Para onde vai a Borra do Café? Do romance de Mario Benedetti

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“Para onde vão as névoas, a borra do café, os calendários de outro tempo?”  

Julio Cortázar

Sou leitora constante dos poemas de Benedetti; quando vejo, estou revisitando um ou outro livro do autor, contemplando seus versos, identificando-me com a leveza e a força de seus escritos. Esse uruguaio, de Paso de Los Toros, é escritor plural: publicou poemas, novelas, contos, romances e ensaios.

Iniciou sua jornada literária com a publicação de La víspera indelebe, em 1945. Atuou como jornalista no semanário uruguaio Marcha, que foi fechado, posteriormente, em 1974, pela ditadura uruguaia. Seu primeiro livro de contos, Esta mañana, foi lançado em 1949 e, um ano após, saía sua edição poética: Sólo mientras tanto. Mario Benedetti, porém, só ganhou o merecido reconhecimento em 1960 com a novela La Trégua, que foi traduzida para diversos idiomas. Com uma vida conturbada, por razões políticas, o autor morou em vários países: Espanha, Cuba, Peru, Argentina e faleceu em 2009 em seu país de origem.

Por ser “múltiplo”, torna-se difícil escolher uma obra do escritor para comentar. Inicialmente, pensei em algum livro de poemas e foi em uma dessas leituras que me deparei com Piedritas em La Ventana :

De vez em quando a alegria
Atira pedrinhas em minha janela
Quer avisar-me que está lá esperando
Mas hoje me sinto calmo
Quase diria equânime
Vou guardar a angústia em seu esconderijo
E logo estender-me de cara ao teto
Que é uma posição galharda e cômoda
Para filtrar notícias e acreditar nelas

Quem sabe onde ficam minhas próximas pegadas
Nem quando minha história vai ser computada
Quem sabe que conselhos vou inventar ainda
E que atalho acharei para não segui-los

Está certo não brincarei de despejo
Não tatuarei a recordação com esquecimentos
Muito fica por dizer e calar
E também ficam uvas para encher a boca

Está bem me dou por persuadido
Que a alegria não atire mais pedrinhas
Abrirei a janela
Abrirei a janela

Terminada a minha leitura poética, ecoavam dentro de mim os versos: “De vez em quando a alegria”/ “Atira pedrinhas em minha janela“/ “não tatuarei a recordação com esquecimentos”/ “abrirei a janela”. Não nego: as figuras da janela, da recordação e da alegria transportaram-me para o livro “A Borra do Café”, obra ficcional com prováveis acontecimentos autobiográficos.

Romance de 48 pequenos capítulos, A Borra do Café, de 1992, é uma história de recordações. O livro é uma peregrinação às origens, uma característica de Benedetti, uma vez que fez algo  semelhante em “La Trégua” e também em “Quién de nosotros”. Em ensaio crítico, Fernando Aínsa  escreve:

 […]ese tono memorioso puede as veces concentrarse en la reconstrucción tenaz de los episodios más signifcativos de la infancia a fin de proyectarlos hacia el presente, donde adquieren uma eficaz funcionalidad novelesca, o sirven para dar una calidez inesperada el protagonista. (página 07)

Com um texto simples, mas jamais simplista, vamos conhecendo a infância do menino Cláudio, que relata sobre sua relação com os pais, das incontáveis mudanças que eles faziam, de suas primeiras aulas, de sua primeira professora e da atração que sentira pela mesma.

Os fatos mais marcantes de suas memórias, e por sua vez do livro, acontecem na casa da  rua do Capurro, é nela que conhecemos seus companheiros de bairro: o primo Daniel, o primo Fernando e o amigo Norberto. Os quatro meninos, sempre juntos, em jogos de futebol no Clube Lito e em diversas descobertas da infância. Foi assim com o profundo desinteresse dos garotos pelo dirigível Graf Zeppelin, enquanto os adultos, todos de boca aberta, estavam assombrados com a nave.

As crianças tinham outras disposições, uma delas era brincar no parque, lugar onde testemunham uma passagem instigante da narrativa: encontram o cadáver de Dândi, o decano do parque. Esse acontecimento torna-se uma aventura para a turma. Não comentam com ninguém o que viram, a descoberta do corpo de Dândi é o segredo entre os quatro e, também, tema para muitas suposições e debates investigativos.

