Paulo Bocca: De contador de histórias a criador de sonhos

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Paulo Bocca
O escritor Paulo Bocca.

Em 2013, estive em alguns lançamentos de livros, além da Feira do Livro de Porto Alegre, e nessas andanças tive contato com o escritor e contador de histórias, Paulo Bocca – autor dos livros Os amigos de Elvira, Marcos e o monstro e O construtor de nuvens (infantis), Serenata serena (poemas) e Almas esquivas (contos). Obviamente que além de desfrutar de sua companhia e bom humor não pude deixar de estreitar “os laços da pesquisa e interrogatório” tão normal a quem deseja descobrir e aprender mais sobre Literatura e por que não aprender um pouco mais com a experiência dessa pessoa tão gentil e inteligente como Bocca?

Em nossa conversa, que se estendeu para o mundo virtual (Paulo é super ocupado e vive, praticamente, no mundo, ou melhor, na estrada), ao ser questionado sobre si mesmo comentou: “Eu sou um sujeito inquieto com tudo o que diz respeito à literatura. Sempre estou acompanhado e cercado de livros. Tenho interesse em várias áreas do conhecimento desde criança, quando eu pegava as revistas e jornais que o pai trazia para casa. Também sou emotivo e isso até pode ser um defeito, pois muitas vezes me atrapalha. Tenho as minhas opiniões e não me omito nas questões mais importantes sobre o cenário político e social do país”.

Obviamente, não podia perder a oportunidade e questioná-lo sobre a literatura, ao qual ele respondeu: “Inicialmente, Literatura é uma obra de arte apresentada sob a forma escrita. Ela nos permite vermos coisas sob o lado artístico, afinal, ela é uma obra de arte. Dessa forma, deve ser vista e interpretada de acordo com as possibilidades de cada pessoa, de acordo com as suas vivências”.

E puxando o “assado” para o meu lado, indaguei a Paulo sobre a “literatura Infantojuvenil”, afinal, há divisão ou classificação literária? Paulo afirmou: “Eu creio que há um ‘engessamento’ nos conceitos. Eu, particularmente, não gosto muito dessa forma de separar, ou classificar, ou dividir a Literatura por gêneros ou por faixas de idade.
Vou citar um exemplo meu. Quando eu completei sete anos de idade (1968), e eu já estava no primeiro ano e sabia ler e escrever, ganhei dois livros de presente de aniversário de minha tia: Branca de Neve e outras histórias bonitas e João e Maria e outras histórias bonitas. Desses dois, eu tenho ainda o primeiro. Eram livros com vários contos dos Irmãos Grimm, com muito texto e com poucas ilustrações em preto e branco. Eu li sozinho os dois livros e ninguém leu para mim. Hoje em dia, as editoras não fazem um livro assim para crianças de sete anos. Os livros são cheios de ilustrações coloridas, que matam muitas vezes a imaginação da criança, e o texto é adaptado “para a fase de crescimento dela”. E muitas vezes é mais importante, tanto para os pais quanto para professores, o tamanho da fonte, e se é maiúscula ou minúscula, para definir o tipo de criança que “deve ler” a história.
Dou aqui um exemplo bastante prático. Há um livro chamado Isso não é filme americano, do Lourenço Cazarré. Ele é divulgado e vendido pela editora como livro infantojuvenil. E por quê? Por que é uma narrativa curta e “acessível”? Mas, o que tem a ver uma coisa com a outra? É um texto para “leitor crítico”? Ora, mas a Literatura não é uma obra de arte e como tal ela não desperta a criticidade do leitor? E se a Literatura, como obra de arte, é aberta as suas interpretações, que depende de pessoa para pessoa, deveria receber um rótulo desse tipo para afastar o público adulto? Essa história que eu citei como exemplo deve ser lido também por adultos, mas ao ter esse rótulo de Literatura infantojuvenil, vai afastá-lo.

Paulo Bocca 2

Bem, como eu e vocês puderam perceber, Bocca é firme em suas convicções e pensamentos e como eu não queria perder o ritmo da prosa, ou entrevista, resolvi seguir em frente em busca de respostas e, continuei com minha investigação lançando o seguinte questionamento: O que a criança e o jovem gostam de ler? Paulo não teve dúvida ao responder-me: “A criança ou o jovem gostam de ler aquilo que lhes interessa! Aquilo que desperta a sua atenção! Aquilo que aguça o seu interesse! A criança ou o jovem gostam de ler aquilo que desperta o desejo de cada um de ficar com o livro entre suas mãos. A criança ou o jovem gostam de ler aquilo que os fazem ler várias vezes o mesmo livro. A criança ou o jovem gostam de ler aquilo que os fazem pensar no livro. E se for um livro, então esse é livro mais importante para a criança ou o jovem”.

