Poesia, substantivo feminino de combate

2
2103

A falta de reconhecimento da poetisa Charllote Delbo

kalavrita-thrinos-a

“Se cortássemos essas palavras, elas sangrariam.” Com esta frase do poeta Ralph Waldo Emerson inicio esta série de resenhas de perfis fundamentadas, nada pretensioso com relação à erudição, mas sim de um leitor que busca absorver cada material como se fossem proteínas bem nutritivas.

Imerso em poemas escritos por mulheres ao longo destes tempos, venho captando uma potencialidade estupenda no que tange imagética e sintaxe nas levas de obras que refutam e atritam-se com certos jargões da poesia, os quais julgam a poesia como algo melindroso, pomposo e cometem um genocídio de negligenciar aqueles poemas escritos por mulheres com a premissa de serem poemas românticos, bonitinhos, com uso de  signos exaustivos que remetem sol, lua, coração, amor, etc e tal; para caricaturar melhor a situação exponho um verso do Bandeira que me encuca bastante:

“Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.”

Contudo, se propusermos a uma escavação arqueológica na vida e obra de certas poetas vê-se que a estória é mais potente que um soco.

Em 24 de janeiro de 1943, 230 mulheres foram deportadas de trem pelo exército alemão. Nenhuma era judia. A detenção era motivada por sua resistência à ocupação nazista da França na Segunda Guerra Mundial. Após três dias de viagem, as portas dos vagões se abriram, revelando o destino final: o campo de concentração Auschwitz-Birkenau. Do total de passageiras do chamado “comboio 31000” , apenas 49 sobreviveram. Entre elas estava Charlotte Delbo (1913-1985), marcada pelo número “31661” tatuado no braço e pelas memórias dos 27 meses vividos no campo de extermínio.

Charllote Delbo
Charllote Delbo

E foi diante desta situação que o poema surge como uma válvula de escape, como uma sessão de descarrego, deixando de ser tão somente uma atividade literária, para tornar-se  uma atividade vital.

 Charlotte Delbo fez literatura de sua experiência. É clara a sensibilidade de mulher em seus escritos, e também o fato de que fala sempre em “nós”, quase nunca usa o “eu”, como faz Primo Levi, por exemplo. É uma diferença essencial em relação aos demais relatos dessa natureza —  diz Violaien Gelly.

Ao contrário de outros autores que abordaram em suas obras a vivência dos campos, como Primo Levi, David Rousset, Robert Antelme, Jean Cayrol e Jorge Semprún, Delbo nunca teve o reconhecimento merecido, na opinião de seus biógrafos. As explicações aventadas para esse esquecimento são variadas: sua aversão à exposição e à autopromoção, o pouco caso dado ao papel das mulheres na história da resistência francesa, e também o fato de ser uma mulher escrevendo sobre mulheres.

— O sofrimento das resistentes que foram presas, deportadas e depois retornaram não foi reconhecido como o dos homens. Delbo, com suas palavras, com a forma pela qual coloca em cena a carne, o corpo, a mulher, confrontou o leitor com esta realidade. Mas os homens daquela geração tinham dificuldade em ver isso —  sustenta Gelly.

Embora sua obra seja hoje objeto de análises feministas e estudos de gênero na academia, Delbo sempre rejeitou o rótulo de “escrita feminina”: “Não sou uma mulher quando escrevo. Não há experiência diferente entre os homens e as mulheres nos campos. Apenas um sofrimento comum. O sistema concentracionário garantia uma perfeita igualdade entre homens e mulheres” disse certa vez, ironicamente.

Libertada pela Cruz Vermelha em abril de 1945, após passar pelos campos de Raisko e Ravensbrück, Delbo foi repatriada para a França, via Suécia, em junho do mesmo ano. Embora tenha começado a escrever de imediato, sua primeira obra, Nenhum de nós voltará — concluída em apenas um mês —, só foi publicada 19 anos depois.

Comboio de 24 de janeiro, de 1966, uma minuciosa pesquisa por meio de fichas biográficas, Delbo construiu um memorial com o nome e a história de todas as 230 mulheres levadas no mesmo trem da França para Auschwitz naquele janeiro de 1943. “Ao fazer este livro”, explicou, “eu queria apenas responder à questão: quem eram essas mulheres que estavam comigo? O que elas fizeram? Na maioria dos casos, nós não sabíamos, e elas morreram antes de nos dizer”. Delbo sobreviveu e, à sua maneira, usando uma das melhores armas, a Literatura, e como disseram sobre o Lorca, “ mata mais que revólver “.

Oração aos vivos para que sejam perdoados por estarem vivos

Eu suplico-vos
fazei qualquer coisa
aprendei um passo
uma dança
alguma coisa que vos justifique
que vos dê o direito
de vestir a vossa pele o vosso pêlo
aprendei a andar e a rir
porque será completamente estúpido
no fim
que tantos tenham sido mortos
e que vós viveis
sem nada fazer da vossa vida.