não pode nos tirar tudo, pois não foi capaz de levar o amor de sua mãe. A autora diz que:

Ela (minha mãe) costurava. Não é bem uma costura o nome. É uma espécie de tapeçaria. Eu tenho uma almofada na minha casa que ela fez e é linda, toda colorida. Daqueles objetos que se percebe que foram feitos com amor. Porque amor existe impresso (e expresso) no mundo, apesar do meu ceticismo.

E foi o que ela fez. Escolheu as palavras e as imprimiu com esta mesma espécie de amor que a mãe usava ao costurar as almofadas coloridas. Este amor está presente no livro. Imortalizado através da palavra escrita.

A obra também expõe uma São Paulo caótica. Com seu ciclo interminável de construções e demolições. Numa passagem, é dito que: “Dispensaria a paixão. É na perenidade que transito.” E é assim que a narrativa segue, perene, doce e robusta. Os momentos finais são comoventes. O luto começa a se desfazer e, recomeçar com Paula é profundamente encantador.

A escritora conversou com o Homo Literatus e falou sobre o seu processo de criação, as suas referências literárias, e afirmou que defender a cidade de São Paulo é uma maneira de pensar fora do comum.

Homo Literatus – Quando você começou a escrever Tudo o que mãe diz é sagrado?

Paula Corrêa – Criei um blog (www.calotas.blogspot.com) logo após a morte da minha mãe. De lá, uni alguns textos, convidei uma artista plástica, a Amanda Justiniano, e fizemos um livro de poesias artesanal, costurado à mão, chamado As calotas não me protegem do sol, lançado em 2010. A Eliane Brum, que acompanhou o processo desse livro, gostou muito do resultado e o levou à LeYa. Depois, a editora me pediu para reescrevê-lo em prosa. E assim nasceu Tudo o que mãe diz é sagrado, que escrevi ao longo de 2011.

Homo Literatus – Quais são as suas referências literárias?

PC – Eu gosto muito dos escritores jornalistas. Passei um período lendo muito o Truman Capote e o Tom Wolfe. Tem um livro do Capote, o primeiro que escreveu, chamado Travessia de Verão, que teve forte impacto sobre mim. Mas não tenho uma formação literária clássica. Li muito Manoel de Barros e Clarice Lispector na adolescência. Eu fazia um caderno com as listas de livros que lia. Lembro até hoje da sensação de ter entendido os sonetos de Camões quando estava na escola. A figura de Graciliano Ramos é muito forte para mim. Não somente sua literatura, mas o que o rodeia, o sertão, a cidade onde morou é a mesma de minha família, Palmeira dos Índios. Eu gostaria de escrever sobre o sertão. Mas uma curiosidade é que, enquanto estou escrevendo, não consigo ler muito.

Homo Literatus – Logo no início do livro você afirma que quando acordou no hospital depois do transplante, a primeira coisa que pediu aos seus amigos foi um analgésico. Você acha que o livro (e a escrita) foi uma espécie de analgésico para a dor que você estava sentindo?

PC – Sim. Houve momentos em que sentia que iria morrer se não escrevesse. Escrever era como enviar uma mensagem numa garrafa para alguém resgatar no oceano. Mas esse oceano não existia e o resgate não vinha. Então aprendi a viver só e contar apenas comigo para passar as piores dores. Apesar de ter uma família e amigos maravilhosos, devo frisar isso. E o Astor. Mas tem uma dor que não tem analgésico.

Homo Literatus – Há varias passagens no livro em que você destaca o lado cruel da capital paulista: o lixo, as demolições, as construções, as enchentes, o trânsito, etc. E todo este caos se intercala na narrativa com o que você estava sentindo interiormente. Eu queria saber agora, depois de todo o processo já concluído, como você se relaciona com a cidade de São Paulo? E como ela influencia a sua obra e seus textos?

tudo-o-que-mae-diz-e-sagradoPC – Eu tenho uma relação bastante conturbada com a cidade. Já quis muito ir embora. Ultimamente, quero dizer exatamente, nos últimos dias, tenho achado São Paulo incrível. É uma cidade que pulsa em tudo, para o bem e para o mal. Tenho pensado também que defender a cidade é ir contra e tentar pensar um pouco diferente do comum. O comum, e eu faço parte, é reclamar de tudo: dos preços, dos serviços, do aluguel, do trânsito, das pessoas. Toda vez que viajo, volto querendo ir embora e morar naquela cidade que visitei. Mas, no final, São Paulo sempre me captura de volta e não me deixa sair. Seja porque aqui trabalho muito e adoro isso, ou porque tenho todas as possibilidades à vista, ou porque cruzo com meus amigos na rua. Mas, em geral, devo fazer um esforço para não achar tudo chato (risos). Eu trabalho em casa, então gosto quando preciso sair e andar de ônibus e de metrô. Tanto que tenho escrito crônicas de personagens que encontro ao acaso na cidade. Inclusive, acabo de estrear uma coluna de crônicas no Escritablog, de Wladyr Nader (www.escritablog.blogspot.com.br).

Tudo o que mãe diz é sagrado
Paula Corrêa
Editora LeYa