Pensando Junto: O que leva alguém a escrever? – Gabriel Gaspar

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Uma rápida apresentação

A boa educação me obriga a começar meu primeiro texto na coluna me apresentando. Entretanto, após mais de duas décadas convivendo comigo mesmo diariamente, ainda não posso dizer que me conheço inteiramente. Deixo para vocês me conhecerem a partir de minhas ideias e fazerem o que o ser humano sempre se apressa a fazer: julgar. Evitando a subjetividade, só me resta a objetividade, então vamos a alguns fatos.

Nasci no Rio de Janeiro em 1985 e, antes mesmo de aprender a ler, sempre fui obcecado por histórias. Foi por essa necessidade que fui alfabetizado antes do previsto – mais que um gesto altruísta de meus pais, uma forma deles se livrarem da infindável tarefa de lerem histórias diariamente para mim.

Depois que aprendi a ler, nunca mais parei. Fui para a escola, acabei me formando na Academia Militar, mas o hábito da leitura sempre esteve lá, como uma parte fundamental de minha vida. A próxima barreira que restava romper era utilizar tudo que havia observado e aprendido em meus próprios livros.

Mas calma. Eu sei que vocês não estão aqui para me conhecer de fato. Não vou entediá-los falando de todos os pormenores de minha vida. Vocês entraram nesse site para ler sobre literatura – com o perdão da metalinguagem.

Então, como é dito em uma oração, que seja feita a vossa vontade.

***

Por que escrever?

Como primeiro assunto dessa coluna, convido vocês à uma rápida reflexão sobre o seguinte tema: o que leva alguém a escrever?

Vários motivos podem responder essa pergunta. Vamos citar quatro:

– VAIDADE: muitos autores começam e escrever pela simples vontade de ver seu nome estampado na capa de um livro. Talvez se for o único, esse seja o motivo mais fútil e errado – essa palavra é meio pesada e taxativa, mas quem sou eu para fingir que não julgo os outros? O processo de escrita é muitas vezes longo e solitário e, quem resolve percorrer essa estrada pensando apenas em fama, muitas vezes acaba desistindo ou priorizando a velocidade frente à qualidade da obra. Mesmo assim, muitos escritores bem sucedidos tem um pouco de vaidade dentro de si, ainda que não admitam. Quem não quer ter o seu nome em uma capa, ou usa um pseudônimo ou escreve um diário. Se for utilizada com moderação – como tudo nessa vida – pode servir como um estímulo útil nos momentos de insegurança do autor.

– PROTESTO: não é segredo para ninguém que o ritmo de nossa sociedade está sempre em progressiva aceleração. O volume de informações e atividades hoje é maior do que há dez anos e os dessa época, por sua vez, já eram maior do que na década anterior. Além disso, o espírito de cada época é diferente da que sucedeu. Chamem isso de choque de gerações, de zeitgeist ou de qualquer outro nome, mas a verdade é que sempre tivemos, temos e sempre teremos pessoas que não se encaixam perfeitamente na forma de pensar de sua época. Esses pensadores, estejam defendendo a manutenção das ideias antigas ou as mudanças pelas ideias novas, muitas vezes encontram na escrita uma forma de atingir um grande número de pessoas para suas causas.

– VÁLVULA DE ESCAPE: como foi explicado no motivo anterior, sempre existem pessoas insatisfeitas com algo, seja por sua forma de ver a sociedade ou mesmo por causa de algum sentimento conflitante. Para essas pessoas, a escrita pode ser um recurso útil como forma de desabafo. Esse talvez seja o motivo pelo qual é escrito a maioria das poesias e até mesmo os livros do controverso gênero “literatura fantástica” – talvez o gênero mais popular a promover o escapismo. A válvula de escape pode ser utilizada também para sentimentos considerados mais positivos, como alegria e amor – embora haja a tendência de se valorizar mais a perda e a dor.

– LEGADO: dizem por aí que a única certeza que temos na vida é a morte, correto? Errado. Existe uma forma de se alcançar a imortalidade: por meio de suas ações. Grandes personalidades tem seus feitos recordados e suas vidas revividas geração após geração – e os grandes escritores figuram entre elas. Se sua ideia for suficientemente inspiradora, coerente ou revolucionária (melhor ainda se for tudo isso junto) há chances de você conseguir atingir pessoas muito após a sua morte. E é atrás desse pote de ouro que vivem alguns escritores.

É claro que existe um número quase infinito de autores que já pisaram, ou ainda pisam na superfície da Terra. Seria muita pretensão – e até ingenuidade – classificar os motivos de todos eles somente nesses quatro grupos, até por que muitos escritores tem pavor de serem classificados. O que me faz levar a pergunta até você, que até agora estava na confortável posição de leitor. Se você escrevesse, por qual desses motivos seria? Haveria algum outro? E, se você já escreve, o que te levou a fazer isso?