Perda, angústia e redenção em Rebentar, de Rafael Gallo

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Rafael Gallo, vencedor do premio Sesc de Literatura 2011/2012 aborda tema importante e delicado em seu primeiro romance

Rafael_Gallo03Neste exato momento, uma criança está se soltando das mãos de sua mãe em um lugar comum, como um shopping center ou um parque, e nunca mais vai voltar a vê-la. Para a maioria das pessoas pode parecer uma possibilidade remota, mas, de acordo com estimativas oficiais, cerca de 40 mil crianças e adolescentes desaparecem todos os anos somente no Brasil, por diferentes causas (crimes de pedofilia; estupro seguido de morte; fuga de casa devido a maus tratos; prostituição infantil; tráfico de órgãos; adoção ilegal; dependência química etc). E os números podem ser ainda maiores, pois nem todos os casos são devidamente registrados. Esses dados mostram que a sociedade deve ficar atenta (saiba mais nesta matéria do jornal O Globo).

Levar as pessoas a essa constatação é, logo de início, o grande mérito do escritor Rafael Gallo, com seu primeiro romance, Rebentar (Record). O autor foi vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2011/2012 e finalista do Prêmio Jabuti 2013 com o livro de contos Réveillon e outros dias, sua primeira publicação.

rebentarEm Rebentar, Rafael Gallo conta a história de Ângela, uma mulher que perde o filho, Felipe, de cinco anos, em uma galeria de lojas. Passados trinta anos do desaparecimento do menino, sem que haja pistas sobre o que aconteceu com ele, a mãe decide encarar a perda como algo definitivo. A jornada de Ângela revela o ciclo de angústia e dor que cerca uma família atingida pela subtração de um ente querido, mostrando que a ausência forçada e indefinida pode tornar-se mais avassaladora do que a própria morte.

Por meio dos dilemas de Ângela, e de seu relacionamento com o marido (Otávio), com a sobrinha (Isa) e com membros de grupos de apoio a mães de filhos desaparecidos, o autor aborda um tema importante e delicado. Mergulhamos em um turbilhão de sentimentos contraditórios e tentamos nos colocar no lugar da protagonista, que luta para recuperar algo da própria vida, depois de sofrer a maior perda que se pode imaginar para uma mãe. Mas, pode ainda haver felicidade para os pais que perdem um filho dessa maneira?

Após viver trinta anos dentro de um universo estilhaçado pela perda de seu garoto, a verdade, para Ângela, é que a sua renúncia a acreditar em um reencontro era a última chance de juntar cacos de sua vida e formar um pequeno pedaço de chão onde pudesse pisar, para continuar caminhando. (p. 312)

A leitura dessa obra provoca desde angústia e ansiedade até compaixão e esperança, dosadas pelo escritor com grande habilidade em um texto fluido. Em certos momentos, o autor pode parecer um pouco repetitivo, apresentando os mesmos raciocínios de Ângela em diferentes partes do livro. No entanto, quantas vezes uma mãe, na situação da personagem em evidência, deve se fazer as mesmas perguntas ou ter os mesmos pensamentos ao longo do tempo que passa afastada de um filho contra sua vontade. Uma tortura autoinfligida com indagações como: “E se eu não tivesse soltado a mão dele?”; “E se eu tivesse procurado mais?”; “E se tivéssemos ficado em casa naquele dia?”.

O livro também abrange questões como: o despreparo da sociedade e das autoridades para lidarem com casos de desaparecimento ainda nos dias de hoje; a diferença de tratamento com as vítimas e famílias de acordo com a classe social; a brutalidade da violência sexual contra crianças; entre outras.

Certamente, Rebentar contribui para que pensemos com mais profundidade não só nas pessoas desaparecidas e em suas famílias, como também no papel de cada um de nós na prevenção desse tipo de crime, em que uma simples omissão pode custar vidas. Muito além do entretenimento, a obra de Rafael Gallo cumpre uma importante função social. Ponto para a nossa literatura!

Para quem quiser saber um pouco mais sobre o assunto abordado no livro, seguem alguns links:

www.desaparecidosdobrasil.org
www.maesemluta.org.br
www.maesdase.org.br

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