Para ler Drummond a vida inteira (ou por que ler a Nova Reunião de Poesia do poeta)

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Alguns bons motivos para ler a Nova Reunião de poesia de Drummond

Há muitos poetas bons no século XX, alguns realmente bons e um grupo seleto de cinco ou seis que são a base da poesia do século passado. Para nossa sorte, entre eles, está o mineiro Carlos Drummond de Andrade.

Seria impossível – até inútil – tentar uma definição da abrangente obra de Drummond. Sua poesia é forte, complexa, sem deixar de ser acessível ao leitor comum. Podemos encontrar poemas sobre todos os temas possíveis, temáticas dos poetas clássicos até angústias contemporâneas. Ele versou sobre a existência, refletindo o sentido da vida e pondo a cada novo livro uma nova questão acerca da grande questão. Em todos os livros, de Alguma Poesia a Farewell, toca nesse ponto caro à Poesia. Solidão, angústia e a existência são postos em xeque inúmeras vezes. Em A bruxa, o poeta diz:

Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.

Em José, Drummond sintetiza a questão primordial em várias perguntas ao suposto interlocutor – o José com esse nome ao mesmo tempo brasileiro e universal.

Drummond também tratou do passado – pessoal e nacional. Ao investigar sua infância em Itabira, o poeta também mostrou a decadência e o desaparecimento de um mundo que o criou – mas pareceu. O mundo das fazendas e dos coronéis, o mundo no qual o poder era exercido através da força e da tradição, desaparece. Em Retrato de família, vemos a memória pessoal e coletiva perecendo juntas:

Este retrato de família
Está um tanto empoeirado.
Já não se vê no rosto do pai
Quanto dinheiro ele ganhou.

Nas mãos dos tios não se percebem
As viagens que ambos fizeram.
A avó ficou lisa e amarela,
Sem memórias da monarquia.

Drummond percorreu, assim como muitos escritores da sua geração, um caminho político dentro da sua obra. Em A rosa do povo, um dos seus livros mais famosos, há uma gostosa mistura do eu-lírico e questionador do poeta junto a um engajamento de esquerda. Em meio e término da Segunda Guerra Mundial, Drummond questiona os problemas sócio-históricos do país e do mundo. Sua angústia se transforma em engajamento. Poemas como A morte do leitero e O medo são alguns dos exemplos mais conhecidos.

(poderíamos ficar horas e horas falando sobre a poesia de Drummond, suas facetas, sua genialidade e seu valor; não é isso, porém, o nosso objetivo)

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Companhia das Letras, 2015.

Assim, é por este e outros motivos que A nova reunião, livro recentemente lançado pela Companhia das Letras, se faz tão importante.  Com dez obras integrais (Alguma poesia, Brejos das Almas, Sentimento do Mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas, Claro enigma, Fazendeiro do ar, A vida passada a limpo, Lição das coisas, A falta que ama, as impurezas do branco, a paixão medida, Boitempo I, II e III) e uma seleção das restantes obras (Viola de bolso, Versiprosa, Discurso de primavera e algumas sombras, Corpo, Amar se aprende amando, O amor natural, Farewell), o livro dá um bom (ótimo) panorama do que foi o maior poeta brasileiro do século passado – e quiçá de toda poesia nacional. Suas 928 páginas – isso mesmo, um calhamaço – são um convite para adentrarmos numa obra complexa e rica, também sendo bela e acessível a todos os leitores. 928 que todo amante de poesia não lerá apenas uma vez. Se você quer um livro de cabeceira pelo resto da vida, essa Nova Reunião da poesia de Drummond merece a sua atenção. Como o poeta ensina, o tempo traz mudanças e a complexidade das coisas. Então, nada melhor do que ter acesso à obra mais amada pelos poetas, compositores e leitores do gênero do Brasil.

Pense que por um preço generoso – enquanto escrevo, confiro o preço no site da editora e encontro o valor de 69,90 para o livro físico, 39,90 (!) para o digital – você pode ler a complexidade de sonetos como Áporo, de poemas-narrativas como O caso do vestido, a sensualidade de A bunda, que engraçada – sim, Drummond fez um ótimo poema sobre os quartos traseiros sem ser vulgar ou vazio.

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Um livro como este, com a obra que, segundo Otto Maria Carpeaux, é a “expressão duma alma muito pessoal”, põe-se como um daqueles livros ao qual recorremos durante o passar dos anos. Lê-lo – e relê-lo – é um dever dos que amam a boa (ótima!) poesia de Carlos Drummond de Andrade.

***

P.S.: Diga-me qual outro livro – além de Alguma poesia – começa com um poema tão belo, forte e conhecido como Poema de sete faces?

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.