Pedra no Céu, de Isaac Asimov

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Por que você deve ler Pedra no Céu, de Isaac Asimov
Portrait of the american biochemist and writer Isaac Asimov. USA, 1970s (Photo by Mondadori Portfolio via Getty Images)
Há duas formas de se ler esse livro, cada qual com um resultado diferente. Uma na qual o foco se volta para as ideias do romance e outra, talvez não tão animadora, que é com a trama em si.
Mas vamos por partes.
Isaac Asimov escreveu Pedra no Céu em 1949 e o publicou no ano seguinte, sendo seu primeiro romance. Nele, muitos dos futuros temas da sua obra – inclusive a base do que viria ser série Fundação – já apareceram. Para quem teve contato com essa parte da obra de Asimov, não deixa de ser interessante ter o contato com os seus primórdios.
A história foca na trajetória de Joseph Schwartz, um alfaiate aposentado do nosso mundo e era que é transportado acidentalmente para milhares de anos no futuro. Lá, ele se depara com a Terra numa situação bem diferente do mundo que conhecemos. Somos um planeta sem importância dentro do Império intergaláctico com uma população estável de apenas vinte milhões de habitantes, com a maior parte do terreno coberto por radioatividade (Um detalhe importante que surge no pósfacio. Asimov admite, trinta anos após a publicação, que a narrativa foi escrita no calor de Hiroshima e das propensas possibilidades de que a Terra de fato poderia se tornar radioativa como em Pedra no Céu.  O que, por mais escatológica que seja, não deixa de ser uma ideia da época). Schwartz tem problemas em entender o mundo em que está, pois, literalmente, eles falam outro idioma e não há nada muito próximo do que ele conhecia. Além disso, ele acaba se envolvendo numa trama de revolucionários terráqueos cujo objetivo é se vingar do Império e tornar a Terra o centro da humanidade outra vez. Ele também se envolve com Arvardan, um antropólogo de um planeta central do Império que vem para cá com o intuito de pesquisar e confirmar sua hipótese de que o nosso planeta é a origem dos seres humanos que se espalharam pelo universo.
Bastante, não?
Bem, como eu disse, dá para ver o romance de duas formas.

9788576573210
Pedra no Céu, Aleph 2016

Pelo lado das ideias, Pedra no Céu lida com muitos temas pertinentes do seu período – primeiros anos após a Segunda Guerra Mundial -, tais como a questão da radioatividade. Por outro, ele trabalha com ideias interessantíssimas que percorrerão boa parte das suas obras: a ideia de um grande poder centralizado interplanetário, o poder e a valia da tecnologia, o uso dessa tecnologia, a centralização do poder em grupos hostis, mesmo ignorantes. Mesmo não tendo a profundidade e o charme de obras posteriores, Asimov consegue nos apresentar um arquétipo do que ele desenvolverá pelas próximas décadas.
Já pelo lado da história em si, Pedra no Céu deixa um tanto a desejar. Entendo que este foi o primeiro romance do Asimov. Isso talvez explique porque a trama se torna tão prolongada de forma tão desnecessária – o romance inteiro tem trezentas e dez páginas que poderiam ser resumidas a duzentas facilmente. Os personagens também são um tanto rasos e suas ações, bem como eles, insípidas. O grupo principal de personagens se divide facilmente entre bem e mal e não passam de caricaturas um tanto quanto constrangedoras. Há um certo romantismo kitsch no casal romântico da trama. Por mais que a ideia fosse a mixagem de raças humanas de origens diversas (uma terraquia e um homem de outro planeta), esta parte está mais para dramalhão mexicano do que sci-fi. Por fim, mas não menos importante, a resolução. Há um grande, grandíssimo e quase inacreditável deus ex machina que resolve a prolongada trama. Em menos de duas páginas um problema aparentemente impossível de ser resolvido fora sanado no silêncio por Schwartz. Esse final não convence e deixa o leitor com uma sensação de bobo.
Mesmo assim, vale apena lê-lo, pois é uma forma de se ver que 1) mesmo os bons começam por baixo e 2) desde o início Asimov possuía o germe do que viria ser o centro da sua grande obra, A fundação.
Caso queira uma segunda opinião, mais otimista, deixo abaixo a resenha da Gisele Eberspächer sobre Pedra no Céu.