Pílulas para dormir, acordar e resistir: O Vale das Bonecas, de Jacqueline Susann

2
1140

Em O Vale das Bonecas, Jacqueline Susann mostra como a fama e o dinheiro podem ser o caminho mais curto para a infelicidade e a autodestruição

aug-20-jacqueline-susannJacqueline Susann nunca alcançou fama com a carreira de atriz. Ganhou papéis no teatro, na televisão e até na Broadway, mas as aparições secundárias eram insuficientes para alavancá-la ao sucesso. No entanto, a vida no showbiz teve sua serventia: inspirada pelos bastidores, Susann escreveu uma peça e, encantada pelo processo autoral, passou a trabalhar em um romance, O Vale das Bonecas. Com o livro pronto, a experiência como atriz mostrou-se novamente útil – ela soube promover seu trabalho como ninguém, viajando por todos os países de língua inglesa e criando o conceito de “book tour”. O Vale  das Bonecas tornou-se um fenômeno, o qual, ao longo das décadas, vendeu mais de 30 milhões de exemplares.

Boa parte desse sucesso deve-se a um certeiro retrato social: escrito em 1956, o romance mostra bem como algumas ideias feministas começam a borbulhar em uma sociedade de papéis divididos por gênero, cujas mulheres não têm domínio sobre seus corpos e carreiras:

Não esqueça nunca que este mundo é dos homens, e que as mulheres apenas reinam nele enquanto são jovens e muito bonitas. Você vai constatar isso um dia.

Outro fator que torna o livro interessante – e, infelizmente, atual – é a abordagem da obsessão por padrões estéticos inalcançáveis. Homens mais velhos recusam mulheres de sua idade (por eles chamadas de “morcegos”), pois seu dinheiro e poder atraem jovens modelos. E essas são logo substituídas por outras ainda mais jovens e esbeltas. A regra é clara: uma mulher deve exalar juventude, beleza, bom humor e disposição. Não há espaço para irritação ou cansaço. Exigências tão absurdas, que as jovens sucumbem às “bonecas”: antidepressivos, estimulantes e remédios para dormir.

É interessante como a autora brinca com a ideia de “boneca”. Ela se apropria do termo, utilizado pejorativamente como sinônimo de “esposa-troféu”, para batizar as drogas em que suas personagens são viciadas. Segundo Susann, do mesmo modo que uma menina se isola da realidade ao brincar de boneca, uma mulher adulta pode fugir com uma dose de anfetaminas. E suas protagonistas fogem. Todas elas.

O romance tem três núcleos principais, centrados em Anne Welles, Jennifer North e Neely O’Hara. Ao longo da obra, acompanhamos cerca de vinte anos na vida das personagens e, embora as três histórias sejam costuradas, cada uma dessas mulheres vive um drama particular.

Anne é uma jovem inteligente e bem educada, que deixa a vida interiorana em busca das possibilidades da cidade grande. Trabalhando como secretária em uma agência de talentos, ela vê os bastidores da fama e o lado podre do glamour. Seus relacionamentos não duram, pois os homens a tratam como um bibelô, mas ela quer ser independente. Mesmo quando acredita ter encontrado o amor verdadeiro, Anne é acusada de ter emasculado o parceiro. As frequentes desilusões amorosas levam-na a experimentar as pílulas. Primeiro, para conseguir dormir e, em seguida, para esquecer a dor.

Jennifer, uma atriz lindíssima, porém pouco talentosa, é tida como prêmio entre os ricos e famosos. Vista como uma piada por sua atuação e maltratada pelos homens de sua vida, vai para Europa, onde começa a fazer filmes pornográficos camuflados sob a alcunha de “cinema-arte”. Passa a namorar uma jovem espanhola, na esperança de que o relacionamento com uma mulher seja mais terno. No entanto, a parceira se mostra igualmente possessiva e ciumenta. Sem dinheiro e sem saída, Jennifer tenta recobrar o controle tomando ansiolíticos.

E Nelly, a mais jovem do trio, é uma corista dedicada, a qual consegue fazer a transição da Broadway para Hollywood. Ao tornar-se cada vez mais conhecida, ela descobre que o sucesso traz muitas demandas. As gravações ocupam quase todo o seu dia, e as poucas horas vagas são passadas em eventos. Além disso, apesar de bela e saudável, a moça precisa perder peso para ficar mais sensual na tela. Sem tempo para uma dieta, ela recorre às anfetaminas para emagrecer. E, vendo que o medicamento dá energia para aguentar as exaustivas horas no estúdio, Nelly passa a tomar doses cada vez mais fortes – até não conseguir mais dormir. Em pouco tempo, a estrela entrega-se aos sedativos.

Reviravoltas e cenas vibrantes prendem o leitor, mas o melhor desse drama é seu realismo. Sem floreios, a autora expõe uma realidade na qual jovens inteligentes e belas têm de lidar com exigências tão absurdas, que se afogar em remédios parece fazer sentido. Ao narrar os relacionamentos frustrados e a constante sensação de abandono, Susann monta uma obra que faz jus às suas protagonistas: intensa e surpreendente, mas, acima de tudo, triste.

Publicado no Brasil desde os anos 60, O Vale das Bonecas teve diversas versões. A mais recente, de 2002, consta do catálogo Clássicos Best-Sellers da Record, que também publica a continuação da obra, De volta ao Vale das Bonecas. Esse segundo volume é de autoria de Rae Lawrence, pois Susann faleceu antes de concluí-lo. No entanto, a autora deixou dezenas de anotações, usadas por Lawrence para escrever a história.