Pedro Páramo e o silêncio de Juan Rulfo

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Juan Rulfo imprimiu seu nome no cânone universal com apenas dois livros. Depois disso, retirou-se num enigmático silêncio que o acompanharia até a morte, na Cidade do México, em 1986.

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Talvez o caso brasileiro mais próximo seja o de Raduan Nassar. Duas breves narrativas publicadas[1], mudança decisiva do panorama literário e reclusão. Nessas situações, muitas hipóteses podem ser levantadas, em especial nos bastidores, sobre os reais motivos de um emudecimento inexplicável após o êxito. O escritor Enrique Vila-Matas dedicou um livro a esse fenômeno intrigante para o meio artístico, e o apelidou de síndrome de Bartleby – referência ao personagem de Herman Melville que recusa suas atividades com o bordão “prefiro não fazer”.

Em 1955, tendo já estreado com contos esparsos em revistas ou reunidos em Chão em chamas, Rulfo apresenta aos seus poucos leitores a versão definitiva de Pedro Páramo. O reconhecimento desta última como uma das maiores obras no contexto latino-americano do século XX demoraria, mas ocorreu. Desde então, a fortuna crítica acerca do romance só fez crescer, enquanto o autor desaparecia, sem novos títulos, somente com algumas poucas promessas. Ao contrário de Vila-Matas que se serve do dado biográfico para uma decifração engenhosa e humorada do aparentemente insolúvel, tais dados nos valem aqui, sobretudo, como uma imagem poderosa do próprio texto, curiosamente mais nítida quanto mais se avança em seu transcorrer difuso. A imagem de um sujeito que caminha na direção do silêncio.

Esse sujeito é Juan Preciado, narrador que abre a trama com uma promessa à mãe no leito de morte. Promessa de viajar a Comala para encontrar o pai, cuja ausência deveria ser cobrada e cujo nome intitula o livro. A impressão de estarmos diante de um ponto de vista tradicional se desfaz logo na aparição das primeiras memórias de Dolores, que entrecortam o relato, de modo que o filho parece ver o povoado quente e seco, perto da Media Luna, pelas lentes dela. Não bastasse esse recurso ousado, outros narradores em terceira e primeira pessoas irrompem nos sucessivos fragmentos do livro, compondo uma espécie de mosaico. A certa altura, a voz de Juan perde espaço para essas outras vozes ora de mortos ora de vivos, mas muitas vezes de fantasmas de um passado turbulento aprisionados no presente:

Esta cidade está cheia de ecos. Parece que estão trancados no oco das paredes ou debaixo das pedras. Quando você caminha, sente que vão pisando seus passos. Ouve rangidos. Risos. Umas risadas já muito velhas, como cansadas de rir. E vozes desgastadas pelo uso. Você ouve tudo isso. Acho que vai chegar o dia em que esses sons se apagarão. (p. 38)

Para fechar o quadro dessa fantasmagoria, convém dizer que a fala acima é de Damiana Cisneros, uma subordinada a Pedro Páramo, que está morta e enterrada ao lado de Juan. Desse modo, Rulfo opera um deslocamento estético radical. De um lado, a enunciação transfere-se para um túmulo, ou simbolicamente para o não-lugar. De outro, o enunciado ganha corpo e autonomia, quase como se narrasse a si mesmo independentemente. Acresce o fato de Juan Preciados tomar conhecimento de ser ele um dentre os numerosos filhos de Pedro Páramo, senhor das terras e das mulheres. Assim, o narrador passa por um desmonte formal resultante dos cacos de lembranças e murmúrios de um povoado no interior do México, que, em última instância, apontam para um mundo chacoalhado pela revolução, mas, ao mesmo tempo, reflexo de uma ordem patriarcal assentada no latifúndio. Lucas, Pedro e Miguel são as figuras máximas dessa ordem; estupro, assassinato e exploração são suas marcas cruéis.

Silenciado o primeiro narrador num emaranhado nebuloso de outras perspectivas, algo profundo na estrutura do romance tradicional burguês é abalado. O foco narrativo individual perde lugar para a experiência coletiva, mesmo que estilhaçada. Segundo Davi Arrigucci Jr, crítico sensível da literatura latino-americana, o que sucede é um retorno à épica oral. O romance, cabe lembrar, consolida-se como um gênero da palavra escrita e do leitor solitário, enquanto a epopeia tem suas raízes no canto e na exaltação dos destinos de um povo. O primeiro, portanto, dependeu da escrita e do livro, enquanto o segundo filia-se à história oral.

No que diz respeito a Pedro Páramo, entretanto, o autor lança mão de técnicas modernas do romance no trato do arcaico. Espaço rural e oralidade convivem com experimentações de vanguarda. E é por causa de achados como esses que a obra permanece tão singular, irrepetível. Para Arrigucci ainda, Juan Rulfo teve uma intuição fundamental de como tratar formalmente a matéria de que se vale. Com isso, engendrou um mundo único e complexo. A originalidade literária foi tão aguda e a sobriedade da percepção histórica tão severa que o depois só poderia ser silêncio.

 

[1] Excetuando Menina a Caminho por motivos editoriais.