Pequenas impressões sobre o amor

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Você saberia dizer a diferença entre amor e paixão?

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Não é fácil escrever sobre o amor, um tema difícil, complexo, dá aquele receio de escorregar no piegas. Afinal não vivemos mais nos tempos do sentimentalismo exagerado. Em compensação caímos no outro extremo: o do lento empobrecimento da percepção dos sentidos na era dos “amores” imediatistas. Mas esse amor sensual se mantém ainda intrigante e confuso. Enquanto outras formas de amor são consideradas nobres, o sentimento que envolve o prazer e a atração física, aquilo que chamamos de paixão, carrega desde sempre uma certa interdição, um certo quê de pecado, de obsceno. Mas amor e erotismo podem ser independentes um do outro?  Em que ponto o amor e o erotismo se rompem? Se a paixão vem antes do amor, é possível dizer que a atração é o primeiro e grande impulso? Mas podemos nos apaixonar por alguém por quem não tivemos uma atração física inicial?  É possível vir a amar alguém por quem nunca estivemos apaixonados? Toda paixão se transforma em amor?

Algumas paixões, como diria o poeta, se tornarão uma chama constante queimando devagar ao longo do tempo, outras depois de grandes labaredas se extinguirão de repente, dela só restando cinzas ou nem isso. Já tentaram nos convencer que o amor teria sua morada em um plano celestial, quase inalcançável, enquanto o erotismo como manifestação da sexualidade, terreno e carnal que é, tem pouco ou nenhum valor. Este é um pensamento do qual se valeu por muito tempo a moral religiosa: de que o amor é um sentimento mais elevado, separado do desejo físico. Já os gregos antigos acreditavam que o amor pleno se dava no encontro entre corpo e alma, como na lenda da mitologia grega representados na famosa obra Eros e Psiquê do italiano Antônio Canova.

Enquanto a psicanálise se ocupa em dissecá-lo, a arte em criar uma estética do amor, a literatura e a filosofia têm ao longo do tempo refletido e até nos alertado sobre este sentimento que é uma das maiores necessidades  humanas. Para Platão, amamos aquilo que desejamos e desejamos aquilo que não temos. A partir do momento que temos, não amamos mais. Nietzsche em Crepúsculo dos ídolos diz:

Todas as paixões têm um período em que são meramente funestas, em que levam para baixo suas vítimas com o peso da estupidez – e um período posterior, bem posterior, em que se casam com o espírito, se ‘espiritualizam.

Ele está se referindo ao perigo dos extremos quando as paixões se sobrepõem à razão, o que é verdade, mas ele está também falando da “espiritualização da paixão”. Porém nem toda paixão se “espiritualiza”, algumas não passam da primeira fase, ou acabam ou se destroem. Mas atire a primeira pedra quem não gostaria de viver essa “estupidez” inicial da paixão, pelo menos uma vez na vida?

Alguns autores naturalistas como o escritor português Albino Forjaz, tinham uma visão completamente desencantada sobre a humanidade e portanto sobre o amor. Para ele no amor só há desejos como na vida só há interesses. Somos todos vaidosos e egoístas. Melhor não pensar muito nisso para não começar a lhe dar razão, mas Freud possivelmente concordaria com o escritor, pois diz a mesma coisa quando discorre sobre o narcisismo.

Albino Forjaz se aproxima de Schopenhauer que no livro O Mundo como Vontade e Representação, nos apresenta o amor como sendo um instrumento da vontade, e não de uma escolha pessoal ou racional. O amor é portanto egoísta, engana o indivíduo em benefício próprio. A paixão para Schopenhauer seria apenas artimanha da vontade da natureza imposta à vontade dos indivíduos para a preservação da espécie. Ou seja, todo o erotismo que leva os apaixonados ao prazer é pura ilusão, é apenas o gênio da espécie cumprindo sua função, tão somente instintos mais elaborados. Porém uma ilusão que nos leva ao constante sofrimento, inútil e nada romântico.

Afinal, amamos a outra pessoa ou a ideia que fazemos dela, como diz Fernando Pessoa em um de seus poemas no Livro do Desassossego?

Nunca amamos ninguém. Amamos, tão somente a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso – em suma, é a nós mesmos – que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa.

Já na linguagem poética de Hilda Hilst o erotismo profano é a transgressão do amor. O amor seria então a “transcendência” do erotismo. Nesse ponto a poetisa parece se aproximar de Nietzsche. Enquanto o erotismo transgride o amor, o amor sacraliza o erotismo em uma espécie de metamorfose erótico-amorosa.

Esta é sem dúvida a mais bela imagem poética sobre amor e erotismo.