Palavras contam, mas não explicam – Paisagem de Porcelana e seu labirinto verbal

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“Aos 25 anos, eu era jovem para me exigir explicações” (p.10)

17c47d13-4d87-4969-9818-906dfd8d45fatesteira_claudia_ninaDifícil classificar. Um encontro entre desabafo e explicação, talvez uma justificativa para si, um fingido alívio breve como um suspiro. É o bastante para o próximo passo, no início da confecção de Paisagens de Porcelana, romance de Cláudia Nina. Mas o termo romance é como as confissões de Helena, protagonista da obra: verbalizam, sem necessariamente oferecer um passo além de uma mera decodificação verbal.

Ela nos conta que em um país sem montanhas as quedas são metafísicas. Não gostava muito do Brasil, seus vínculos nesta terra eram frágeis, a Holanda seria um bom destino, ela pensou, sim, aquele frescor de novas experiências, o passado ( ele existe?) que fique para trás, a viagem parecia uma ótima ideia.

Só um pequeno detalhe foi ignorado: as distâncias. As físicas não diziam muito, um punhado de trocados resolvem; mas essas pessoas holandesas! Quanto estranhamento, uma frieza colossal… certo, Helena confessa não saber muito do idioma local, umas palavrinhas bestas arranham sua garganta e ainda saem à força, mas seus esforços resultam vãos.

Antes de falar de sua colega de quarto, a protagonista dá voltas em torno de um nome. Não o próprio, cuja aparição demora praticamente meio livro para aparecer e some em um parágrafo, mas o de um alguém presente: Ernest. Áspero, quase nenhuma demonstração de afeto, uma mão junto à dela teria bastado, mas o namoro (ou coisa parecida) prossegue.

“Alguém tinha levantado, enfim, a minha capa transparente – aquela que os estrangeiros ganham quando chegam à Holanda ; o suvenir ao contrário que traz a frase inscrita na parte de trás: em vez de welcome lê-se ‘Serás invisível”

Ernest levantou a capa e me viu inteira – por dentro e por fora. Pude existir para ele e diante dele. Um grande alívio foi saber que a transparência é uma qualidade relativa. A partir de então, não seria mais invisível, ao menos aos olhos de uma pessoa. Para o resto do mundo ali reunido, eu continuaria a não existir, mas isso era apenas um detalhe. Ser olhada por alguém era uma conquista. Aceitei a conquista, o café, o depois do café e o beijo que veio com a súbita e romântica afirmativa:

“Vou te matar.

I will kill you – repetiram as sobrancelhas.” (p.62)

Um levantar ou abaixar de sobrancelhas e Ernest argumentava o suficiente, ou abreviava o assunto nas tentativas de diálogo dela. Para ele talvez nem devesse ter conversa – quando ela estava prestes a abraçar a pobreza, ele conseguiu uma vaguinha para ela no cafofo onde mora, um cubículo nos interiores do restaurante da família; o que implicava se sujeitar às ‘regras’  dele, de refeições desordenadas feitas com restos de ontem, a ser assistida durante a cópula por contratadas de Ernest. A protagonista passa a existir para e de seu companheiro, nem sempre atenta à drenagem de sanidade feita pelas ordens e silêncios bruscos do cotidiano.

Foto : Walter Bach

Ela se lembra de nos contar de um casal que conheceu semanas atrás, talvez um contato com eles ajudasse, ou colorisse o apagado de horas preenchidas com angústias. Mas supondo que o tal encontro com os … conhecidos (caramba, como eles são mesmo? Faz tanto tempo…) dê certo, e daí? Será dito uma saudação qualquer, um sinal de afeto? E além de reencontros, do pior se falará?

Não há resposta exata. Claudia Nina nos apresenta um romance onde cada frase leva a novas dúvidas, em uma combinação de fluxo de consciência, confissão e retrospectiva da protagonista Helena, cuja ótica contada em primeira pessoa domina a narrativa. A linguagem primorosa é uma das grandes peças deste labirinto, uma fluidez verbal espontânea que nos leva a um novo canto deste labirinto de desconstruções. Pode existir uma palavra diferente soterrada pelas camadas desta Paisagem, e a cor desta Porcelana pode se revelar menos suja do que aparenta. Mas a pergunta de Helena persiste – do pior se falará?

Troquemos uma palavra dessa questão : do que se falará? Quem responde isso a este belo e forte romance é você, leitor(a). Afinal, as palavras contam, mas nem sempre entregam – cabe a você desbravar esta Paisagem de Porcelana.

Paisagem de Porcelana, Claudia Nina. 160p, Editora Rocco, 2014,