Pensando Junto: Quem lê os autores brasileiros de ficção? – Gabriel Gaspar

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Como sempre, vamos a um rápido feedback da semana passada e depois à coluna dessa semana.

Feedback

Na semana passada, vimos as dificuldades de se ensinar literatura clássica aos jovens estudantes. Normalmente, nós só armazenamos na memória informações que despertam emoções. Aí está o maior desafio no ensino dos clássicos. Alguns temas abordados por eles são universais, ainda que possam estar escondidos atrás de um linguajar rebuscado e distante do dia a dia do jovem. Uma tarefa que está ao alcance dos professores é ressaltar esses temas universais, naturalmente vividos pelos alunos, a fim de criar uma identificação maior.
Uma possibilidade bem simples é permitir que, pelo menos à vezes, os alunos possam escolher o livro que querem ler. Antes de obrigarmos os jovens a ler, temos que ajudá-los a desenvolver o gosto pela leitura.

Os professores podem incentivar também, já na infância, a escrita de um diário ou de planos para as férias – sempre lembrando que a escrita está atrelada à leitura.

Além disso, foi abordado um assunto importante nos comentários e que estava passando por despercebido: a importância dos pais nesse processo de incentivo à leitura. Muitas vezes cobramos muito dos professores e esquecemos que a educação começa em casa.

Muito obrigado a todos que comentaram, a discussão foi realmente enriquecedora e tivemos a oportunidade de aprender bastante. Para quem ainda não leu, convido a lerem os comentários do último domingo.

E vamos ao tema da semana.

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Quem lê os autores brasileiros de ficção?

Vendo a lista dos livros mais vendidos dessa semana, me deparei com um fenômeno… curioso. (optei pela palavra curioso, embora, como escritor eu gostaria de dizer preocupante. Mas, raios. Não vamos ficar preocupando vocês com minhas preocupações. Vamos nos ater à curiosidade do fato).

Na lista dos 20 autores de ficção mais vendidos, 19 são estrangeiros e apenas 1 é nacional.

Nessa semana o herói nacional era o Paulo Leminski, em um fenômeno que nos trouxe admiração e, de certa forma, surpresa. Mas, se olharmos a listas de outras semanas, o resultado pouco ou nada se altera, apenas mudando o nome do nosso filho pródigo que conseguiu ser lido pelos seus compatriotas (quando há um).

Já quando olhamos para as listas dos mais vendidos de não-ficção e de autoajuda, o cenário sofre uma mudança brutal. Nessas listas, mais da metade dos autores são nacionais.

Por que isso acontece?

Refleti sobre o tema e algumas possíveis explicações vieram a minha mente.

Quando um leitor está procurando um livro de autoajuda, normalmente, ele está atrás de uma leitura que vá ajudá-lo a resolver problemas e superar obstáculos do dia a dia. Por isso, há uma tendência maior que ele procure livros que estejam mais próximos à sua realidade. O mesmo acontece com livros de biografia que, muitas vezes, são escritos visando inspirar o leitor a seguir as qualidades de seu ídolo (ou a não seguir seus erros, se este teve um fim trágico).

Já livros de ficção, normalmente, são lidos por outros motivos. Muitos (não todos, acalme-se) procuram esse tipo de literatura visando o escapismo – uma fuga de sua realidade. Mesmo os livros de ficção mais profundos, que levam a algum tipo de reflexão, o fazem levando o leitor a um mundo de metáforas e analogias. Por isso, algumas pessoas se sentem “incomodadas” em ler algo tão próximo de sua realidade.

Outro fator que contribui para esse cenário é aquele abordado na coluna da semana passada. Muitas vezes o leitor brasileiro é apresentado aos livros de ficção nacional na escola, em um momento em que ainda não estão amadurecidos suficientemente para esse tipo de leitura. Se os jovens (ou pré-adolescentes, ou crianças ou qualquer outro tipo de denominação que eles estejam recebendo) pudessem ler Monteiro Lobato – para ficar em um exemplo – ao invés de José de Alencar (nada contra, Zé), talvez eles aprendessem desde cedo que a ficção nacional é capaz de proporcionar o escapismo e ensinar tão bem quanto os livros de ficção de qualquer outro país.

Além disso, observamos que muitos dos livros de ficção que estão na lista dos mais vendidos são de filmes que estão ou estiveram em cartaz recentemente. Mas vamos falar da influência do cinema na literatura em outro post.

Agora me responda você, leitor da coluna e dos mais diversos tipos de livros, você costuma ler autores de ficção nacionais ou internacionais? Por quê? E os livros de não-ficção e autoajuda?

Você lê? E se lê, são de autores nacionais?

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