Peter Pan e a ditadura infantil na Terra do Nunca

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Uma análise mais profunda sobre Peter Pan mostra que a Disney, talvez, tenha nos contado a história certa da maneira errada

gavin-oconnor-direct-neverland-peter-panÉ conhecida a história infantil do Peter Pan, menino que habita a Terra do Nunca, onde as crianças nunca crescem e só brincam. Na psicologia, o personagem originou o Complexo de Peter Pan, usado para estudar casos de adultos infantilizados, que apresentam dificuldade em lidar com as responsabilidades da vida de gente grande. Como a maior parte dos contos de fadas, a obra, escrita por J. M. Barrie em 1911 e adaptada diversas vezes ao cinema e ao teatro, permanece atual. Muitas pessoas desejam se manter eternamente na infância ou na adolescência, se recusando a amadurecer. Crianças que se sentem abandonadas pelos pais e mergulham num mundo de fantasias próprio também são exemplos comuns associados à história de Pan.

O mais curioso é que o livro mostra os perigos de um reino mágico governado por uma criança. Diferente do que se possa pensar inicialmente e do que se observa na versão amenizada da Disney, a Terra do Nunca não é apenas fruto da imaginação de um menino criativo e inocente. Ela representa os limites entre a ficção e a realidade. As brincadeiras de criança precisam continuar no terreno da fantasia, pois, quando se concretizam, acabam por se tornar assustadoras. As ameaças ali são reais, da natureza selvagem aos piratas cruéis, o que torna a sobrevivência difícil e tira grande parte da diversão. Peter, o criador daquele universo e líder dos Meninos Perdidos, também não é uma figura angelical. Ele é bastante autoritário, incarnando o egocentrismo imediatista infantil. Chega a punir quem o desobedece com castigos fortes, ou até mesmo a morte. Se ele acredita piamente em sua ilusão, a ponto de se satisfazer com refeições imaginárias, os outros meninos sofrem com a ausência da proteção familiar.

Wendy encarnaria, então, a figura materna: ela vai para a ilha, cuida dos meninos e ajuda Pan na administração. Seus irmãos entram na brincadeira de maneira tão intensa que começam a se esquecer da figura da mãe, mas a menina os lembra de sua família de origem. Ela é a ponte entre os dois reinos, o real e o imaginário. O Capitão Gancho seria a ameaça paterna na detenção do poder. Seu inimigo, além de Pan, é um crocodilo que arrancou sua mão, por isso ele passou a usar o gancho. O crocodilo engoliu um relógio, sua barriga faz barulho de tic-tac. Uma metáfora para o tempo, que, aos poucos, nos devora. Na batalha final, Peter vence Gancho, que cai no mar para alimentar o crocodilo. A juventude triunfa. Mas há um preço a se pagar: a liberdade da eterna juventude impõe um caminho solitário de ilusões. Os Meninos Perdidos vão embora com Wendy e são adotados pelos Darling. Apenas Peter continua em sua Terra do Nunca, visitando eventualmente a família e levando algum membro para passar uma temporada de aventuras com ele.

O universo infantil é muito rico, pleno de imaginação criativa. Quando se cresce, perde-se o encanto, correndo o risco de se tornar um adulto sem graça, chato, burocrático. No entanto, permanecer para sempre na infância também não é o ideal, pois não se adquire noções de limite e convivência conjunta para viver bem em sociedade. Deve-se sempre buscar o equilíbrio, ciente das fronteiras entre a fantasia e a realidade.

Analisando crianças e adultos da nossa época sob a perspectiva da história de Barrie, observamos que o exercício do despotismo infantil não se restringe mais à Terra do Nunca, e se faz presente em muitos lares, de classes sociais variadas. Em vez de o adulto impor sua autoridade à criança, ensinando-lhe os limites do socialmente aceito, é a criança quem impõe suas vontades aos pais, que, por preguiça, insegurança, ou para tentar suprir a falta de atenção cotidiana, obedece prontamente. Infantilizados os adultos, eles se igualam às crianças, gerando um reino caótico sem leis. Com isso, as crianças crescem inseguras, imaturas, presas a ilusões de consumo e a desejos cada vez mais irrealizáveis. Educarão seus filhos da mesma maneira e formarão um círculo vicioso, uma Terra do Nunca perpétua. A responsabilidade da maternidade e da paternidade não pode ser encarada como uma simples aventura. É preciso crescer para permitir que as crianças cresçam, ensiná-las e aprender com elas. Na verdade, necessitamos de mais Wendies e menos Peter Pans. Para que a brincadeira seja saudável, ela precisa terminar em algum momento e se confrontar com a realidade. Pan já nos alertou dos perigos de morar na Terra do Nunca. Não devemos repetir a história.

Referência:

CORSO, Diana Lichtenstein; CORSO, Mário. Fadas no Divã – Psicanálise nas Histórias Infantis. Porto Alegre: Artmed, 2006.