Indaguei a Paulo  sobre os escritores infantojuvenis que ele admira e ele respondeu: “Na verdade, eu não tenho escritores preferidos. Eu tenho as histórias de minha preferência. São aquelas que me tocaram a alma. São histórias que, certamente, são próprias ao adulto, mesmo recebendo esse rótulo de Literatura infantil ou infantojuvenil. Cito aqui, como um rápido exemplo, O pintinho que nasceu quadrado (Regina Chamlian), Fica comigo (Georgina Martins) e O homem que amava caixas (Stephen Michael King). São obras que eu mesmo já contei para crianças e adultos e sempre o resultado foi maravilhoso. Os adultos se viram dentro de cada história”.

E os clássicos, a criança deve lê-los? E por quê?
“Com toda certeza, a criança deve ler os clássicos” – começou Paulo Bocca. – “Os clássicos são de origem popular. São eles a expressão das dores, dos conflitos, das explicações e ansiedades do ser humano. Os contos clássicos formam o painel da trajetória humana sob uma forma artística. Mesmo que tenham recebido um tratamento culto, literariamente falando, eles são o que de melhor representa a existência humana. Os contos clássicos tiveram como característica o anonimato e a circularidade desde tempos muito antigos. A partir de cada contador de histórias, a narrativa foi se transformando, se adequando de acordo com o lugar e a cultura local, até chegar na sua forma literária definitiva.
Na minha opinião, é leitura obrigatória e deve ser lida e apresentada às crianças desde muito cedo, principalmente nos lares. A maioria desses contos, nos seus primórdios, circulou entre os lares e por isso é de conhecimento geral e amplo”.

Almas esquivas
Livro de contos do escritor

Resolvi mudar de assunto, mas não fui tão longe do tema e perguntei a Paulo “O que é ser escritor?”.
“Ser escritor é uma forma de viajar e convidar outras pessoas a irem junto para conhecer lugares interessantes, pessoas interessantes (que são as personagens) e, ao final da viagem, fazer com que essas pessoas, que são os leitores, contem a história para outras pessoas.
Ser escritor é deixar que cada leitor ocupe a “poltrona” de sua escolha, ou seja, se cada história é uma viagem, que cada leitor ocupe a poltrona que quer e a partir dela sinta-se à vontade e confortável para fazer a sua viagem pelos caminhos que o escritor vai apresentando”.

E, para terminar, pedi a Paulo Bocca para fazer um breve relato de sua obra e seu ofício de escritor e contador de histórias.
“Eu procuro escrever aquilo que eu sinto necessidade. Não busco escrever para mostrar uma capacidade de domínio da língua, ou mostrar que eu sou criativo e inspirado. Para lançar esses livros, eu me perguntei se o mundo precisava deles. Na minha opinião, de nada adianta uma obra apenas por existir. Ela precisa estar revestida de uma amplitude de significados e representar aspectos importantes da existência humana.
Eu me sinto bastante orgulhoso e feliz por ter formado várias turmas de contadores de histórias nas oficinas que eu dou desde 2008, na Casa de Cultura. Muitos estão atuando como contadores de histórias e tem até mesmo aqueles que se tornaram escritores. Muitos que ali chegaram, foi para aprender algo para trabalharem como voluntários em hospitais e asilos, ou para terem mais desenvoltura nas escolas em que trabalham como professores ou bibliotecários. Nem todos são professores, mas das mais diversas profissões: engenheiros, médicos, enfermeiros, advogados entre outros. O que mais me chamou a atenção foi um contabilista que queria aprender a contar histórias para as suas filhas.
Para mim, ser um contador de histórias, mais do que uma atividade, é uma missão. Todas as pessoas vieram ao mundo por algum motivo. Nada é por acaso. Eu sinto que vim para fazer exatamente isso, e cada dia que passa, em cada feira do livro, evento literário, ou apenas em uma apresentação em uma escola, eu percebo que é assim. Muitas pessoas me procuram e falam que eu as ajudei a apreciarem um livro ou a se interessarem a ler. Ou ainda que as ajudarem a reviver alguma coisa do passado delas e que tanto lhes fazia bem. Se é assim, então é uma tarefa importante que eu devo zelar acima de tudo para que eu possa satisfazer as expectativas das pessoas que esperam o melhor de mim”.