Pelas Frestas da Caverna (ou: sobre Júlio de Queiroz)

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Você conhece Júlio de Queiroz? Ele é definido como “escritor-filósofo, teólogo-escritor, que realiza com as palavras uma missa literária e compõe poemas-oração”

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Júlio de Queiroz | Foto: Revista Donna

Pelas Frestas da Caverna é uma obra organizada por Salma Ferraz, professora na UFSC, crítica literária e escritora. Este livro reúne palestras e discursos do pensador, tradutor e escritor Júlio de Queiroz, materiais estes que se encontravam espalhados tanto em folhas avulsas quanto em jornais e vídeos. A obra é dedicada a literatura e poesia, apresenta textos filosóficos, textos sobre teologia, ética e até textos de cunho feminista; parece ser uma tentativa de entender a literatura e, também, o ser humano.

Mas quem é Júlio de Queiroz? Ele é definido em um ensaio de Celestino Sachet como: “escritor-filósofo, teólogo-escritor, que realiza com as palavras uma missa literária e compõe poemas-oração” (FERRAZ, 2014, p. 15). Salma Ferraz o define como “Um homem incomum, ímpar, de conhecimento Renascentista: poeta, contista, romancista, teólogo, monástico, feminista, beneditino, acadêmico, poliglota, tradutor, literato” (p.15). Um homem interessado nos mais diversos assuntos, das mais diversas áreas: literatura, filosofia, teologia, física, história e por aí vai.

O dono da cadeira de número 10 da Academia Catarinense de Letras, integrante da Academia Sul Brasileira de Letras e da Academia Catarinense de Filosofia, Júlio Queiroz fez colaboração nos jornais locais de Florianópolis, faz parte de inúmeras antologias, teve alguns contos que foram adaptados para o teatro e para a televisão. Publicou uma média de 25 obras, dos mais diversos gêneros, e é reconhecido como um dos melhores contistas atuais do Brasil. Integra Conselhos catarinenses de Cultura e do Livro e fundou o Sindicato Nacional dos Tradutores.

Ao longo de Pelas Frestas da Caverna, é evidentemente perceptível o fato de Júlio de Queiroz ser um literato: o escritor fala da poesia medieval e até mesmo sobre questões de ensino e leitura na atualidade. Como feminista, também fala sobre a afirmação da poética feminina ainda na época medieval; mulheres que escreviam “estória” curta em versos, octassílabos, e/ou poema lírico com rimas parelhadas assimétricas, tendo cada rima uma melodia própria para ser cantada e acompanhada por algum instrumento musical. Além disso, fala com propriedade sobre sonetos como a Quarta Elegia de Rainer Maria Rilke e até mesmo sobre sonetos de William Shakespeare.

O escritor-filósofo-teólogo trata da miséria e da grandeza da poesia, questiona e critica o papel do poeta e a recepção do poema pelo leitor. Salienta que: “O poeta autêntico não desfigura as palavras; não se esconde em torres de marfim. Acima de tudo, não enquadra a sua poética nas fórmulas aprovadas em laboratórios ou cativas de grupinhos autoeleitos” (p.221). E sobre o poema comenta: “O poema que o povo aprovar ficará. O que ficar será guardado e repetido, mesmo que o nome de seu autor caia olvido. O poema, incorporado à cultura, matará a fome comum de beleza que é, ao mesmo tempo, o aguilhão e a plenitude do ser humano” (p. 222).

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“Pelas Frestas da Caverna” (Edifurb, 2014)

Quando o autor fala sobre questões de ensino e leitura, mostra-se alguém preocupado com a transmissão da cidadania, segundo ele: a leitura é a fonte formadora da cidadania. Sobre a arte de ensinar, Queiroz mostra-se também bastante preocupado com a diminuição do prestígio do professor, tanto por parte dos próprios professores quanto pela sociedade em geral. Para falar das dificuldades de ser professor, o escritor faz um panorama geral da sociedade e da nossa herança social coletiva.

O livro organizado por Salma Ferraz demonstra o quanto Júlio de Queiroz é um homem que muito tem a dizer sobre os mais distintos assuntos e com propriedade, sabendo o que diz e o motivo de dizer. Além das questões sobre literatura, os ensaios tratam das religiões e seus deuses, de questões sobre a morte, sobre a língua no Brasil, bem como a expressão verbal e brasilidade, sobre as ferramentas que acadêmicos usam e podem usar. No fim é apresentada a faceta poética de Júlio de Queiroz, fotos, obras literárias e prêmios recebidos. Trata-se de um livro longo, com ensaios de assuntos altamente amplos e inesgotáveis em uma simplista resenha.

 

Referência:

FERRAZ, Salma (Org.). Pelas Frestas da Caverna: Júlio de Queiroz (ensaios). Florianópolis: FAPESC; Blumenal: Edifurb, 2014.