Mais adiante, em capítulo pungente do romance, deparamo-nos com a doença terminal da mãe de Cláudio e o sofrimento e as responsabilidades que a morte da mesma traz ao menino de doze anos. É nessa fase que o garoto conhece Rita, uma “incógnita” na história, pois fica uma suposta dúvida se realmente ela existiu, ou se foi apenas fruto de sua imaginação. Rita, em sua primeira aparição, escala uma figueira e surge na janela de Cláudio:

Da figueira, uma garotinha desconhecida me contemplava. Perguntei quem era e ela me disse que era Rita, prima de Norberto. Devia ter um ou dois anos a mais do que eu. Lentamente, foi escorregando pelos galhos até chegar à janela e desembarcar no meu quarto. Por entre as lágrimas, pude ver que era bastante bonita, que tinha um olhar doce e que seu reloginho de pulso marcava três de dez. […] Rita teve então um gesto que pôs o ponto final, agora sim, na minha infância: me beijou. Foi na bochecha, ao lado da comissura dos lábios,e ela prolongou um pouquinho aquele contato. Tenho a impressão de que aquilo foi o meu primeiro esboço de felicidade.” (páginas 49-50)

A menina é uma “revelação” atenuante da dor de Cláudio, um consolo para o sofrimento da doença e morte da mãe. Rita permanece na vida do narrador até a idade adulta, os dois amadurecem juntos. A jovem tem aparições esporádicas, mas bastante significativas na trama. Segue na vida do narrador tal qual a previsão que seu colega Perico fez em sua “cafetomancia”: viu no destino do menino “uma mulher e uma árvore”, isto é, Rita e a figueira.

Sem delongas, chegamos aos 21 anos de Cláudio e à sua primeira namorada, Mariana. Os dois encontraram-se no clube Banco Comercial e dançaram a noite inteira. Há nesse trecho uma lindíssima descrição do tango. Lê-se:

 É virtualmente impossível que, depois de vários tangos, dois corpos não comecem a se conhecer. Nessa sabedoria, nesse desenvolvimento do contato, o tango se diferencia de outros passos de dança que mantém os bailarinos afastados entre si ou só lhes permitem toques fugazes que não fazem história. O abraço do tango é, antes de mais nada comunicação, e se eu tivesse que adjetivá-la diria comunicação erótica, um prólogo do corpo-a-corpo que virá depois, ou não, mas que nessa hora surge nos bailarinos como um projeto verossímil. E quanto melhor o casal se entender na dança, quanto melhor se amoldar um corpo ao outro, quanto melhor se corresponderem o osso de um com a tenra carne de outra,mais evidente se fará a condição erótica de um bailado… (página 116)

a-borra-do-cafe-mario-benedettiDepois de lermos esse trecho sobre o tango, torna-se inevitável não o relacionarmos com os sentimentos de Cláudio em relação às duas mulheres de sua vida. Mariana é a “comunicação erótica”, a concretude amorosa, é o “tango”; já, Rita é a moça fugaz, a dança que mantém os corpos afastados. Na última aparição de Rita na vida de Cláudio e, também, no livro, há:

 Ainda restava uma dúvida: em que instante começara a sonhar? E também uma certeza: dali em diante, ninguém iria encontrar vestígios de Rita na borra do café.” (página- 189)

Com Cláudio, no final do livro, eliminamos as dúvidas e ficamos com as certezas; superamos as dores e as perdas. Não queremos mais pedrinhas na janela; deixamos, em definitivo, a alegria entrar.

A borra do café
Mario Benedetti
Alfaguara

 

 

 

 



Silvia Andrade
É Professora, revisora, cronópia, blogueira bissexta. Graduada em Letras, pós-graduada em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Arrisca uns versos, mas quase sempre os risca: considera a leitura o seu melhor momento poético.
Silvia Andrade
É Professora, revisora, cronópia, blogueira bissexta. Graduada em Letras, pós-graduada em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Arrisca uns versos, mas quase sempre os risca: considera a leitura o seu melhor momento poético.
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