Pensar para ler, ler para pensar (ou Schopenhauer nosso de cada dia)

Schopenhauer propõe a questão que muitos de nós evitam (ou simplesmente ignora)

maxresdefault“Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para poder ter lido tanto!” A arte de escrever – Schopenhauer

É difícil para nós, ávidos leitores, admitirmos. Como todo viciado, negamos o vício até a morte. Escondemo-nos dessa pergunta atrás de dezenas de páginas lidas cotidianamente. Mas de repente baixamos a guarda e ela nos surpreende: será que o que no fundo nos motiva a ler tanto não é a dificuldade de pensar por si mesmo? Será que viajamos por tantos universos ficcionais pela nossa incapacidade de criar os nossos próprios?

Não estou aqui querendo desencorajar a leitura, e nem mesmo colocá-la em competição com o pensamento autônomo. Os melhores pensadores sempre foram também os melhores leitores. O segredo dos mais criativos é não ser tão criativos assim, eles têm referências mais ou menos explícitas. Produzir é reproduzir, mas reproduzir também precisa ser produzir. O ponto é que, com a avalanche de informação disponível hoje, a tendência é priorizarmos um em detrimento do outro. Perde-se o equilíbrio e nos tornamos meros reprodutores de frases prontas, viajantes de universos já conhecidos, cabeças que só pensam por meio de outras.

Schopenhauer, em A arte de escrever, exorta-nos nesse sentido. Ele olha para os eruditos de sua época como pessoas que comem muito, mas nada digerem. Como homens que usam peruca por lhes faltar cabelos próprios. “A maior parte de todo o saber humano, em cada um dos seus gêneros, existe apenas no papel, nos livros, nessa memória de papel da humanidade. Apenas uma pequena parte está realmente viva, a cada momento dado, em algumas cabeças.” Ouçamos o conselho do filósofo e coloquemos nossa cabeça, que é tão capaz disso quanto a dele, para funcionar.

Aprendi que, quanto ao pensar e escrever, o que vale é o processo, e não o resultado. O ato de pensar vale mais que o pensado, o ato de escrever mais que o escrito. Devir-pensador e devir-escritor é uma das melhores experiências que nos foi reservada debaixo do sol. E uso aqui pensar e escrever quase como sinônimos propositadamente, são irmãos que trabalham melhor juntos. Conhecer o que os grandes pensaram é uma boa parte do caminho, mas não o destino final, este está nas ideias próprias. Toda semente precisa morrer para dar fruto e todo escrito precisa inspirar novos para cumprir seu propósito. Se somos homo literatus, sejamos também homo cogitatio.

Victor Barcellos Author

Graduado em Comunicação Social da ECA-USP, autodidata incansável, escreve por não ter dinheiro para o psiquiatra.