A poética pós-guerra civil do Estórias Abensonhadas, de Mia Couto

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Mia Couto é um dos grandes nomes da Literatura Contemporânea. Sua escrita poética rende contos que cativam o leitor

couto, mia

O percurso artístico do escritor moçambicano Mia Couto (1955) é reverenciado fortemente na seara literária contemporânea. Profícuo, principalmente, na prosa é contemplado por vários prêmios significativos, como o Prêmio Camões (um dos principais da literatura em língua portuguesa).

Antes de adentrar no livro em si, é necessário estabelecer pressupostos acerca do contexto histórico-social que sustentam as histórias da obra.

Moçambique é um país construído na égide da exploração do colonialismo português, como alguns dos países africanos. É recente a descolonização do país, já que a Luta armada pela libertação nacional (Guerra pela independência); entre a Frente de libertação de Moçambique, FRELIMO (onde Mia Couto foi militante), e as Forças armadas de Portugal, teve início no começo da década de 60 (com duração de 10 anos, tornando-se independente de Portugal em 1975). Mas anos depois se configura uma dura e longa Guerra civil (1977 – 1992), decorrente do impasse entre FRELIMO (que assume o poder e declara Moçambique um estado monopartidário marxista) e os rebeldes da Resistência nacional moçambicana, RENAMO. A guerra tem como princípio do fim, e consequentemente do Acordo Geral de Paz, o abandono da ideologia marxista e revisão da Constituição do país (texto abordando um sistema político multipartidário), no começo da década de 90. Atualmente, o país é governando altivamente pelo FRELIMO. E Mia Couto não mais se envolve com política (em sentido restrito), não militando para esta ou aquela ideologia, ou seja, sem vínculo partidário, mas participando de uma política abrangente; já que “todo ser humano é um animal político’’, engajando-se na política (de modo amplo) em forma de literatura, ensejando reflexões pelo viés poético; pois é articulista de jornais.

terra-sonamO aclamado romance Terra Sonâmbula (1992) apresenta, em suma, duas narrativas (trajetórias) que se entrelaçam pela conjuntura árida da guerra civil moçambicana, de forma ‘fabulada’. Como Mia concebe a escrita pelo prazer de tal ato, ao escrever Terra Sonâmbula emerge dissonância de seu fluxo, pois como ele mesmo diz: “a escrita dele foi a única que me deu dores de parto”. Primeiro romance do escritor que se apoia, implicitamente, na citação de Tolstói: ”Se queres ser universal, começa por pintar sua aldeia”.

Leia a resenha completa de Terra Sonâmbula

Em 1994, é publicado o livro Estórias Abensonhadas, em plena reconstrução de uma nação moçambicana evocando porvir; ainda com ecos sutis da devassidão da guerra, já que a consciência da memória (do passado) é necessária para devires. No livro, apresentam-se estórias de um povo que começa a se articular fora da brutalidade de uma época, agora com um relacionamento de intimidade consigo de modo amplo, ou seja, o começo de um despertar de sonhos adormecidos; começando a esboçar o que a exterioridade central massacrante obscureceu, a dar lugar a um olhar mais poético.

Com 26 contos, o livro se abre para um “novo princípio, gesto e transformação” (verso do poeta Rilke). Isto se mostra veementemente no primeiro conto As águas do tempo, pois Mia se utiliza do simbolismo da água para emergir a esperança de uma transição evidenciada na aprendizagem do olhar em tempo que se vislumbra benevolente.

Nós temos olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para ver os sonhos. O que acontece, meu filho, é que quase todos estão cegos (…)

Trecho que representa a ressonância da guerra, dificultando encantamentos, com atrofiação da fé, mas com a emersão, por vezes, tímida de uma percepção vivida e frutífera. A oposição de percepções (durante e depois da guerra) é bem altiva se comparado com um trecho de Terra Sonâmbula:

A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos

A estética da escrita de Mia Couto é autônoma, no sentido de emanar “originalidade”; fortemente influenciado pela escrita rebelde, permeada de reinvenção de Guimarães Rosa (admiração sempre esbravejada por Mia). A carga dialética da oralidade e escrita são marcas indeléveis das obras do escritor, pois com a junção desses estandartes (com evidência para a oralidade), Mia procura dar voz de forma sólida à tradição africana; como meio de oferecer domínio simbólico ao povo moçambicano, já que este aspecto representa a resistência de uma nação.

No livro, observa-se a mediação das crenças populares feita pelo escritor e o jorro poético se materializando em neologismos para melhor expressar as vozes de um povo. Assim, a prosa de Mia é permeada por fluxos poéticos atenuados pela simplicidade dos arranjos singulares das palavras. “Sou mais poeta quando escrevo prosa do que quando escrevo poesia’’, enuncia Mia Couto.

O escritor construiu o livro Estórias Abensonhadas fincada nas águas, isto é, entre um conto e outro as águas, com toda sua simbologia, vem banhar e restituir vidas, estórias. Como no conto Chuva: a abensonhada:

Há quantos anos não chovia assim? De tanto durar, a seca foi emudecendo a nossa miséria. O céu olhava o sucessivo falecimento da terra, e em espelho, se via morrer. A gente se indagava: será que a alegria ainda tem cabimento? Agora a chuva cai, cantarosa, abençoada

Por vezes, tem-se o tom de vozes femininas em um percurso de desconexão a uma atmosfera restritiva, ou em um percurso sem ‘extravagantes’ perspectivas, sem conseguir caminhar definitivamente com ‘’as próprias pernas’’, a priori, como n’ O calcanhar de Virgílio.

O tempo é uma oração que Mia reza junto às vozes fervorosas que dialogam com o mar, figurando confluência com a memória necessária para inventar caminhos.

Fui caminhar na praia e a areia que o mar lambia estava toda rendada
Em meu quarto branco desenho com inédita disciplina
Das linhas úmidas do que vi, crio retratos
Uma ocupação diária que aos poucos revela minha cartografia íntima
Fio por fio, fio de ovos, fios de couro, cordões entretecidos de almas, fios de filhos, filhos cor de rosa, vestidos de casa da abelha, picolé de creme-holandês
Ponto de cruz, labirinto
Sou bordadeira de memórias

Poema da artista cearense Ana Valeska Maia, que ilustra um dos meandros fulcrais do arcabouço narrativo de Mia Couto: a lembrança (ficcionada) como propulsora de estórias e de outras lembranças.

Estórias-AbensonhadasO livro Estórias Abensonhadas, dentre outras perspectivas, é o prelúdio de uma canção cantarolada por vozes adormecidas, que tentam (re)criar uma frequência em sincronia com seus sonhos.

Utilizar a arte para desconstrução de arcaicos e opressivos sentidos, e construção de novas significações é o que Mia Couto faz: experimentando-se pela literatura.

Estórias Abensonhadas
Mia Couto
Companhia das Letras
2012
160 pág.