Pensando Junto: Literatura crítica X Literatura de entretenimento – Gabriel Gaspar

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Uma rápida e tardia apresentação da coluna

No último domingo decidi me apresentar, como impõe as nossas regras de etiqueta vigentes, deixando uma explicação sobre a coluna para o dia de hoje. Como me parece que hoje é hoje (independente do dia em você estiver lendo isso), vamos à explicação da coluna que irá ao ar, religiosamente todo domingo.
A ideia do “Pensando Junto” é fazer algo diferente do que é feito nas colunas dos grandes jornais que vocês(nós) leem(lemos) por aí – não por incompetência deles, mas por limitação técnica. Com as possibilidades da internet, nunca o colunista e o leitor estiveram tão próximos, permitindo substituir a antiga técnica da “palestra” pelo (não tão atual mas sendo ressuscitado) método do diálogo.
Sem querer dar aula de filosofia, mas quando um conhecimento é passado de uma pessoa para outra, ele até pode ser absorvido, mas tende a ser esquecido com o tempo. Já o conhecimento, quando produzido dentro da própria mente pensante, acaba por criar raízes bem mais profundas e duradouras. Quando uma pergunta é feita, se você tentar pensar em uma resposta, ela já nascerá na parte mais profunda de sua mente, chegando muito mais fundo do que qualquer outra informação que alguém tente inserir “de fora para dentro”.
Além disso, o diálogo tende a ser a principal ferramenta para a produção de novas ideias, por uma questão quase que matemática. Então vamos criar uma fórmula:
Se uma pessoa tem uma ideia “1” e outra tem uma ideia “2”, quando as duas dialogam, criam a ideia “3”. O que eu estou dizendo, na verdade, é bem óbvio:
1 + 2 = 3
E é nisso que se baseia essa coluna. Eu irei sempre propor uma ideia (1), mas quero que vocês tentem fugir da ditadura do colunista, pensando em sua própria ideia (2). Se unirmos nossas opiniões, poderemos, quem sabe, chegar a alguma conclusão(3).

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Feedback

Mais do que um dever, é um prazer agradecer todos os comentários do último post “O que leva alguém a escrever?”. Sem eles, a coluna perderia boa parte de sua finalidade, pelas razões que eu acabei de citar. Irei me conter nos elogios para não tornar essa coluna maior do que o interesse de vocês em lê-la, mas a participação de todos foi realmente importante.
No último post, quando eu abordei certos motivos que levam alguém a começar a escrever, apenas citei-os, fora de ordem. Não pensei em ranqueá-los mas, tanto pelos comentários no post quanto em outras redes sociais, percebi que, mais que a maioria das pessoas – a assustadora hegemonia – escolheu “válvula de escape” como a razão que o levou a iniciar sua arte (ou levaria, naqueles que ficaram só na intenção).
Isso me traz uma dúvida. Será esse o real motivo pelo qual a maioria os escritores começaram a escrever ou, na verdade, o motivo pelo qual a maioria dos escritores acreditam quem começaram a escrever?
É uma diferença sutil.
O que eu estou mais propenso a crer é que há uma mistura de motivos, alguns ganhando um grau de importância maior ou menor em relação aos outros. E o “válvula de escape” aparecendo como o motivo que mais barulho faz no interior do escritor, aquele que grita dentro de sua mente, querendo sair – sendo então, o motivo em que ele mais presta atenção.

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Literatura crítica X Literatura de entretenimento

Um duelo que, de tempos em tempos, vem à tona nas redes sociais é entre os amantes do que chamaremos de literatura crítica e os amantes daquilo que chamaremos de literatura de entretenimento. Para evitar confusões, a despeito de outras definições já existentes, vamos a um rápido e novo conceito de cada uma:
-LITERATURA CRÍTICA: vamos definir assim as obras literárias cujo objetivo principal é fazer o leitor pensar, seja através de questionamentos diretos ou por meio de uma história que toque em pontos de interesse ao crescimento humano.
-LITERATURA DE ENTRENIMENTO: de forma bem simples e direta, como prefere esse próprio gênero literário, a literatura de entretenimento é a que tem, como objetivo principal, divertir o leitor.
Os amantes mais radicais de cada gênero se apressam em julgar a literatura crítica como chata e arrastada e a literatura de entretenimento como superficial e fútil. Evitando a cegueira de nossas paixões, temos que procurar entender a importância dos dois tipos.
Muitas pessoas passam o dia todo no trabalho ou em sua instituição de ensino (escola/ universidade) e chegam em suas residências mentalmente exaustos. A maioria procura formas mais fáceis de relaxar, como a televisão ou uma cerveja com os amigos. Aqueles que dedicam suas horas de lazer com uma literatura de entretenimento, seja ela infantil, descompromissado, leve, ou até mesmo o mais sórdido romance barato, devem ser incentivados a prosseguirem nessa jornada literária e não execrados pelos que se julgam cultos, como se esses fossem de uma espécie mais evoluída.
Já a literatura crítica, às vezes com o ritmo mais morno e lento, exige um compromisso maior do leitor – e muitas vezes recompensa aqueles que conseguem escalar os altos muros do tédio. Quem comete a redundante atividade de criticar a literatura crítica como arrastada ou difícil, pode ficar privado de verdadeiras obras-primas, capazes de emocionar e mudar uma vida.
Eu, em particular, acredito que uma obra fica melhor quando não é possível distinguir se ela é crítica ou de entretenimento. Agradam-me mais aquelas que se equilibram na corda bamba que existe entre as duas classificações.
Outro fator que ainda merece ser abordado é o respeito que só o tempo é capaz de conceder. Esse tipo de respeito, muitas vezes abençoa a literatura crítica e condena a de entretenimento. Mas isso é assunto que renderia mais um post inteiro.
E você? Que tipo de literatura você costuma ler? Quem são seus três autores favoritos? Como vocês classificariam eles?
No próximo domingo, vamos conhecer os gostos de vocês e eu também direi os meus autores favoritos. E descobriremos quem ganhou o duelo.

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Essa coluna é semanal e vai ao ar todo domingo.